O “oportunismo paciente” na construção de uma carteira previdenciária

Buffett diz que investir é como rebater bolas no beisebol, ressaltando que os investidores têm uma grande vantagem ao seu favor: não podem ser eliminados se ficarem apenas olhando

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
A baseball player looks at a pitch during a game.

O processo de construção inteligente de portfólio consiste em comprar os melhores investimentos dentro do contexto individualizado do investidor, abrindo espaço na carteira vendendo ativos que não são muito bons e ficando longe dos piores.

Podemos levantar alguns tópicos para nos ajudar a definir melhor com que tipo de ativos iremos compor esse portfólio:

– Uma lista com potenciais investimentos;
– Estimativas de seu valor intrínseco;
– Alguma percepção sobre como comparar seus preços ao valor intrínseco;
– Uma compreensão sobre os riscos envolvidos em cada um dos investimentos e o efeito que sua inclusão causaria na carteira.

Investidores mais sofisticados criam filtros e, por meio desses filtros, chegam a uma lista de possíveis investimentos que podem incluir na carteira seguindo alguns ou todos os critérios.

Entre os ativos listados, podem usar esses mesmos filtros para escolher as melhores opções seguindo sempre seu contexto individualizado. De nada vale chegar à melhor opção se você não está disposto a pagar por ela.

É razoavelmente possível que existam ativos que investidores não aceitem, independentemente do preço, porque vão contra seus princípios, como investir em ações de uma empresa de tabaco ou bebidas.

Desse modo, é improvável que o ponto de partida para a montagem de uma carteira previdenciária tenha um universo ilimitado de investimentos como base.

Assim, após definir o filtro e ver que tipo de ativo permaneceu dentro dele, o próximo passo é selecionar em quais investir.

Nosso objetivo não é encontrar bons ativos, mas boas compras. Não se trata do que compramos, mas de quanto pagamos.

Uma empresa de boa qualidade pode ser uma compra boa ou ruim e podemos encarar uma empresa ruim com a mesma percepção.

O maior risco para o investidor de longo prazo não é nem de perto a volatilidade. Ela é nossa amiga pois, em momentos de estresse, conseguimos nos aproveitar dela para comprar uma boa empresa com um preço ainda mais baixo.

O maior risco para o investidor é comprar um ativo caro demais – trago o exemplo de uma grande companhia, que é uma ótima empresa e com uma gestão familiar exemplar, mas não necessariamente uma boa ação para comprar.

Magazine Luiza

Não é segredo para ninguém que o Magalu foi por muito tempo a ação queridinha de muitos investidores neófitos em sua experiência na Bolsa de Valores.

Desde seu ponto mais baixo, em 2015, até o pico, em 2020, a ação valorizou 50.000% – isso antes de o mercado refazer as contas e ver que não fazia sentido o preço pelo qual a ação estava sendo negociada em relação à geração de caixa da companhia. Aí veio a queda mostrada no gráfico abaixo.

Via de regra, o preço da ação tende a corresponder no longo prazo à geração de caixa da companhia.

Se o preço sobe muito mais do que o lucro, logo a empresa é considerada cara demais. Mesmo que seja excelente negócio, não é uma boa ação para incluir no portfólio.

Como mencionei, o preço da ação tende a corresponder ao lucro em um horizonte de investimento maior. Assim, no momento em que o mercado se dá conta de que a ação vale muito mais do que ela consegue gerar de lucro, ocorre a correção do preço da ação para um patamar próximo do resultado real da companhia

Quem comprou a ação em um preço caro demais caiu no pior perigo que existe, a perda permanente de capital.

Muitas vezes, quando isso acontece, o preço da ação demora anos para voltar ao patamar anterior – às vezes, nunca mais volta.

Quando uma ação cai 17%, precisa subir 20% para voltar ao patamar inicial; quando cai 33%, é necessário um ganho de 50%; quando cai 67%, precisa subir 200% para simplesmente voltar ao patamar anterior.

É por esse motivo que devemos evitar comprar ativos caros. Isso atrasa em anos a jornada do investidor e prejudica o tão sonhado objetivo da independência financeira.

Já dizia Warren Buffett: a regra nº 1 do bom investimento é não perder dinheiro; e a regra nº 2 é nunca se esquecer da regra nº 1.

