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A recente queda do dólar frente ao real reacendeu o debate sobre os efeitos de um câmbio mais apreciado na economia brasileira. Embora o movimento traga alívio imediato para consumidores e empresas dependentes de insumos importados, especialistas ouvidos apontam que o impacto não é homogêneo — e que os benefícios de curto prazo podem vir acompanhados de desafios estruturais.
Segundo Douglas Dias Rodrigues, planejador financeiro e MBA em Finanças pela FBNF, o dólar baixo reduz custos de importação e pressões inflacionárias, mas também compromete a competitividade de setores exportadores.
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No curto prazo, a moeda americana mais fraca tende a melhorar o poder de compra das famílias, barateando combustíveis, eletrônicos, insumos industriais e viagens internacionais.
José Áureo Viana, planejador financeiro e sócio da Blue3 Investimentos, destaca que produtos e insumos importados ficam mais acessíveis, enquanto empresas endividadas em dólar passam a pagar menos em reais. “O dólar baixo é bom para o bolso do consumidor”, afirma. Contudo, ele ressalta que um câmbio excessivamente apreciado pode enfraquecer exportações, afetando a dinâmica de crescimento.
Impactos econômicos do dólar baixo
A queda do dólar também tem efeitos relevantes sobre a percepção de risco do país. De acordo com Jonathan Joo Lee, head da mesa de internacional e câmbio da Mirae Asset Brasil, a valorização do real gera um “choque de preços positivo”, reduzindo a inflação e melhorando o perfil de risco soberano.
Ele lembra que indicadores como o CDS de 10 anos vêm recuando de forma significativa, reflexo de um ambiente mais favorável ao consumo, investimentos e valorização de ativos domésticos. Além disso, a dívida pública indexada ao dólar fica mais barata, aliviando pressões fiscais.
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Apesar dos ganhos conjunturais, os especialistas alertam para riscos se a valorização persistir. Rodrigues e Viana destacam que a competitividade internacional do Brasil é diretamente afetada.
Exportadores passam a receber menos em reais por cada dólar faturado, reduzindo margens e desestimulando investimentos produtivos. Siderurgia, mineração, papel e celulose, petróleo e principalmente o agronegócio — setor fortemente dolarizado — são alguns dos segmentos mais sensíveis a esse movimento.
A valorização prolongada do real também pode desequilibrar as contas externas. Lee observa que importações e viagens internacionais aumentam, enquanto as exportações perdem valor em reais. O resultado tende a ser um déficit maior em conta corrente, criando dependência de fluxos de capital de curto prazo. “Os ganhos conjunturais são claros, mas os custos estruturais podem ser elevados”, afirma o especialista da Mirae Asset.
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Setores que ganham e setores que perdem com o dólar baixo
Entre os setores que mais se beneficiam da queda da moeda americana estão aqueles com forte dependência de insumos ou equipamentos importados. Rodrigues cita eletroeletrônicos, tecnologia, varejo de importados, farmacêuticas, montadoras e companhias aéreas — todos impactados positivamente pela queda de custos operacionais. Lee acrescenta construção civil, aviação, transporte e serviços financeiros, além do próprio governo, que vê melhora no perfil da dívida externa.
Por outro lado, os mais prejudicados são os exportadores ou setores cujas receitas são majoritariamente denominadas em dólar. Viana destaca agronegócio, siderurgia e mineração, que perdem competitividade quando o real se fortalece. Lee reforça que indústria de transformação, produtores de commodities e o turismo doméstico também sofrem, já que destinos brasileiros ficam mais caros para estrangeiros e o gasto dos brasileiros se desloca para o exterior.
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No balanço geral, o dólar baixo funciona como um impulso para o consumo interno e para empresas dependentes de importações, mas é um obstáculo para exportadores e para o equilíbrio das contas externas.
Como sintetiza Viana, o desafio do Brasil é encontrar “um câmbio de equilíbrio” que preserve simultaneamente o poder de compra e a competitividade internacional — um ponto delicado e influenciado por fatores estruturais, como a taxação do comércio global e a própria dinâmica dos fluxos financeiros internacionais.