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SÃO PAULO – A forte valorização do dólar frente ao real durante os últimos meses certamente pode ser comparada à maxi-desvalorização de janeiro de 1999. Na época o governo Fernando Henrique Cardoso abandonava o sistema de câmbio fixo, em favor de um sistema flutuante. Como a alta do dólar, em geral, implica em aumento da inflação, a questão que fica é se o impacto no bolso do consumidor tem sido igual àquele que se verificou em 1999.
Desvalorização foi semelhante
No início de 1999 o governo abandonou o sistema de câmbio fixo, o que levou a moeda norte-americana a saltar de R$ 1,2082 no início do ano para R$ 2,10 no final de janeiro, uma maxi-valorização de 73,81% do dólar em apenas um mês. Já em 2002, o dólar começou sua trajetória de alta desde maio, quando ainda estava cotado em R$ 2,40 para se aproximar dos R$ 4,00 nas semanas que antecederam as eleições. Ou seja, em um período de cinco a seis meses o real registrou uma desvalorização de 60%.
Em 1999 a inflação, medida pelo IGP-M, acabou ficando em 20,10%, enquanto a inflação excluindo os preços ao atacado, medida pelo IPCA foi bem menor, de 8,93%. Isso sugere que o repasse da alta dos insumos de produção foi apenas parcialmente refletido nos preços ao consumidor. De maneira semelhante, a inflação medida pelo IGP-M já se aproxima dos 14% nos 12 meses terminados em setembro de 2002, frente a uma inflação de 7,93% medida pelo IPCA no mesmo período.
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Com base no relatório Focus do Banco Central, que inclui projeções de cerca de cem analistas de mercado, espera-se que o IGP-M feche 2002 em 17,05% e o IPCA 8,07%, confirmando que os preços no atacado devem subir mais do que o preço para o consumidor.
Repasse é menor em 2002
Com base em uma análise feita pelo coordenador da área econômica da Fundação Getúlio Vargas, Salomão Quadros, se compararmos a variação dos preços ao consumidor nos últimos três meses com aquela ocorrida nos meses que seguiram a desvalorização cambial de janeiro de 1999, pode se constatar que o repasse foi menor em 2002.
O economista estima que a inflação no atacado tenha ficado em 10% nos últimos três meses, enquanto entre fevereiro e abril de 1999, esta variação foi de cerca 12%. Contudo, não se pode descartar que o repasse aconteça de forma mais gradual, menos imediata como aconteceu em 1999.
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Ele lembra que, se forem excluídas as tarifas, os preços subiram pouco mais de 2%, abaixo dos 4,5% registrados após a maxi-desvalorização de 1999. A decisão de excluir o aumento das tarifas reflete o fato de que o reajuste delas é feito anualmente, de forma que a alta do dólar dó deve ser refletida no próximo ano.
Repasse pode ser apenas gradual
Como a desvalorização da moeda se deu de forma gradual, o mais provável é que os repasses aconteçam da mesma maneira. Até porque muitos varejistas adiaram a reposição de estoques, apostando em um recuo da moeda norte-americana. Como isto ainda não aconteceu, está cada vez mais difícil evitar o aumento dos preços para o consumidor.
Segundo Quadros, isto não significa que o consumidor já não esteja agora pagando mais pelos produtos, mas simplesmente que estes aumentos não têm sido tão altos quanto os registrados nos preços ao atacado, ou até mesmo em 1999. Se tomarmos como exemplo os varejistas, o repasse pode ter sido menor devido à queda da atividade da economia, que impediu que os varejistas fossem mais agressivos na remarcação de preços, com o risco de sofrer uma queda nas vendas.
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Outra possibilidade seria que o repasse esta sendo feito de forma gradual e ainda não chegou completamente ao consumidor. O economista não se arrisca a fazer previsões para o próximo ano, até porque ainda se conhece muito pouco do programa econômico do novo presidente eleito, mas arrisca apostar que não deve existir espaço para mudanças significativas na condução da política econômica, certamente não em um primeiro momento.