Psicologia da inflação: como o medo do consumidor pode agravar o quadro

Professor lembra do poder que o BC tem hoje e economistas concordam que chance de inflação galopante é remota

Publicidade

SÃO PAULO – O receio de inflação, que rapidamente se dissemina por meio das notícias na televisão, no rádio, na internet e nos jornais, pode causar pânico e levar muitos consumidores a alterar seu comportamento na hora das compras.

Na última segunda-feira (16), o IPC-S, da FGV (Fundação Getulio Vargas), mostrava que os alimentos seguem como principais vilões da inflação. O índice registrou variação de 1,07% na segunda quadrissemana de junho, chamando a atenção o aumento nos preços da batata inglesa (15,90%), do arroz branco (18,13%) e do pão francês (4,46).

A escalada de alta nos preços dos alimentos também fica evidente no IPC (Índice de Preços ao Consumidor), medido pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). A constatação é que os alimentos, com alta de 3,66%, continuaram a pressionar a inflação, mas com menos força, já que, na primeira quadrissemana do mês, haviam subido 3,68%.

Estude no exterior

Faça um upgrade na carreira!

Os riscos do comportamento do consumidor

Uma das atitudes do consumidor, em época de inflação galopante, é a estocagem. “O desespero das pessoas é tão grande que elas começam a estocar alimentos, apesar dos custos embutidos nessa atitude, já que muitos produtos são perecíveis e muitas famílias não têm espaço em casa para colocá-los”, explica o professor de economia da FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo), Fabio Kanczuk.

“Antes, nas décadas de 80 e 90, a estratégia era essa mesma”, conta o professor de economia do Ibmec São Paulo, Nuno de Almeida, em referência ao fato de que, naquela época, os preços aumentavam várias vezes no mesmo dia.

No entanto, esse comportamento é perigoso, pois pode acarretar aumento da inflação, piorando o quando econômico. “Com o aumento da demanda, os preços sobem ainda mais”, afirma Kanczuk.

Continua depois da publicidade

Almeida lembra que, para controlar a inflação, o Banco Central aumenta a taxa básica de juros (Selic), dificultando o hábito de fazer estoques.

Riscos atuais

O professor de mercado financeiro da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite, conta que, atualmente, os riscos de uma inflação galopante que leve à estocagem em massa dos alimentos quase inexiste. Isso porque os mecanismos econômicos foram aprimorados e o Brasil se encontra em patamar completamente diferente.

“Hoje, a situação é diferente. Não corremos esse risco. As famílias, de um modo geral, somente farão estoque se perderem completamente a confiança na moeda e se a inflação bater a casa dos 10% ao ano. Mas não é o caso. Pode ser que tenhamos uma situação pontual, de um alimento específico, mas a inflação não será generalizada”, pondera.

Leite lembra também do poder que o Banco Central tem hoje. “No presente, temos um BC muito mais atuante e preocupado com o superávit primário das contas públicas. Há ainda uma Lei de Responsabilidade Fiscal que impede a expansão de gastos de forma indiscriminada”.

Outra diferença é que a inflação atual dos alimentos é protagonizada por todos os países, uma vez que foi ocasionada pelo aumento no número de consumidores no mundo. Ou seja, desta vez, a inflação não é um caso localizado no Brasil.

Estoque de produtos é coisa do passado

A estocagem não representa um risco real para a economia atualmente. O professor do Ibmec São Paulo afirma que “não há um processo inflacionário no País”. “Por enquanto, somente os preços dos alimentos aumentaram um pouco, não foi um salto. De qualquer maneira, não é uma alta generalizada, portanto é difícil a estocagem virar um processo”.

Continua depois da publicidade

Kanczuk concorda. “Não há evidência de que as pessoas estejam fazendo estoque nem há perspectiva para tal, mesmo com a inflação acumulada devendo continuar em alta nos próximos três ou quatro meses”, garante. Para o professor da Trevisan Escola de Negócios, a tendência é de aumento no ritmo de oferta de produtos agrícolas no mundo. “Não haverá reprodução da escalada de alta nos próximos anos”, diz.

Porém, é claro que podem existir casos pontuais de brasileiros fazendo estoque de produtos em casa. De acordo com Leite, as pessoas mais velhas, que têm ainda muito presente a pressão sofrida no passado, com a inflação, e os mais pobres, que são os mais afetados pela alta nos preços, podem não resistir e comprar mais do que deveriam.

Mas o comportamento mais comum é a substituição de alguns alimentos que estejam mais caros por outros mais em conta. Leite finaliza lembrando que o risco maior é de indexação de preços nos salários, ou seja, o reajuste dos salários em concordância com o nível de inflação. O problema, disse, é que, ao aumentar os salários, as empresas aumentam os preços de seus produtos e serviços, causando uma reação em cadeia prejudicial para a economia como um todo.