Aproveitando o gancho, trago uma analogia feita pelo maior investidor de todos os tempos sobre “oportunismo paciente”.

No relatório anual da Berkshire Hathaway de 1997, Buffett falou sobre Ted Williams, conhecido como “Splendid Splinter” (“Fragmento Esplêndido”), um dos grandes rebatedores da história do beisebol.

Ele estudava seu próprio jogo de forma aprofundada. Após ter dividido a zona de strike (região em que a bola deve passar quando arremessada para que seja marcado um strike) em 77 “células” do tamanho de uma bola de beisebol, ele mapeou seus resultados em uma tabela e descobriu que a média das rebatidas era muito melhor quando ele tentava rebater apenas os arremessos que atingiam um ponto ideal, o “sweet spot”.

Mesmo sabendo disso, era óbvio que ele não podia esperar o dia todo pelo arremesso perfeito – se ele deixasse passar três arremessos sem tentar acertar a bola, seria eliminado.

Buffett comentou que investir é como rebater bolas, ressaltando que os investidores têm uma grande vantagem ao seu favor: não podem ser eliminados se ficarem apenas olhando – ou seja, não precisam se sentir pressionados a agir.

Em outras palavras, eles podem deixar passar muitas oportunidades até que surja uma espetacular.

“Investir é o melhor negócio do mundo porque você nunca precisa rebater. Nós nos mantemos em nossa posição e o lançador passa a nos arremessar oportunidades; General Motors a US$ 47! U.S Steel a US$ 39! E ninguém nos põe para fora do jogo. Não há penalidades, apenas oportunidades. Podemos esperar pelo arremesso que mais nos agrade e, então, quando os defensores estiverem dormindo, nós nos levantamos e damos a tacada certa”.

Warren Buffett, relatório anual da Berkshire Hathaway de 1997

Manter-se em sua posição com o bastão nos ombros é a versão de Buffett sobre “oportunismo paciente”.

O verdadeiro objetivo da gestão ativa de capitais é comprar coisas por menos do que valem. Em diversas ocasiões, essas coisas podem ficar muito tempo sendo negociadas abaixo do que valem, até que o mercado volte a ser eficiente e passe a precificá-las de maneira racional, analisando sua geração de caixa e potencial de crescimento.

Mas, até que o mercado” acorde”, você já rebateu muitas bolas.

Durante uma crise, é importante ficarmos longe das forças que nos façam vender. Por isso, tenha sempre uma reserva de emergência – assim, não terá necessidade de sacar seus investimentos.

Também é importante estar bem-posicionado para ser comprador – não apenas financeiramente, mas também psicologicamente e tecnicamente.

O oportunismo paciente reforçado pelo ponto de vista contrário e com balanço patrimonial forte é capaz de gerar lucros impressionantes em momentos de estresse.

O oportunismo paciente à espera de pechinchas é muitas vezes nossa melhor estratégia. Mantenha-se fiel aos seus princípios e não se deixe levar pela ganância de dar a grande tacada do dia para noite.

Mesmo as melhores oportunidades podem levar tempo para serem vistas pelo mercado. Mas o verdadeiro investidor sabe que fez um ótimo negócio no momento da compra, não pelo fato de o mercado ter andado a favor da posição.

Não é necessário ter pressa na construção de portfólio. Esse é um processo lento e dinâmico. À medida que o tempo passa e os objetivos mudam, os ativos que compõem a carteira precisam estar alinhados com os novos objetivos.

Caso seus objetivos permaneçam intactos ao longo dos anos, nunca se esqueça do motivo pelo qual você colocou determinado ativo na carteira e se ele ainda é aderente aos seus objetivos, mantendo-se fiel e disciplinado à sua estratégia mesmo que demore. Fazendo isso, não tenho dúvidas de que conseguirá chegar aonde quer.

Para resumir, a condição necessária para encontrar boas oportunidades é que a percepção seja consideravelmente pior do que é a realidade. Afinal, quando todos se sentem bem com algo e estão felizes em participar, o preço, certamente, não será uma pechincha.

Guilherme Puim

É formado em administração, especialista em investimentos com certificação CEA e consultor de investimentos na Suno Consultoria.