O verdadeiro Big Brother veste verde e está no seu bolso

O WhatsApp é mais usado do que a televisão aberta, o rádio, o e-mail e até os aplicativos dos maiores bancos

Renato Dolci

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Você já parou para pensar que o maior banco de dados do Brasil não pertence ao governo, ao Serasa ou ao Banco Central? Ele está no seu bolso. E você o alimenta todos os dias, voluntariamente.

O WhatsApp não é só um aplicativo de mensagens. Ele é a infraestrutura invisível por onde circula praticamente tudo o que importa na sua vida. Com 147 milhões de usuários ativos no Brasil, segundo dados do Statista, ele está instalado em nove de cada dez celulares do país. É mais usado do que a televisão aberta, o rádio, o e-mail e até os aplicativos dos maiores bancos. De acordo com uma pesquisa da Opinion Box, 97% dos brasileiros conectados acessam o WhatsApp ao menos uma vez por dia, e 61% o abrem várias vezes ao longo do dia. O resultado é que ele sabe mais sobre você do que seu gerente, seu psicólogo e seu parceiro juntos — e, na maioria das vezes, sem precisar pedir.

Essa onipresença não se limita a mensagens. O Brasil se organiza dentro do WhatsApp por meio de grupos e chats individuais. Certa vez, li um dado não confirmado, de que há mais de 2,8 bilhões de grupos no WhatsApp Brasil, o que parece fazer sentido. São grupos de família, de trabalho, da igreja, do condomínio, da escola, do bairro, do futebol. Cada brasileiro participaria, se o dado estiver certo, de em média, 19 grupos diferentes. Esses ambientes, que parecem caóticos e informais, funcionam na prática como clusters perfeitos para quem quer mapear relações sociais. Ali estão redes inteiras, com quem influencia quem, quem confia em quem, quem briga com quem. É um mapa social mais preciso do que qualquer censo do IBGE ou pesquisa eleitoral.

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A confiança no WhatsApp é tão grande que ele se tornou um cofre de segredos nacionais. Um estudo mostra que 72% dos brasileiros já enviaram ou receberam dados bancários pelo aplicativo, como prints de extratos, senhas temporárias ou comprovantes. Em 2023, as transações bancárias por apps de mensagem cresceram 76% no Brasil, segundo o Finsiders, com o WhatsApp liderando esse movimento. Hoje, 85% dos bancos brasileiros já oferecem atendimento automatizado dentro do app, segundo pesquisa da MobileTime. Isso significa que o brasileiro não só confia seus dados a familiares e amigos, como também aos sistemas financeiros inteiros via essa plataforma.

Durante a temporada de declaração de imposto de renda, milhares de pessoas mandam PDFs completos para contadores ou parentes, arquivos que revelam patrimônio, CPF, dependentes, dívidas e investimentos. Esses documentos, em muitos casos, ficam armazenados em backups na nuvem, fora da criptografia ponta a ponta que o aplicativo tanto promove em suas campanhas. Basta um acesso não autorizado a esses backups para que identidades digitais inteiras sejam sequestradas.

O WhatsApp também acompanha movimentos físicos. Conduzi uma pesquisa interna para um cliente em 2020 que mostrava que 41% dos brasileiros enviam localização em tempo real pelo menos uma vez por semana. Essa função, que parece inofensiva, gera trilhas digitais detalhadas sobre onde você mora, trabalha, se diverte, gasta dinheiro. Fotos enviadas pelo app trazem metadados embutidos, como data e hora. Áudios, por sua vez, carregam muito mais do que palavras: eles revelam emoções, sotaques, perfis psicológicos, padrões de estresse. Nada, nem ninguém, sabe tanto sobre você quanto o seu WhatsApp.

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Ele também é o maior shopping center informal do Brasil. Segundo o DataReportal, 58% dos pequenos negócios usam o WhatsApp como principal ferramenta de atendimento e venda. Em 2024, estima-se que R$ 325 bilhões em vendas digitais foram influenciados por conversas iniciadas no aplicativo. Em muitas cidades, ele substituiu a loja física, o site, o SAC e até a maquininha de cartão. Mas isso também significa que milhões de negociações ocorrem sem registro formal, sem nota fiscal, sem qualquer tipo de rastreabilidade. Dentro do mesmo grupo onde circula a foto de um aniversário de família, pode estar acontecendo a venda de um carro, a contratação de um serviço clandestino ou a negociação de uma dívida.

E não estamos falando apenas de dinheiro. Pesquisas indicam que um percentual expressivo dos brasileiros já enviou conteúdo íntimo pelo aplicativo. Cada áudio, cada emoji, cada confissão revela mais sobre a psique coletiva do país do que qualquer pesquisa de opinião. Imagine o percentual das empresas brasileiras usam grupos de WhatsApp para discussões estratégicas internas, muitas vezes envolvendo decisões corporativas e dados confidenciais. Ou seja, não são apenas vidas pessoais que estão registradas lá, mas também a espinha dorsal de negócios inteiros.

O verdadeiro risco não está em ataques hackers ou em invasões cinematográficas. Está na entrega voluntária. Você não precisa ser hackeado porque você mesmo documenta e compartilha tudo, em tempo real, com uma naturalidade impressionante. Prints de conversas comprometedoras, planilhas empresariais, contratos, dados pessoais, localização em tempo real, tudo passa por servidores que não estão no Brasil, mas em países com legislações diferentes sobre privacidade e proteção de dados.

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O WhatsApp já provou sua capacidade de influenciar não só indivíduos, mas o país inteiro. Em 2018, mensagens em massa foram determinantes no debate eleitoral, a ponto de o Tribunal Superior Eleitoral criar, em 2022, tentar monitorar a plataforma. O problema não está apenas na desinformação, mas na arquitetura do aplicativo: grupos são privados e fechados, impossíveis de auditar. Isso cria um marketing político perfeito, capaz de segmentar mensagens com uma precisão cirúrgica, sem deixar rastros para pesquisadores ou jornalistas.

Tudo isso foi possível porque o WhatsApp oferece algo irresistível: velocidade, simplicidade, gratuidade. Em troca, nós oferecemos nossa privacidade, pouco a pouco, quase sem perceber. A cada print enviado, a cada áudio gravado, a cada documento compartilhado, fomos trocando sigilo por conveniência. Quando percebemos, o aplicativo não era mais uma ferramenta, era o espelho da nossa vida, com registros que nenhum diário físico jamais teve.

Enquanto você lê este texto, alguém acabou de enviar um contrato de aluguel, outro compartilhou a foto do filho recém-nascido, outro mandou o comprovante de um Pix, outro revelou seu voto num grupo de família. Tudo dentro da mesma plataforma. Tudo catalogado, arquivado, disponível. George Orwell imaginou um futuro em que seríamos vigiados por câmeras em cada canto da casa. A realidade foi mais elegante, e certamente, mais eficiente. Nós mesmos nos tornamos os operadores do sistema, entregando nossa intimidade voluntariamente, em bolhas verdes.

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Na era do digital, a privacidade não foi perdida à força. Ela foi trocada por praticidade.

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.