Publicidade
SÃO PAULO – O novo aumento dos juros anunciado na semana passada,, que levou a taxa básica da economia para 26,5% ao ano, não chegou a surpreender, pois já era previsto desde que as primeiras prévias da inflação de fevereiro confirmaram que a inflação ainda não havia cedido.
Desde o início de 2001, a taxa Selic já acumula um aumento de 11,25 pontos percentuais, visto que em janeiro de 2001 ela ainda estava em 15,25% ao ano. Somente neste ano, o aumento já é de 1,5 ponto percentual, mas apesar do alto patamar dos juros, o diretor da Fecomércio-RJ (Federação de Comércio), Luiz Roberto Cunha, não acredita que neste ano a economia entrará em recessão.
Guerra e reformas definirão tendência
Para o economista, as perspectivas da economia vão depender de duas variáveis, que poderão ou não favorecer um recuo da taxa básica de juros: guerra e reforma.
InfoMorning
Informações, análises e recomendações que valem dinheiro
Em caso da guerra certamente o efeito mais provável é de que o dólar pelo menos se mantenha no patamar em que se encontra, mas é possível que suba um pouco mais, favorecendo as exportações do país e também a substituição de importações, o que beneficiaria alguns setores da economia.
Por sua vez, a aprovação das reformas prometidas pelo atual presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, traria maior tranqüilidade ao mercado de que a situação do déficit fiscal está sendo encaminhada, favorecendo o maior otimismo dos mercados com relação ao governo. Em contrapartida, a demora na aprovação destas medidas pode ter um efeito contrário bastante perverso para a economia.
Cunha ressaltou que a intenção do governo ao elevar os juros é a de coibir o aumento dos preços, que já deixou de ser pontual e dificilmente deve cair abaixo dos 10% anuais sem esforços adicionais por parte do governo. Apesar de reconhecer que o novo aumento da Selic e dos compulsórios têm caráter recessivo, o economista acredita que ainda é cedo para se falar em tendência. Os setores mais afetados, segundo ele, teriam sido o comércio e a indústria, que já estariam operando em um cenário próximo da recessão.
Continua depois da publicidade
Ilusão das medidas compensatórias
Se Cunha é favorável à adoção de medidas compensatórias para fazer frente ao aumento dos juros, esta opinião não é consenso entre os economistas. Na visão do economista da PUC-RJ, Eduardo Loyo, é preciso cuidado na adoção de políticas compensatórias.
Apesar dos efeitos positivos do ponto de vista de geração de emprego, o economista lembra que uma medida compensatória para desfazer o efeito da política monetária sobre o nível de atividade pode acabar desfazendo a própria política monetária. Loyou também ressaltou que o sucesso da política monetária no combate à inflação demora, e que não é possível atingir estabilidade de preços sem um sacrifício da população.
O economista também descarta a possibilidade de existirem mecanismos de combate à inflação que sejam indolores, de forma que será preciso esforço para conseguir tirar a inflação do patamar de 10% a 15% ao ano para cerca de 6% ao ano.
Continua depois da publicidade
Ipea estima crescimento de 1,8% para PIB
De acordo com as estimativas do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) a economia brasileira deve fechar o ano com um crescimento do PIB (Produto interno bruto) de 1,8%, ligeiramente abaixo dos 2% inicialmente previstos, mas ainda assim em território positivo.
Na opinião do diretor do IPEA, Eustáquio Reis, é possível que no primeiro trimestre a economia possa registrar um ligeiro recuo, mas para o ano a situação não deve ser de recessão. Para o economista a inflação é o maior problema de curto prazo da economia no momento, e é exatamente por isto que está pessimista, uma vez que mesmo com o aumento dos juros, o controle da inflação vai depender de fatores externos ao país.
Apesar do otimismo do governo norte-americano quanto à um conflito no Oriente Médio não há como saber ao certo o que levaria o petróleo a subir para cerca de US$ 45 o barril, prejudicando o combate da inflação.