Metamorfose e evolução

Empresas que desejam sair vencedoras desta crise vão precisar passar por um processo de transformação

Rodrigo Moreira

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

(Alex Pantling/Getty Images)
(Alex Pantling/Getty Images)

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Espero não frustrar aqueles que buscam no artigo algum tipo de analogia kafkiana com o que está ocorrendo no momento atual. Não pretendo discorrer sobre a trajetória de Gregor Samsa e seus dilemas existenciais. Apesar de recomendar a todos a leitura (ou releitura) do clássico “A Metamorfose”, de Franz Kafka.

Refletir sobre a importância que damos a nossa vida, valores, angústias e a autenticidade de nossa própria existência pode nos ajudar a redirecionar algumas das prioridades cotidianas, seja do lado profissional ou pessoal. Fica o convite. Fecho aqui a licença filosófica.

Penso em debater sobre a transformação pela qual empresas vencedoras vão passar durante esta crise. Apesar de a busca de analogias em sistemas biológicos ser um clichê, não resisti. Menos Kafka e mais Darwin de agora em diante.

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Leituras variadas e interações constantes com empresários me levaram a elaborar uma visão que distingue três etapas distintas para uma trajetória potencialmente bem-sucedida de metamorfose e evolução empresarial durante a crise pela qual estamos passando.

Nesse cenário crítico, tais etapas foram e serão resultado de modificações internas nas empresas como resposta a mudanças drásticas no ambiente. Adaptações orgânicas, em processos internos ou em modelos de negócios, é que permitirão a sobrevivência diante da mudança.

Faço aqui um disclaimer de que compartilho da visão de que o experimento pelo qual estamos passando, assim como descreveu Warren Buffett na Reunião Anual da Berkshire Hathaway, não tem precedentes em nossa história econômica.

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Dessa forma, é cedo para termos certezas sobre como a sociedade, e, portanto, os agentes econômicos, responderão a ele.

Logo, o exercício a seguir é uma hipótese construída com base nas informações que temos até o momento e, por isso, pouco pretensioso.

Etapa 1: Sobrevivência

Passados cerca de 45 dias do choque inicial, diria que muitas empresas estão no final desta primeira fase. Uma etapa crítica, na qual muitas empresas congelaram suas atividades ou até mesmo pereceram. O choque de demanda foi tão severo que a gravidade desses efeitos nem chega a surpreender.

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As empresas que sobreviveram a esta fase recorreram a ações táticas essenciais para sua subsistência. Como se fossem organismos vivos, elas buscaram eficiência. Cortaram muitas vezes na própria carne. Eliminaram “gordura”. Buscaram reserva de caixa. Prepararam-se para um período de desafios imprevisíveis.

O sucesso nesta etapa esteve em compreender bem o negócio e ter a gestão dele na palma da mão. Conhecer bem o que podia ou não ser feito em termos operacionais, e ter a capacidade de fazer uma boa administração do ciclo financeiro.

Etapa 2: Transformação

Ainda é cedo para afirmar se o pior momento já passou. Se o choque está no final. Todavia, muitas empresas já estão se transformando. Em alguns casos, seus líderes agem como se a situação atual vá refletir boa parte da realidade futura e estão se preparando para tal.

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Com isso, tenho escutado relatos inspiradores de empresas que redesenharam seus processos. Mudaram a metodologia de trabalho. Não apenas fizeram um “simples” home office, mas transformaram suas linhas de desenvolvimento de métodos convencionais, adotando a metodologia agile, por exemplo.

Algumas empresas vão mudar suas linhas de produção para atender a novas demandas, tornando-se mais ágeis e flexíveis. Outras encontrarão novos nichos de negócios que atendam a novas necessidades dos consumidores, em tempos de experiências com menos contato físico. Indústrias como lazer, transporte, alimentação e comércio varejista vão redesenhar a experiência do cliente.

No “novo normal”, a centralidade no cliente será essencial. Cultura forte e segurança dos colaboradores também. Recomendo a leitura do inspirador “Equipes Brilhantes”, de Daniel Coyle, para encontrar insights importantes. Gente sempre foi, é e será fundamental. Inovação em torno de um propósito consistente será o nome do jogo.

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Etapa 3: Evolução

Essa será a fase final. O momento no qual as empresas atuais de fato terão se metamorfoseado. Empresas vencedoras provavelmente já terão novos processos, produtos, metodologias e um novo ângulo no relacionamento com os clientes.

Muitas empresas lamentavelmente ficarão pelo caminho. Aqui, evoco Schumpeter e sua Teoria de Ciclos Econômicos: apenas por meio da inovação e da disruptura o capitalismo é capaz de dar seus saltos.

E que economia teremos pela frente? Uma economia na qual a tecnologia, a omnicanalidade e a centralidade no cliente serão lugares comuns. Na qual a cultura corporativa será cada vez mais importante e times colaborativos, independentemente da distância física, serão fundamentais. Na qual o crédito tenderá a ser mais cooperativo, com clientes e fornecedores cada vez mais entendendo sua interdependência.

Terá sido um processo quase darwiniano, no qual a capacidade de se transformar como organização e a aptidão para enfrentar um ambiente de incertezas cada vez mais frequente serão os principais diferenciais.

Tomara que líderes e empresas continuem sendo uma metamorfose ambulante, sem ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Que aprendam sempre e continuem evoluindo. Que continuem experimentando, sem medo de errar, pois assim resistirão e prevalecerão, não importa o quão desafiadora seja a jornada que teremos pela frente.

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Rodrigo Moreira

Sócio da Xp Inc., Mestre em Economia, Bacharel em Engenharia e head da XP Empresas. Possui 20 anos de experiência dedicados ao atendimento de empresas de grande e médio porte. Com passagens por Itau BBA, Unibanco, Pactual e Bozano, Simonsen.