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SÃO PAULO – O presidente da Nestlé, Peter Brabeck, afirmou no último sábado (22) ao jornal britânico Financial Times que a indústria alimentícia terá de competir com a produção de biocombustíveis. “Não encontraremos água suficiente para produzir todo o necessário. Haverá uma luta feroz por terra cultivável”, afirmou.
“Os hábitos de consumo nos países emergentes não vão se reverter”, afirmou, adicionando que enquanto espera que os preços globais de alimentos não se alterem neste ano, a tendência mais aparente é que eles continuem subindo. “Acho que teremos que viver com maior inflação dos alimentos”, acrescentou.
Por fim, o executivo afirmou que a rede pretende continuar subindo os preços de seus produtos em cerca de 3% no início de 2008, mas que espera uma redução gradativa do patamar ao longo do ano.
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Fatos
No ano passado, o preço dos alimentos subiu, em média, 10% no âmbito do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Apenas para se ter uma idéia, a variação foi significativa em relação à inflação geral, de 4,46%.
Segundo a Abrace (Associação Brasileira dos Cerealistas), de janeiro a novembro último, o preço do quilo do feijão aumentou, em média, mais de três vezes (250%): de R$ 2 para R$ 7 no intervalo de tempo. O comportamento seria motivado pelo aumento da área destinada ao plantio de cana-de-açúcar, em detrimento ao grão.
“Os agricultores preferiram plantar cana. Com isso, a área plantada do feijão diminuiu em 70% no último ano”, explicou à época o presidente da entidade, Manuel da Costa Pereira. Conforme a Abrace, em 2006, foram cultivadas 3,4 milhões de toneladas de feijão. Neste ano, serão R$ 2,4 milhões de toneladas. A cana, por sua vez, passou de R$ 373 milhões de toneladas para R$ 425 milhões de toneladas.
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De acordo com a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), a safra 2007/2008 teve caráter alcooleiro, com uma produção de etanol estimada em 19,7 bilhões de litros – um incremento de 3,7 bilhões de litros em relação à safra anterior. O mix de produção estimado ficou em 55,3%, para álcool, e 44,7%, para açúcar.
Competição
Em relatório divulgado pelo Bird (Banco Mundial) no fim do ano passado, foi citada exatamente a possibilidade de ocorrer uma competição entre indústria alimentícia e de combustível com a criação do biodiesel. “A quantidade de grãos exigida para abastecer o tanque de um carro utilitário pode alimentar uma pessoa por um ano. A competição entre comida e combustível é real”, mostrou o documento.
Em janeiro deste ano, tornou-se obrigatória a adição de 2% de biodiesel ao diesel. Dessa forma, é preciso produzir 840 milhões de litros do combustível vegetal durante o ano. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, a capacidade instalada da indústria brasileira é o dobro, de 1,6 bilhão de litros. Os planos do governo visam a adiantar a proporção de 5% do biodiesel no diesel – que estava prevista para 2013 – já para 2010.
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O Banco Mundial descreve o Brasil ainda como “o maior e mais eficiente” produtor mundial de etanol (álcool combustível) a partir de cana-de-açúcar, que é de baixo custo. Mas ressalva que outros países em desenvolvimento têm poucas chances de chegar ao mesmo patamar com a tecnologia atual, de acesso restrito.
De acordo com o relatório, dos cerca de 40 bilhões de litros produzidos em 2006, 42% vieram do Brasil, 46% dos Estados Unidos – que usam prioritariamente o milho – e 4% da União Européia. O Bird avalia que as técnicas atuais têm favorecido quem produz em grande escala, mas cita cooperativas brasileiras que conseguiram incluir pequenos agricultores no processo.