Vale Tudo 2025, o fenômeno da construção coletiva

Da novela que parou o Brasil na década de 1980 para a versão que criou conversas infinitas nas redes sociais, vimos a prova de que as cotas comerciais de qualquer produto de conteúdo não podem mais viver sem a audiência que migrou para as comunidades digitais

João Pedro Paes Leme

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

“Quem matou Odete Roitman?” foi a pergunta que parou o Brasil em 1989 — e que, em 2025, ganhou outra camada: quem escreveu o desfecho junto com os autores da novela? A resposta, agora, envolve milhares de criadores de conteúdo, comunidades digitais e perfis de fãs que moldaram hipóteses, memes, teorias e linhas do tempo paralelas. Se, no fim dos anos 80, a experiência era quase inteiramente de broadcast (um país inteiro diante da TV, às 20h), a nova versão saiu do controle da Globo para ganhar a coautoria do público e uma distribuição multiplataforma. Ou seja, a trama oficial foi ao ar, mas a trama “expandida” se fabricava nas redes, em tempo real.

Em 6 de janeiro de 1989, a Globo revelou que Leila tinha sido a assassina de Odete Roitman. Atirou por engano na personagem, quando, na verdade, sua intenção era matar Maria de Fátima. O capítulo final atingiu 86 pontos de Ibope, números impensáveis nos dias de hoje — pico de concentração de audiência só possível na era pré-internet, num ambiente sem streaming ou redes sociais. Era um país sincronizado por um único horário e uma única tela.

Em 17 de outubro de 2025, o remake concluiu o arco de Odete com uma outra lógica: a vilã levou o tiro de Marco Aurélio, mas sobreviveu. Uma semana antes, porém, a imprensa havia registrado divergências e alguma confusão nos minutos seguintes ao tiro e as redes sociais viram surgir as mais mirabolantes teses — inclusive a que viria a se provar correta, uma semana mais tarde. Em audiência linear, o último capítulo marcou 30 pontos em São Paulo, bem abaixo do absurdo índice de 1989 — mas essa comparação direta engana, porque a novela deixou de ser computada apenas como uma hora de TV e virou uma sequência de camadas mais profundas de retenção, alimentadas por conversas digitais poderosas.

Continua depois da publicidade

Números recentes ajudam a dimensionar o impacto da nova versão. As análises de mercado apontam R$ 200 milhões em faturamento e 287 milhões de interações somadas nas plataformas — um patamar que a Globo, historicamente forte no mainstream, só alcança quando a ficção vira “assunto da internet”. Por isso, minha tese é simples: “Vale Tudo 2025”  virou o maior case brasileiro de viralização de conteúdo não-nativo digital porque aceitou ser escrita a quatro mãos com as redes sociais.

A “capilaridade de conversa” aparece em marcadores periféricos, mas reveladores: explosões de buscas semanais pelo termo “Vale Tudo” (1,52 milhão numa única semana; 3,93 milhões desde a estreia, segundo a Timelens), e tendências claras em X/TikTok/Instagram a cada micro-reviravolta da trama. É o extremo oposto de 1989: menos concentração numa única noite, mais recorrência e uma quase onipresença digital ao longo de meses.

A novela que encontrou o algoritmo e virou motor de retenção

As teorias nas redes sociais serviram como construção coletiva e motor de retenção. Cada cena com arma, taça, guardanapo, câmera e contradições reavivou os “detetives de sofá”. Canais no YouTube, threads em X e cortes no TikTok montaram dossiês amadores com timecodes, prints e hipóteses. A dinâmica lembra fóruns de true-crime, mas aplicada à ficção — um folhetim ampliado em que o gancho oficial é só a faísca para centenas de mini-ganchos comunitários.

Continua depois da publicidade

Por outro lado, surgiu também um fenômeno de debate intergeracional. A imagem-símbolo de Odete (agora vivida por Débora Bloch) foi “recortada” em formatos nativos de social media, muitas vezes comparada à Odete original (vivida por Beatriz Segal). Foram reels com áudio reaproveitável (“Ninguém tem coragem de atirar em Odete”), cards “quem atirou?”, coreografias etc. O meme cumpriu o papel que, em 1989, a chamada da TV cumpria: levar o assunto para quem ainda não estava assistindo. Na prática, o meme é o “VT de chamada” do século XXI, só que distribuído por creators e públicos de nicho, do humor ao comentário político.

