“Haddad, desse jeito parecemos um episódio dos Trapalhões”, diz Sr. Mercado

O que sobrou após recuo no IOF? Uma visão de desorganização institucional, que já não é novidade, foi vista no episódio da isenção do Imposto de Renda no fim do ano passado

Sr. Mercado

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O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) se tornou protagonista no fim desta semana. Na tentativa de endereçar questões fiscais por meio da arrecadação, Fernando Haddad, Ministro da Fazenda do Brasil, anunciou uma série de alterações nesse tributo.

Por óbvio, mudanças altistas e que, de certa forma, pareciam terem sido construídas as pressas e sem uma visão técnica. Não é um achismo, isso é um fato irrefutável.

Após a publicação oficial da alteração, o impacto na indústria financeira, especialmente para fundos de investimento multimercado, que passariam a pagar 3,5% nas remessas internacionais, gerou um estresse relevante. Rumores que os fundos fechariam para captação começaram e o “fim das gestoras” começou a ser dito nas mesas, grupos de WhatsApp.


Eu explico: praticamente todos os fundos de investimento multimercado, entre alguns outros da indústria, remetem seus recursos para o exterior para acessarem instrumentos financeiros internacionais. Boa parte dos gestores preferem, nesse momento, carregar mais “risco” fora do Brasil – por uma questão de oportunidade.

Agora pense o seguinte, grosso modo, os fundos cobram uma taxa de administração e de performance – para esses veículos, normalmente ficam entre 2% e 20% do que exceder o “benchmark” (CDI, na maior parte das vezes). Vamos ignorar o resultado da estratégia por um momento? A gestão do fundo parte “devendo” no mínimo 2% aos seus cotistas.

Se agregarmos o custo do IOF, isso saltaria para 5,5%, o que corresponde a 37,3% da taxa Selic, o principal custo de oportunidade para o investidor brasileiro que decide realizar um investimento num fundo como esse. Essa pressão de custo torna praticamente inviável manter uma estrutura como essa de pé – isso que eu nem entrei no mérito de equipe, sistemas e demais estruturas.

Logo após a medida, voltaram atrás. A Mariana Segala, editora-chefe do InfoMoney, relatou muito bem todo esse processo em sua coluna.

A pressão sofrida por Haddad, Galípolo e demais referências que foram acionadas pelos gestores incessantemente gerou esse recuo. Parece que muitas dessas contas simples e superficiais que eu mesmo fiz neste texto não passaram na cabeça de ninguém por ali, ou pior, talvez a entidade técnica, o Banco Central, nem soubesse que isso aconteceria.

No fim, foi um susto expresso claramente nos preços do mercado, especialmente no dólar futuro. O que sobrou? Uma visão de desorganização institucional, que já não é novidade, foi vista no episódio da isenção do Imposto de Renda no fim do ano passado.

Eu não passo da opinião média dos investidores, expressa pelos preços. Porém, frases criativas fora deles merecem destaque, e como foi dito por um desses financistas – “parece até um episódio dos trapalhões”.

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Sr. Mercado

é uma coluna semanal em que Lucas Collazo, apresentador do podcast Stock Picker, desvenda os pormenores do mercado financeiro