Ajuste fiscal é necessário para reduzir impactos de eventual crise global

Economista Antonio Lanzana e sociólogo Paulo Delgado escrevem que País precisa pôr as contas públicas em ordem para se precaver de turbulência no cenário internacional

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*Por Antônio Lanzana e Paulo Delgado

As incertezas sobre a evolução da economia mundial vêm aumentando significativamente, com fortes impactos sobre os mercados de ações e de câmbio. O comportamento dos investidores, refletido nas taxas de juros de curto e longo prazo nos Estados Unidos, sinaliza que os riscos de uma nova crise começam a se acentuar.

Além da guerra comercial, cada vez mais presente no cenário internacional, outras incertezas ainda permanecem, como a questão do Brexit e, na América Latina, o processo sucessório na Argentina.

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Em um ambiente de aversão a risco, os países emergentes mais vulneráveis são aqueles que apresentam situação fiscal desfavorável (como é o caso do Brasil) e reduzido nível de reservas (que não é a situação brasileira). Além disso, deve-se observar um encolhimento do crédito dirigido a todos emergentes indiscriminadamente, ao menos no curto prazo.

No que se refere ao lado real da economia, os impactos maiores devem vir do setor externo. De um lado, as importações serão reduzidas com o aumento de preço ocorrido pela desvalorização cambial e, de outro, as exportações serão afetadas pelo menor nível da atividade mundial, ainda que haja barateamento dos produtos brasileiros em dólares. A pequena inserção comercial do Brasil no mundo, ironicamente, acaba contribuindo para amenizar este impacto.

Por outro lado, a mudança do cenário internacional reforça a necessidade de acelerar o ajuste fiscal para minimizar seus impactos sobre o Brasil. Mesmo reconhecendo que as reformas estruturais levam algum tempo para maturar, é importante reforçar continuamente a visão de que o Governo vai atacar a questão fiscal revertendo o crescimento da dívida pública e criando condições estruturais para uma dinâmica sustentável.

Em um momento de turbulência, cautela é fundamental. E vários motivos justificam a precaução: há muita incerteza para prever exatamente o que ocorrerá com a economia global. Que a economia está desacelerando não há dúvida, mas isto não significa, necessariamente, crise. Nos períodos iniciais de turbulência é comum verificar a ocorrência de reações exageradas; e o quadro mostra que a probabilidade de crise aumentou, mas não há certeza de que ela irá acontecer.

As empresas precisam estar atentas acompanhando diariamente as informações, a evolução dos fatos e analisando a manutenção ou alteração de rumos da economia global. Como em todo período de incertezas, a adequada gestão do caixa assume um papel especial para evitar ter que recorrer a empréstimos. Analisar despesas não obrigatórias que eventualmente podem ser canceladas e/ou adiadas e uma adequada gestão de estoques são ações que contribuem para alcançar este objetivo.

É preciso evitar o “descasamento” de moedas, até porque o comportamento da taxa de câmbio também fica difícil de ser previsto. As empresas devem ser rentáveis em suas operações e não na “arbitragem de moedas”. Quando a empresa tem receita em dólares (por exemplo, uma exportadora), eventuais obrigações na mesma moeda não geram motivos de preocupação. Nos casos em que o “descasamento” é inevitável, é importante fazer proteção para as posições expostas em moeda estrangeira.

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A intensificação da guerra comercial abre mercado para elevação da exportação de produtos brasileiros tanto para a China como para os Estados Unidos. A tendência desses países com o encarecimento das importações pelas sobretaxas é buscar novos fornecedores. As empresas brasileiras precisam ficar atentas a essa possibilidade.

Considerando, também, que o Brasil se encontra em um processo de maior exposição à economia internacional, é fundamental que as empresas se preocupem com duas questões inter-relacionadas: produtividade e tecnologia. É importante que um Governo que luta para abrir a economia brasileira crie as condições para a expansão dos investimentos em tecnologia e na infraestrutura para melhorar a competitividade internacional do país. E que as empresas não descuidem do avanço tecnológico e do aumento de produtividade, lembrando que a situação fiscal brasileira não permite mais a concessão de subsídios e outros benefícios.

*Antônio Lanzana e Paulo Delgado são copresidentes do Conselho de Economia Empresarial e Política da FecomercioSP. Lanzana é professor da Universidade de São Paulo (USP) e Fundação Dom Cabral. Delgado é sociólogo, pós-graduado em Ciências Políticas e foi deputado federal por seis mandatos.

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