Mercado de ações: vale a pena apostar as fichas nos mesmos cavalos do ano passado?

O que aconteceria se você começasse o ano investindo nos ativos que mais se valorizaram no ano anterior?

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Acabei o último artigo com a seguinte pergunta: Será que vale a pena apostar minhas fichas exatamente naqueles cavalos mais bem colocados em 2018? A minha resposta, digamos, “acadêmico-científica” é simples e direta: não sei.

Em primeiro lugar, porque não sou analista de ações, logo estaria sendo leviano ao sugerir o investimento neste ou naquele papel. Em segundo lugar porque, rigorosamente falando, seria de fato possível que os cavalos mais bem colocados em 2019 fossem exatamente aqueles que estiveram no topo em 2018.

A estatística (logo, inferências feitas a partir de dados históricos), contudo, mostra que isto é muito pouco provável. Objetivamente, isto é algo que nunca ocorreu na bolsa brasileira.

Desta forma, a minha resposta por assim dizer “prática” é: não vale, pelo menos não exatamente nos mesmos ativos. Pode ser, sem dúvida, que alguns valham a aposta novamente.

Os eleitores já minimamente iniciados no mercados de ações provavelmente estão pensando “mas isto é óbvio, qual a novidade?”. A estes peço vênia. Estou absolutamente ciente de que este texto é básico demais para alguns.

Entretanto, peço também empatia: não são poucos os marinheiros de primeira viagem que têm a tentação de escolher seus papéis baseado nos resultados passados dos ativos. Eu, confesso, quando comecei no mercado de ações, também tive esta tentação.

É muito desafiador para um leigo olhar o gráfico da Magazine Luiza, por exemplo, e não querer virar sócio da empresa. Neste texto, então, me dirijo mais ao marinheiro inexperiente do que àquele que já pegou muito mar agitado. 😉

Há pouco citei estatística e dados históricos. Para não ficar apenas em afirmações vazias, trago alguns dados para ilustrar meu argumento.

Não tenho pretensão alguma de apresentar uma análise rigorosa, feita a partir de amostra com significância estatística. Detive-me a uma investigação bastante simples, cuja lógica é a seguinte: no início de janeiro de cada ano o indivíduo monta sua carteira de ações contendo exclusivamente os 10 papéis que mais renderam no ano que recém acabou. Tão simples quanto isso.

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Inclusive, faço aqui um parênteses: poucos minutos após ter a ideia de criar este cenário hipotético, lembrei-me deste excelente artigo (também disponível em sua versão traduzida), que li há muitos anos e no qual o autor aborda tema muito similar. Como me dei conta disso após já tê-lo conceptualizado, entendo não estar de forma alguma plagiando alguém. Convido-os inclusive a lê-lo, vale a pena. Fecha parênteses.

Vamos lá: imaginemo-nos no início de janeiro 2017. Uma pesquisa rápida na internet nos mostra que os papéis que mais se valorizaram em 2016 foram os seguintes:

10 ações do Ibovespa que mais valorizaram em 2016

Conforme expliquei, um dado investidor então monta sua carteira de ações no primeiro dia útil de 2017 escolhendo exatamente esta lista de 10 ações.

Estamos agora no início de janeiro 2018. Quais foram os rendimentos que as ações destas empresas acumularam em 2017? Como estes rendimentos se comparam às variações daquelas empresas que mais renderam em 2017? Vejamos:

10 ações do Ibovespa que mais se valorizaram em 2016 – e suas valorizações em 2017

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*Em agosto de 2017, as ações VALE5 foram convertidas em VALE3. Inclusive, convido você a dar uma lida nesta reportagem bem curiosa relacionada ao tema.

Vemos que os números da segunda coluna são, em média, bem menores que os da primeira. Entretanto, isto não quer dizer muita coisa, afinal não sabemos como os outros ativos do índice se comportaram em 2017.

Caso 2017 tenha sido em média um ano bem pior para a bolsa brasileira que 2016, a rigor os números que vemos na última coluna poderiam de fato qualificar estas ações como participantes do top 10 de 2017.

Em busca de uma conclusão sem margem para argumentações, vamos em busca do palmarés de 2017.

10 ações do Ibovespa que mais se valorizaram em 2017

Como estes resultados se comparam àqueles da última coluna da última tabela? Para começar, a lista de empresas é a mesma? Consolidemos as duas tabelas então para facilitar. Atenção: todas as valorizações desta próxima tabela são referentes ao ano de 2017!

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Conclui-se então que 3 papéis (de 9) são ganhadores em 2016 e 2017: Bradespar, Usiminas e Vale. Além disso, já tínhamos visto na tabela anterior que os resultados em 2017 dos ativos top 10 em 2016 não eram ruins.

Deve-se inclusive admitir que apenas 2 deles tiveram valorizações absolutas a desejar em 2017: CSN e Petrobrás. Assim, não podemos negar que o rendimento de uma carteira com pesos equivalentes nestes 10 papéis não teria sido ruim, pelo menos em termos absolutos.

Não contente, ofereci-me a diversão de calcular tal rendimento. Se considerarmos que em sua posição de VALE5 o sujeito tivesse tido o mesmo rendimento que em VALE3 (o que é uma aproximação, mas não quero entrar aqui nos detalhes), esta carteira teria rendido incríveis 38,9%! A título de comparação, o Ibovespa naquele ano rendeu 26,86%. Como diriam os franceses: pas mal !

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Independentemente do resultado, ninguém deve considerar elucidado o meu questionamento sobre a estratégia dos cavalos campeões. Aplicar o teste apenas uma vez é certamente insuficiente para qualquer conclusão minimamente robusta (neste caso, na acepção estatística da palavra).

Entretanto, sob pena de deixar o leitor exausto, paro por aqui.

No próximo texto, além de finalizar este simples exercício fazendo as mesmas comparações para o ano de 2018, pretendo explorar um ponto que me passou batido no meu último artigo: e se um ativo se valorizar X% em um período e, no período subsequente, cair os mesmos X%, neste caso a matemática está enfim a favor do investidor?

Em outras palavras, no final do segundo período a posição do sujeito vale mais ou menos do que lá no início? Observem que a questão é exatamente a mesma investigada naquela ocasião, porém a ordem dos acontecimentos é invertida.

Observações:
1. Em todos os anos, as listas das ações que mais se valorizaram foram sempre feitas a partir do grupo de ações que compunham o Índice Bovespa (popular Ibov). Ou seja, ações que não compunham o índice não foram consideradas.
2. Conforme comentei em meu último artigo, em nenhum dos números de rentabilidade citados acima eu estou considerando os eventuais dividendos pagos pelas empresas que utilizei como exemplo. Tanto na lista do Infomoney quanto neste e no último artigos, os rendimentos foram calculados apenas considerando a variação do preço de cada ativo.

Thomas Keiserman

É assessor de investimentos e sócio-diretor da Esquadra Investimentos, onde trabalha desde 2013. Formado em engenharia civil pela UFRGS, é mestre em economia pela Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne e mestre em engenharia econômica e financeira pela Université Paris-Dauphine. Já trabalhou na Fideas Capital, em Paris, e é CFP desde 2017.