‘Glitter ecológico’: como o Carnaval (e o folião) podem ser mais sustentáveis?

Especialistas apontam novas formas de curtir a festa com mais consciência ambiental

Maria Luiza Dourado

Carnaval de rua em São Paulo (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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Carnaval e brilho andam juntos. É quase impossível pensar na festa mais popular do país sem o efeito do glitter — pelo menos até agora. Com os danos comprovados que o resíduo brilhante causa, urge a necessidade de novas maneiras para curtir a folia minimizando o acúmulo de microplásticos no ambiente.

Estudos mostram que microplásticos acabam passando por sistemas de filtragem e se acumulam no ambiente, o que inclui mares, rios e lagos, e acabam poluindo as fontes de abastecimento de água prejudicando a vida marinha — ingestão, asfixia ou mudanças genéticas e comportamentais em animais, como peixes, mamíferos, plantas e até aves, são os impactos diretos.

“Não usar glitter e purpurina ou diminuir o uso é mais uma das recomendações para uma moda, cuja indústria é uma das mais poluentes do mundo, com menos resíduo”, afirma Juliana Lopes, coordenadora de moda no Istituto Europeo di Design, em São Paulo.

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Em um esforço para reduzir em 30% a poluição por microplásticos, com até 5 milímetros de diâmetro, países que compõem a União Europeia proibiram a venda de purpurina plástica solta e sua adição em alguns produtos.

A aversão aos microplásticos, como é o glitter, não é injustificada. Estudo da Universidade de Columbia e Rutgers, nos Estados Unidos, mostra que uma garrafa de água de um litro continha quase 250 mil fragmentos de nanoplástico. Mais recentemente, pesquisa da Universidade Federal de São Carlos, com apoio da FAPESP, e divulgada no New Zealand Journal of Botany, mostra que o metal presente no glitter — feito com plástico e alumínio — altera a passagem de luz na água, o que compromete a fotossíntese de uma espécie de planta aquática.

Opção mais sustentável

Baseada na cidade mineira de Gonçalves, a marca brasileira de cosméticos veganos Amokarité trouxe ao Brasil uma opção mais sustentável: o “bio glitter”, feito de celulose. “Trouxemos o produto da marca alemã ‘BioGlitter’. É o único produto que cumpre as limitações impostas pela nova legislação europeia. Desenvolvemos uma embalagem também de celulose para vendê-lo em pequena quantidade e de uma maneira que fizesse sentido”, conta Estephanie Gustavson Racy, sócia-fundadora da Amokarité.

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O glitter sustentável, vendido com o nome de “Bio Purpirina”, também contém glicerina vegetal, copolímeros de origem vegetal, pigmentos e ureia — componente que permite que a biopurpurina se biodegrade em 180 dias em contato com agua ou no ambiente.

O desempenho financeiro da Amokarité em seus três anos de existência tem mostrado a busca crescente por produtos sustentáveis e veganos, que vão de maquiagens sólidas a biopurpurina. A marca passou de um faturamento de R$ 400 mil, em 2020, para R$ 1,3 milhão em 2023.

É caro?

No site da Amokarité, 2,5 gramas da bio purpurina saem a R$ 54,00, além do frete. Em papelarias ou na internet, um pote pequeno de glitter, com maior gramatura, pode ser facilmente encontrado a R$ 5 e até menos.

Mas isso faz o produto sustentável ser caro? Para Jonas Lessa, gestor ambiental, fundador da empresa especializada em resíduos têxteis Retalhar e mestre do bloco “Calor da Rua”, as percepções entre o que é barato e o que é caro são distorcidas, devido à normalização de práticas insustentáveis.

“Os padrões são nivelados por baixo. O quer quero dizer com isso: não são os produtos sustentáveis que são caros e sim os produtos convencionais é que são baratos demais. Basta fazer a engenharia reversa da precificação. No caso das blusinhas baratinhas, por exemplo, se considerados os pilares da sustentabilidade, como remuneração justa para toda a cadeia produtiva, gestão de resíduos efetiva de cada etapa do processo, tratamento de efluentes e minimização do desperdício de água, a conta não fecha”, explica Lessa.

No caso específico do glitter, pensando no impacto ao meio ambiente, o produto deveria ser mais caro, na opinião de Lessa. “O glitter é apenas um resíduo brilhante, que vai ser usado apenas uma vez. Isso deveria estar incorporado no preço — e não está. Um microplástico como o glitter deveria ter incorporado ao seu preço o seu custo ambiental”. afirma.

Ainda assim, o gestor reconhece que, para grupos da população que não têm necessidades básicas sanadas — como água, comida, saneamento e moradia —, os produtos sustentáveis são mais caros e reforça: é mais difícil convencer essa parcela da população a olhar para a sustentabilidade e pagar mais caro por esse tipo de produto.

Mix de Biopurpurina da Amokarité (Divulgação)

Como fazer o meu Carnaval mais sustentável?

No Brasil não existe proibição sobre uso do glitter, então fica valendo o bom senso, segundo Juliana Lopes. “Se eu sei que vou deixar um monte de lixo na rua, vou criar mais resíduo, por que não fazer diferente?”, provoca.

A stylist recomenda olhar itens de maneira diferente. “Reutilizar a fantasia do ano passado ou partes dela, enfeitar um biquíni ou uma roupa que você já tenha, tentar nova combinação. Faço aulas de styling com meus alunos e encorajo que eles abram o guarda-roupa, tirem tudo e tragam um novo olhar sobre suas roupas ou das pessoas que conhecem”.

Nos blocos

Atuação do bloco para conter a produção de resíduo se dá de duas formas: comunicação e conscientização nas redes sociais e durante o próprio desfile, com mensagens de conscientização e não poluição.

“O trio é uma potência para comunicar ao público para que o resíduo seja devidamente destinado. Uma coisa é falar ‘não vamos jogar lixo na rua’. Outra é dizer: ‘se todos olharem em tal direção temos catadores fazendo esse serviço importante, então todo resíduo, destine a eles’. É um direcionamento mais palpável e efetivo”, segundo Jonas Lessa.

Outro foco é o apoio ao trabalho do catador, prevendo a atuação dos profissionais na estrutura do bloco. “Contratar o catador, mas não só dizer: ‘o que você pegar de latinha é seu’. Isso já é a regra. É alinhar com o catador a maneira como esse serviço vai ser feito. Entender quantos catadores são necessários em um evento desse porte, fornecer infraestrutura, com água, alimentação, espaço seguro de trabalho. Aí sim fica muito mais fácil”.

A Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro informou ao InfoMoney que fechou a operação de limpeza do Carnaval 2023 com 1.236 toneladas de resíduos removidos, incluindo blocos de rua, Sambódromo e Intendente Magalhães. Para o Carnaval deste ano foram mobilizados 3.675 garis na capital fluminense.

Em São Paulo, a Secretaria Municipal das Subprefeituras disse à reportagem que foram recolhidas 875,5 toneladas de resíduos em 2023, com estimativa de reciclagem de 50% do montante, que foi enviado a cooperativas. Para o Carnaval 2024, estão mobilizados 3.134 profissionais de limpeza em cada dia de evento, distribuídos em três turnos.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.