China x Brasil: Por que a economia de alguns países cresce e a de outros não

Na China e na Índia mudanças estruturais impulsionaram a renda, enquanto Brasil e México tiveram avanços institucionais, mas sem grande prosperidade

Andrés Velasco

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Imagem: VectorMine/Getty Images/Project Syndicate
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LONDRES — Keir Starmer se tornou primeiro-ministro do Reino Unido com a promessa de reacender o crescimento econômico. Menos de dois anos depois, sua popularidade nas sondagens desabou e ele anunciou sua renúncia na segunda-feira, 22. Uma das razões para as dificuldades políticas de Starmer (e são muitas) é o fato de a economia britânica nunca ter decolado.

Os políticos gostam de fingir que controlam as alavancas do crescimento econômico. Mas, como demonstra a popularidade em queda livre de Starmer, essa pretensão tem se tornado cada vez mais insustentável.

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As pessoas que se autodenominam economistas desenvolvimentistas, em contrapartida, nem sequer fingem conhecer as causas profundas do crescimento. Há um quarto de século, decidiram que o enigma de por que alguns países se tornam ricos enquanto outros permanecem pobres era complexo demais para ser abordado.

Se dermos uma galinha ou um porco aos aldeões, eles estarão menos pobres dois anos depois? Se curarmos as crianças de parasitas, elas terão melhor desempenho na escola? São essses tipos de questões que têm ocupado algumas das melhores mentes na área do desenvolvimento.

Como Lant Pritchett, professor convidado na London School of Economics, defende há tempos, trata-se de uma enorme má alocação de talento.

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Enquanto alguns economistas hesitavam, os países e os seus líderes vêm se mantendo ocupados experimentando soluções. Os resultados são mistos.

Em 1978, o então líder da China, Deng Xiaoping, lançou sua política de “reforma e abertura”, que resultou no crescimento econômico mais rápido da história da humanidade. Desde então, a renda do cidadão chinês médio, ajustada à inflação, aumentou 20 vezes, e centenas de milhões de pessoas saíram da pobreza.

Há trinta e cinco anos, outro gigante demográfico, a Índia, também iniciou um processo de reforma. Os resultados têm sido menos espetaculares que os da China, mas ainda assim impressionantes: o indiano médio dispõe de uma renda ajustada à inflação quase cinco vezes superior à de 1991.

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Índia e China não estão sozinhas. Outros países – entre os quais Vietnã, Bangladesh, Polônia e Turquia – cresceram rapidamente nas últimas décadas. Mas muitos mais países estagnaram no mesmo período.

Por exemplo, Brasil e México também estabilizaram e abriram suas economias (o Brasil em grau menor do que o México) na década de 1990, mas o crescimento tem sido anêmico. A China ultrapassou ambos em rendimento per capita, apesar de ter começado muito, muito mais pobre.

As evidências anedóticas podem se tornar mais sistemáticas. Um artigo recente mostra que reformas políticas abrangentes costumam anteceder acelerações do crescimento. No entanto, a esmagadora maioria dessas reformas não produz, no todo, uma aceleração do crescimento. Uma boa política econômica é necessária. Raramente é suficiente.

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Se isto parece frustrante, é porque deve ser.

Mas nem tudo está perdido. Outro grupo de economistas – incluindo o laureado com o Prêmio Nobel Philippe Aghion– deu algumas pistas para o mistério do crescimento. A chave está nas melhorias de produtividade, que, no longo prazo, são resultado somente da inovação tecnológica.

A inovação, por sua vez, requer o que os economistas chamam de rendas: lucros anormalmente elevados que mais do que compensam os custos dos inovadores. Porém, se as rendas forem elevadas demais, as empresas estabelecidas se sentirão tentadas a usar seu poder econômico e político para sufocar a inovação por parte de potenciais concorrentes. Trata-se de um equilíbrio delicado que poucos países conseguem alcançar.

As empresas nos países em desenvolvimento raramente realizam o tipo de inovação de vanguarda que dará origem ao próximo Google ou Anthropic. Para elas, o que importa é adotar e adaptar as tecnologias inventadas noutros locais. Mas esta tarefa também tem se mostrado surpreendentemente difícil.

Os países em desenvolvimento fizeram enormes progressos em muitos dos fatores subjacentes ao crescimento. Os níveis de educação subiram. A expectativa de vida melhorou. As taxas de investimento aumentaram. Em muitos países, as instituições estão mais fortes do que há uma geração. No entanto, a convergência de rendimentos com as economias avançadas tem sido dolorosamente lenta – e, na maioria dos casos, inexistente.

A única explicação plausível para este enigma está na difusão lenta da tecnologia, como argumentou Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard. Ideias podem atravessar fronteiras instantaneamente, mas capacidades produtivas não.

Posso facilmente baixar manuais de engenharia da Internet. Mas lê-los não faz de mim um engenheiro. Não se pode confiar em mim para construir uma ponte, a menos que tenha passado anos rodeado de engenheiros, adquirindo e aplicando os conhecimentos técnicos necessários.

Além disso, as capacidades produtivas tendem a ser específicas de um único setor. E só se desenvolvem se surgir procura por elas nesse setor. Os luthiers só existem em países com uma indústria de violinos.

Isto tem implicações para as políticas públicas. Mercados, por si só, podem não gerar as capacidades necessárias para a modernização tecnológica. Governos precisam coordenar investimentos, fornecer bens públicos específicos para cada setor e formação profissional específica para cada setor, e criar um ambiente em que a inovação seja recompensada, sem permitir que os operadores estabelecidos bloqueiem a concorrência.

Resolver o enigma de por que alguns países enriquecem enquanto outros estagnam é difícil. Mas o mesmo se aplica à cura do câncer. Isso não impediu que biólogos, pesquisadores químicos, geneticistas e médicos tentassem. Eles fizeram progressos, por mais lentos que fossem.

Os economistas também fizeram progressos, e ainda mais lentamente. Mas podem continuar avançando desde que foquem nas questões certas. O desafio, como diz Pritchett, é incluir as pessoas “na produtividade”.

A complexidade deste desafio pode ser frustrante. Mas é menos frustrante do que continuar lendo artigos acadêmicos sobre galinhas e porcos enquanto milhares de milhões de pessoas ainda vivem na pobreza.

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Andrés Velasco

Ex-ministro das Finanças do Chile e reitor da Escola de Políticas Públicas da London School of Economics and Political Science.