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SÃO PAULO – Há mais de 30 anos um número crescente de países tem optado pelo regime de câmbio flutuante, em que a moeda local varia em relação a uma estrangeira – no caso do Brasil, o dólar – de acordo com a oferta e a demanda. “A razão para a adoção do regime foi a grande mobilidade de capital financeiro”, afirmou o professor doutor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (Universidade de São Paulo), Simão Davi Silber.
A grande mobilidade de recursos se originou do avanço técnico nas áreas de telecomunicações e informática, da desregulamentação das aplicações financeiras e do desenvolvimento do mercado de derivativos. Num primeiro momento, conforme explicou Silber, os países desenvolvidos adotaram o regime cambial. No Brasil, ele chegou em janeiro de 1999, há exatos 10 anos.
“O flutuante chegou ao Brasil em 1999, mas os países ricos já o adotavam desde 1973. Hoje em dia a entrada e saída de dinheiro nos países é tão grande que fica difícil do Banco Central controlar”, afirmou o professor, sobre o fato de os volumes geridos pelos mercados superarem em muitas vezes os valores das reservas em moeda estrangeira.
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O câmbio fixo
Num primeiro momento, o Brasil adotava uma cotação fixa para o dólar. Neste caso, o Banco Central entrava no mercado comprando moeda, para evitar que sua cotação caísse, e vendendo moeda, para evitar que seu preço aumentasse. O problema é que, para isso, muitas vezes ele tinha que emitir moeda, o que aumentava a inflação. Outras vezes, ele precisava tirar moeda de circulação, o que resultava em aumento dos juros e na queda da produção.
Depois do câmbio fixo, foi adotado o de bandas cambiais. “O governo estabelece um piso e um teto para a moeda estrangeira e a ideia é que a variação aconteça nessas bandas”, explicou o economista da LCA Consultores, Francisco Pessoa.
Conforme explicou Silber, da USP, o regime de bandas cambiais aproxima-se mais do fixo do que do regime flutuante, uma vez que a margem de flutuação para a cotação da moeda estrangeira é muito pequena. Depois da adoção desse regime, ataques especulativos e uma crise na Rússia forçaram o Brasil a escolher o câmbio flutuante.
Seu bolso
No bolso, o principal impacto na adoção do câmbio flutuante no Brasil foi para o turista local, que se viu exposto a variações do valor da moeda estrangeira. “No período em que o câmbio está caindo, é bom para importar e fica mais fácil viajar. Quando está subindo, fica pior para comprar e para viajar”, afirmou o professor da USP.
Uma ideia que se defendia, quando na adoção do regime, era de que os produtos tradeables (comercializáveis) – que são mais dependentes do câmbio, devido à importação ou exportação – sofreriam variações de preços como as do câmbio. Mas não foi isso o que aconteceu, porque esses produtos estão submetidos a outras variáveis, conforme explicou o economista da LCA.
“Depende muito do bem, da sua essencialidade, da capacidade do importador pedir desconto, da concorrência. Depende também da capacidade de repasse da alta da moeda no Brasil. Um perfume importado, por exemplo: por um lado, aumenta o dólar, aumenta o preço; por outro, não tem concorrência e, se aumenta muito o preço, perde o consumidor”, explicou.
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Por isso, é preciso analisar caso a caso. Um produto comprado diretamente do exterior, como é possível fazer hoje pela internet, com certeza está mais exposto às variações do câmbio, uma vez que é cotado em moeda estrangeira.