Falsificadores põem em risco clubes de troca na Argentina

Após anos de rápido crescimento, clubes de troca argentinos passam por uma crise provocada por movimentos de arbitragem e falsificação de créditos

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SÃO PAULO – Quando as primeiras nuvens da crise começaram a aparecer no céu da Argentina, boa parte da população se mobilizou para manter seu padrão de vida e reivindicar melhores condições sociais. Na metade da década de 90 surgiram os embriões dos clubes de troca, onde desempregados e pessoas de baixa renda podiam trocar produtos e serviços, numa espécie de economia de escambo. A novidade deu tão certo que de um dia para outro, milhões de argentinos estavam filiados a algum clube de troca no país.

Os clubes cresceram tanto nos últimos anos, que hoje podemos dizer que a maioria deles passa por uma “crise de crescimento”. Em apenas alguns meses, quase 40% dos clubes fecharam suas portas, em decorrência da falsificação e especulação de créditos dentro dos próprios clubes. Mesmo com todos esse problemas, os clubes de trocas ainda são a única oportunidade para muitos argentinos que, ou perderam o emprego, ou não ganham o suficiente na economia formal para sustentar a família.

Falsificação de moeda

Segundo a argentina Monica Felsberg, que vive em São Paulo há cinco anos, criou-se em seu país há aproximadamente dez anos um espírito de malandragem, que praticamente não existia anteriormente. “Aquela coisa de passar a perna nos outros vem tomando conta das pessoas na Argentina. Algo muito triste” lamenta Monica. Pelo menos nos clubes de troca, é fácil confirmar as falcatruas que estão ocorrendo com bastante freqüência nos últimos meses.

Com relação aos créditos utilizados no intercâmbio de produtos e serviços, estima-se que 90% da “moeda” em circulação nos clubes sejam falsas. Essa introdução de novos créditos gerou um aumento inesperado da inflação, comprometendo a estabilidade dentro dos clubes, ou núcleos, como alguns costumam ser chamados. Alguns produtos chegaram a ter seu preço elevado em até 40 vezes. Um azeite de oliva, por exemplo, que inicialmente custava 7 créditos, chegou a ser vendido por quase 300 créditos.

No começo, cada crédito valia entre 50 centavos e um peso. Para fazer parte de um clube, os participantes recebiam cerca de 50 créditos, como uma espécie de capital de giro para fazer compras e começar a vender produtos e serviços. Nesse sentido, o poder de compra da “moeda” foi diminuindo, e muitos núcleos tiveram que promover a troca dos créditos por outros feitos com material mais difícil de ser falsificado.

Especulação

A princípio, cada clube tinha seu próprio sistema de créditos, que funcionava isoladamente. Com o rápido crescimento, gerou-se um sistema nacional de créditos, e paralelamente um movimento de especulação contra a “moeda”. Ao invés de servir como um meio de troca, os créditos tornaram-se um instrumento de especulação financeira. Os denominados “arbolitos” eram os responsáveis pela compra e venda de moeda no mercado negro, e realizavam ganhos através da diferença de valor.

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A “crise de crescimento” afastou muitos participantes dos clubes, que passaram a enxergar com desconfiança a moeda que recebiam em troca de algum serviço prestado ou produto vendido. De acordo com Rubén Ravera, idealizador de um dos primeiros clubes de troca na Argentina, “as pessoas passaram a confundir economia solidária com assistencialismo. Agora temos que lutar para restabelecer a confiança nos núcleos e valorizar nossa moeda”.
Entre outras tarefas, para reativar alguns núcleos, os organizadores terão que estabelecer novas regras de funcionamento do sistema de trocas. Em primeiro lugar, só serão aceitos participantes que produzam algum tipo de bem ou serviço. Além disso, será preciso voltar ao padrão no qual um crédito equivale a um peso, e forçar os sócios a denunciar o comércio negro de créditos no país.