Seu feed no LinkedIn também parece uma fábrica de certezas?

Enquanto todos exibem clareza no palco digital, os números mostram uma geração cada vez mais ansiosa e perdida

Renato Dolci

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Imagem gerada com IA/Renato Dolci
Imagem gerada com IA/Renato Dolci

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Você abre o seu LinkedIn e a cena é sempre a mesma: histórias de superação viram lições de gestão, cafés derramados se transformam em metáforas motivacionais e emojis de foguinho acompanham frases que deveriam inspirar, mas soam mais como certezas empacotadas. Do estagiário ao CEO, todo mundo parece falar com a segurança de quem decifrou a vida.

É aqui que nasce a sensação mais incômoda: parece que só a gente, individualmente, se sente perdido. Como se a dúvida fosse um defeito íntimo, uma falha que precisa ser escondida. No feed, você não lê hesitação nem fragilidade. Quando a dúvida aparece, já vem polida, formatada e glamourizada, um storytelling de incerteza que, no fim, desemboca em “aprendi e agora trago cinco lições para você também aplicar”.

Essa encenação contrasta com o que mostram os dados. O Brasil é um dos países mais ansiosos do mundo, segundo a OMS. Em 2017, já eram 11,5 milhões de pessoas vivendo com depressão. De lá para cá, a escalada não parou. Pesquisas apontam que o consumo de antidepressivos praticamente dobrou em dez anos, saltando de 23,3 para 38,3 doses diárias padronizadas por mil habitantes entre 2014 e 2019. E continua crescendo: só entre 2022 e 2024 houve novo aumento expressivo, puxado pela geração Z.

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Um levantamento da Gallup em 2023 mostrou que 44% das pessoas no mundo disseram sentir níveis elevados de estresse diariamente, o maior patamar desde que a pesquisa começou. No Brasil, o índice de tristeza frequente também está acima da média global. Fica impossível ignorar o paradoxo: nunca se falou tanto em propósito, clareza e liderança inspiradora, e nunca se registraram tantos níveis de exaustão emocional.

Outro dado relevante mostra que, em 2024, 47% dos brasileiros afirmam se sentir sozinhos frequentemente, posição que nos coloca entre os países mais solitários do mundo. Esse índice é ainda maior entre os jovens, justamente aqueles que mais se expõem em redes como o LinkedIn. No palco, eles ostentam confiança e aprendizados. Fora dele, enfrentam índices recordes de solidão, insegurança e mal-estar psicológico.

Agora, um panorama ainda mais profissional reforça o contraste aberto entre aparência e realidade. Uma pesquisa da Exame revela que 57% dos formandos de 2025 estão pessimistas em relação ao início das suas carreiras, um salto em relação à 49% registrados em 2024. Isso não é só ansiedade, é desconfiança legítima diante de um mercado moldado por instabilidade, processos seletivos nebulosos e exigências cada vez mais descoladas das realidades de quem chega.

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E esse pessimismo alimenta um movimento ainda mais contundente: segundo o LinkedIn, três em cada cinco trabalhadores brasileiros pretendem trocar de emprego em 2025, e entre os jovens da Geração Z, esse número chega a 68%. Eles não querem só mudar de emprego: querem correr atrás de sentido, equilíbrio e oportunidades reais, mesmo que ainda não saibam direito para onde estão indo.

No palco digital, todos sabem para onde estão indo. Na vida real, quase ninguém sabe. Essa contradição é o que faz o LinkedIn parecer menos uma rede profissional e mais um grande teatro corporativo. A dúvida genuína desaparece. O erro vira lição de liderança. A hesitação se converte em conteúdo motivacional. Tudo precisa terminar em clareza, até quando começa em incerteza.

Talvez o que realmente falta é espaço para a honestidade. Porque a dúvida não é fracasso, é condição humana. E o único post que teria valor de verdade seria aquele que quase ninguém ousa escrever: hoje eu ainda estou perdido, sem certezas, mas continuo tentando.

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.