Combate individualizado à pandemia indica que mundo será mais nacionalista

César Jiménez-Martínez, professor da Universidade de Cardiff, salienta que crise global evidenciou a ideia de pertencer a um país

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
arrow_forwardMais sobre

Embora a pandemia de coronavírus seja um problema mundial, mais se vê, na atualidade, os países competindo do que cooperando uns com os outros. Isso induz cada governo a agir isoladamente para mitigar os efeitos da crise econômica e combater a propagação da doença, em vez de haver uma articulação internacional com os mesmos objetivos. Esse é um dos fatos que sinalizam que o mundo pós-pandemia será mais nacionalista, segundo o professor da Escola de Jornalismo, Mídia e Cultura da Universidade de Cardiff, César Jiménez-Martínez.

Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, Martínez observa que “o coronavírus é uma crise global, mas a resposta da crise, em sua maioria, é nacional”. Ele complementa dizendo que “é muito difícil fazer predição, mas a situação atual indica que o mundo pós-pandemia será mais nacionalista”.

O professor da Universidade de Cardiff explica que, embora seja comum associar nacionalismo a uma política de extrema-direita, não se trata de uma ideologia estanque. “Nacionalismo é uma forma de discurso que pode ter diferentes ideologias. Pode ser mais global, mais aberta ao mundo, mas também pode ser mais fechada, protecionista”, salienta Martínez.

Segundo ele, a pandemia evidenciou a ideia de que o cidadão pertence a um país. “A ideia de nação é muito importante na vida cotidiana das pessoas. Por exemplo, temos um mundial de futebol, que é uma expressão nacionalista. Uma coisa é a ideia de nação, e outra são as diferentes manifestações nacionalistas”, pondera.

Imagem do Brasil
Martínez, que é chileno, estudou os protestos de junho de 2013 no Brasil, tema de sua tese de doutorado. De acordo com ele, desde então, a imagem do País tem se degradado no cenário internacional.

“A experiência que temos do mundo é, normalmente, uma experiência que vem pela mídia. O que o empresário, o turista ou o político da Europa ou dos Estados Unidos tem do Brasil é uma experiência midiatizada. Então, a imagem de a pandemia não estar sob controle no Brasil, com um governo indiferente à crise, definitivamente vai ter consequências político-econômicas [para o País]”, avalia o pesquisador.

Ele salienta, contudo, que o quadro midiatizado não é exclusividade brasileira. “Acontece que os jornais internacionais mantêm a ideia de que a nação é a forma natural de entender o mundo. Raramente, quando você lê um jornal internacional, eles falam de cidades ou regiões. Normalmente, eles dividem tudo em nações. Então, a mídia tem um papel fundamental em manter e naturalizar a ideia de que o mundo é naturalmente dividido em países. Isso é muito interessante, considerando que a ideia de nação é relativamente nova na história da humanidade, tem poucos séculos”, conclui.

Um Brasil

Convida empresários, especialistas, pensadores e acadêmicos de todo o mundo para análises precisas e aprofundadas sobre as questões mais importantes nos cenários econômico e político do País. Uma realização da FecomercioSP, a plataforma UM BRASIL reúne uma gama variada de visões, trabalha pelo aprimoramento do senso crítico do cidadão brasileiro e funciona como um hub plural de conexão de ideias transformadoras.