Carro blindado desvaloriza mais rápido? Veja prós e contras da proteção que vem ganhando o Brasil

Procedimento gera peso extra de até 200 kg, que pode danificar componentes do carro

Maria Luiza Dourado

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Conhecida por proteger carros de executivos de alto escalão, presidentes e até do papa, a blindagem de veículos tem outra característica menos indigesta ao bolso: a de desvalorizar o veículo ao longo do tempo.

Na blindagem, o veículo recebe placas antibalísticas de vidro, policarbonato, mantas de aramida ou aço inoxidável. O resultado é um peso extra que gira entre 180 e 210 kg, além do peso dos passageiros, desgastando o veículo mais rápido do que o habitual.

Segundo a empresa especializada em precificação de veículos KBB, a blindagem afeta a estrutura do carro ao longo do tempo, elevando o custo de manutenção e, consequentemente, fazendo-o perder valor após quatro ou cinco anos.

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A Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin), que representa as empresas da categoria, nega o desgaste. Segundo a entidade, o acréscimo do peso de cerca de três adultos não interfere substancialmente na performance, desgaste e desvalorização do veículo. “O estado geral, as manutenções e o próprio modelo do veículo é que podem interferir na valorização ou desvalorização do blindado”, afirma Marcelo Silva, presidente da Abrablin.

Enilson Sales, presidente da FENAUTO, entidade de lojistas de veículos seminovos e usados, discorda do posicionamento dos blindadores. Ele enfatiza que as camadas de materiais de proteção desgastam ainda mais a suspensão, as molas e os amortecedores do carro, causando uma desvalorização de 50% no valor do veículo em até 5 anos.

“Elas são projetados para suportar o peso do carro e mais um limite específico de peso de passageiros. O peso da blindagem, somado a passageiros e carga, pode ultrapassar a capacidade máxima do carro. Outro ponto são os componentes específicos que não foram projetados para suportar peso extra. Por exemplo: um suporte de vidro elétrico projetado para apenas um vidro de 1 kg, após a blindagem, deverá aguentar até 4kg, a depender do nível de proteção”, complementa.

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Para Sales, o preço que se paga pela blindagem é o de um seguro pessoal. “Antigamente, quando adicionávamos ar-condicionando em um carro, na hora da revenda, o valor da funcionalidade era acrescido. A blindagem não é uma funcionalidade. Ela é um seguro de vida que você resgata antes de se ferir ou do pior acontecer”, afirma.

Os preços da blindagem variam segundo o modelo e a proteção escolhida. Segundo o Comando Logístico do Exército, que fiscaliza o setor, existem seis níveis de blindagem, sendo dois de uso restrito e quatro de uso civil permitido. A maior proteção é o nível III-A, que suporta tiros de submetralhadoras e revólveres de calibre .44 — que pode sair por cerca de R$ 80 mil, a depender do modelo do carro.

A proteção extra aplicada em veículos é característica de locais com maior índice de violência. O Brasil tem a maior frota civil de carros blindados do mundo, com cerca de 300 mil veículos, ultrapassando mercados significativos, como México e Rússia.

Puxada pelo crescimento da violência urbana e pela permanente sensação de insegurança do cidadão, a quantidade de blindados tem crescido no país: foram submetidos ao procedimento 25.916 unidades em 2022 e, em 2023, a estimativa é que o número tenha ultrapassado o recorde do ano anterior, para o patamar de 28.000, segundo a Abrablin.

“O perfil do consumidor tem ficado cada vez mais diverso, indo além dos executivos de alto poder aquisitivo. Hoje vemos homens e mulheres, inclusive jovens com o primeiro veículo, adotando a proteção. Da mesma forma acontece com os modelos. Nas blindadoras estacionam veículos de todos os modelos e marcas. As pessoas estão trocando status por proteção, ou seja, por vezes investem num modelo mais barato para ter recursos e investir na blindagem”, explica Marcelo Silva, da Abrablin.

Segundo a FENAUTO, a maior parte da frota de seminovos e usados blindados fica em São Paulo e no Rio de Janeiro, e apesar do maior tempo de venda de carros da categoria, a demanda existe, alimentando inclusive lojas especializadas.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.