O silêncio que grita: a queda do Irã e a anatomia da hipocrisia moral

Deixar o Irã “resolver sozinho” significa, na prática, assistir ao massacre

Walter Maciel

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REUTERS/Claudia Greco TPX IMAGES OF THE DAY
REUTERS/Claudia Greco TPX IMAGES OF THE DAY

“A história é cruel com aqueles que chegam atrasados”

— Mikhail Gorbachev

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Há momentos na história em que pressões acumuladas por décadas emergem de forma abrupta, revelando em semanas aquilo que vinha sendo construído em silêncio. O historiador Niall Ferguson chamou esse fenômeno de “ruptura não linear”: o ponto em que sistemas complexos entram em colapso. O geógrafo e historiador americano Jared Diamond, ao estudar civilizações que ruíram, observou o mesmo padrão – sociedades toleram contradições internas por gerações, até que um gatilho aparentemente menor expõe a fragilidade estrutural que sempre esteve ali.

O Irã de janeiro de 2026 vive exatamente esse momento, com ao menos 3.500 mortos e outros milhares de feridos, segundo a organização iraniana de direitos humanos IRH (Iran Human Rights). No entanto, esse número pode chegar à 12 mil, segundo a própria IRH.

O regime dos aiatolás, que sobreviveu a guerras, sanções e sucessivas ondas de protestos, está promovendo o maior massacre de civis de sua história. Tiros deliberados na cabeça e nos olhos de manifestantes – a IRH afirma que grande parte das vítimas tinha menos de 30 anos, incluindo estudantes. Médicos ameaçados por atender feridos. Um apagão total da internet para que a carnificina ocorra longe dos olhos do mundo.

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O que vemos não é apenas brutalidade. É o espasmo final de um sistema que perdeu todas as demais ferramentas de sobrevivência.

O colapso iraniano não começou em dezembro de 2025, com a falência do Ayandeh Bank. Aquilo foi apenas o dominó visível. Descobriu-se que o banco operava como um vasto esquema Ponzi – uma pirâmide financeira – ligado à Guarda Revolucionária: bilhões de dólares em empréstimos podres concedidos a aliados do regime. Outros bancos encontram-se na mesma situação. Para a população, foi a confirmação de que o sistema estava definitivamente corrompido.

A crise financeira, porém, é apenas um sintoma. De acordo com análise publicada no Infomoney, em 2025, o rial iraniano perdeu 84% de seu valor, a inflação de alimentos chegou a 72% e, com isso, a classe média foi destruída. Quando a sobrevivência diária se torna inviável, o medo deixa de funcionar como freio.

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Diamond demonstrou que colapsos raramente têm uma única causa. Eles surgem da convergência de fatores: crise econômica, isolamento internacional, decisões equivocadas das elites e, sobretudo, perda de legitimidade interna. O Irã de hoje reúne todos esses elementos.

A guerra de 12 dias com Israel, em junho de 2025, destruiu não apenas parte da infraestrutura nuclear iraniana, mas também a aura de invencibilidade do regime. Poucos meses antes, a queda de Bashar al-Assad, então presidente da Síria, eliminou seu principal aliado. A neutralização do Hezbollah removeu o ativo regional mais valioso. As sanções da ONU estrangularam as últimas fontes de financiamento. O ataque americano aos bancos iraquianos cortou o oxigênio restante.

Nada disso é acidental. A janela de liberdade que se abriu para o povo iraniano é consequência direta de decisões difíceis tomadas por atores específicos. Se Israel não tivesse agido, o regime ainda projetaria poder regional. Se os Estados Unidos não tivessem oferecido apoio explícito aos manifestantes, o povo iraniano enfrentaria a repressão completamente sozinho.

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Ferguson lembra que a história é moldada menos por forças abstratas do que por decisões individuais em momentos críticos. Não existe neutralidade moral em crises dessa natureza. A omissão é, ela própria, uma escolha.

A liberdade que começa a emergir nas ruas de Teerã, Isfahan e Shiraz tem um preço – e ele foi pago primeiro por aqueles que agiram enquanto outros preferiram a paralisia. É aqui que a hipocrisia se torna impossível de ignorar.

Quando Israel respondeu, em 2024 e 2025, aos ataques do Hamas – organização financiada e armada por Teerã – o governo brasileiro reagiu com indignação imediata. Falou em “genocídio”. Evocou o Holocausto. Retirou o embaixador. Mobilizou notas oficiais, manifestações e campanhas nas redes.

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E agora? O Irã, patrocinador do Hamas e do Hezbollah, executou o maior massacre de civis no Oriente Médio em décadas – contra seu próprio povo. O silêncio é quase absoluto.

O Itamaraty limitou-se a uma nota burocrática informando que não há brasileiros entre as vítimas. Nenhuma condenação. Nenhuma preocupação humanitária. Nenhuma indignação pública.

A seletividade expõe uma verdade incômoda: o discurso de direitos humanos nunca foi universal. Sempre foi ideológico. Quando o opressor é aliado, vidas humanas deixam de importar.

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Repete-se o refrão conhecido: “O Irã precisa resolver seus próprios problemas.” Mas como? Como um povo desarmado enfrenta a Guarda Revolucionária Islâmica? Como resiste a milícias estrangeiras e a um aparato repressivo que atira para matar?

Deixar o Irã “resolver sozinho” significa, na prática, assistir ao massacre. Significa aceitar dezenas de milhares de mortos em nome de uma falsa neutralidade moral.

Winston Churchill, primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, entendeu isso com clareza. Em crises morais, a escolha raramente é entre o bem e o mal, mas entre o mal e o catastrófico – entre o custo da ação e o custo infinitamente maior da inação.

Mikhail Gorbachev, último presidente da União Soviética, também estava certo: a história é cruel com os que chegam atrasados – e implacável com os que, podendo agir, escolhem o conforto da passividade.

O que acontece no Irã não é apenas uma crise regional. É um teste civilizacional. Um momento em que líderes, governos e vozes públicas serão julgados não pelo discurso, mas pelo que fizeram – ou deixaram de fazer – quando vidas estavam em jogo.

Enquanto Israel agiu e os Estados Unidos apoiaram, Lula se indignou. Enquanto mulheres iranianas morrem por liberdade, muitos descobrem que sua indignação tem endereço ideológico. Isso não é geopolítica. É um imperativo moral.

E há um último aviso. A mesma lógica sistêmica que levou ao colapso iraniano se aplica a outro regime que muitos ainda consideram “sólido”: a China. O país enfrenta crise demográfica, colapso imobiliário, desacoplamento econômico e um sistema político sem válvulas de escape.

O Irã parecia estável até dezembro de 2025. A Síria, até o fim de 2024. O Hezbollah, até outubro.

O dominó está caindo, peça por peça. A China é a próxima. Quando acontecer, lembrem-se: o aviso já foi dado.

A História está tomando nota, e ela não perdoa os covardes. Nem os que se recusaram a ver.

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Walter Maciel

CEO da AZ Quest desde 2011