Além disso, vivemos a era do “after digital”. Antes a conversa pós-capítulo cabia aos bares, às salas de estar. Hoje, ela acontece em lives, reacts e stories, imediatamente após a novela. É nesse “pós” que a capilaridade explode: cada criador vira um “programa de debate”, com estéticas e públicos distintos, multiplicando os ângulos do mesmo evento oficial.

Muito antes da internet, lembro de ter lido na faculdade o livro A obra aberta, de Umberto Eco. Na prática, ele descrevia exatamente o que vimos com “Vale Tudo”: a potência de obras que convidam o público a completar sentidos. Umberto Eco escreve que a obra aberta “propõe ao fruidor uma cadeia de possibilidades”, permitindo que participe do processo de configuração. Em linguagem do nosso tempo: algumas obras são programadas para serem complementadas pelo público. O folhetim clássico tem essa vocação — suspense, lacunas, finais em suspenso — e a novela, quando abraça a ambiguidade, ativa o instinto interpretativo do público. As redes apenas amplificam esse impulso: dão escala, memória e ferramentas para que essa coautoria se materialize em posts, vídeos e pistas.

Continua depois da publicidade

1989 x 2025: dois ecossistemas de atenção

Comparar 86 pontos com 30 pontos é tão tentador quanto injusto. Em 1989, a audiência era um lago: profundo, concentrado, com uma maré por dia. Em 2025, parece mais o delta de um rio: vários cursos d’água, muitos afluentes, e milhares de possibilidades de circulação da água, muito além do veio principal. O capítulo da novela na tv estoura a barragem; as redes organizam ondas subsequentes (reacts, cortes, análises, teorias, clips de humor) que prolongam o ciclo de consumo.

Essa mudança produz três efeitos práticos:

  1. Alcance incremental: parte do público que não assiste à novela “entra” pelo corte do criador favorito e, a partir dali, acompanha os resumos semanais — ou migra para a exibição tradicional.
  2. Memória cultural: bordões e imagens viram marcadores sociais (o “sinal de pertencimento” a uma conversa maior), que voltam em novas ondas de meme.
  3. Curadoria distribuída: perfis especializados (crítica de TV, true-crime de ficção, humor) funcionam como editores de pós-capítulo, dando sentido às pistas e mediando a ansiedade pelo próximo episódio.

A velha engenharia do gancho

O que mudou não foi o amor do brasileiro por um bom mistério, mas o lugar onde o mistério reverbera. O cliffhanger — invenção do folhetim do século XIX, também batizada de “gancho” — migra da bancada do aparelho de tv para o carrossel, o short e a live. Essa é a principal razão pela qual “Vale Tudo 2025” funciona como aula de produto de mídia. A novela entendeu que uma obra seriada precisa de um ecossistema seriado: teasers oficiais, chamadas editoriais, distribuição de highlights e, do outro lado, uma órbita de criadores que transformam o capítulo em conteúdo-matéria-prima. Quando essa dança é observada com lupa, fica claro: a narrativa televisiva empurra; as narrativas das comunidades puxam.

Continua depois da publicidade

Os criadores operam como colunistas de rodapé do século XXI. Não apenas opinam; eles estruturam a conversa. Alguns instauram “cortes canônicos” do episódio, preservando da narrativa original; outros refazem a cena com humor; outros ainda organizam linhas do tempo que, de tão bem produzidas, viram referência. Em muitos casos, o público acompanha a novela via seus mediadores de confiança, numa relação que reforça lealdade e frequência de consumo. São coautores invisíveis. Talvez, até mesmo, sejam um pouco protagonistas nessa nova era.

Esse “elenco invisível” amplia o funil (traz gente que não veria a novela) e aprofunda a retenção (faz quem viu querer entender melhor). A Globo, por sua vez, aprende com esse ecossistema: o que viraliza, o que confunde, o que pede explicação oficial. É um tipo de telemetria cultural que não existia em 1989 e que, agora, retroalimenta decisões de promoção e edição.

Risco, ruído e a governança do pós-capítulo

O desfecho de 2025 mostrou que ruído de informação (morreu? sobreviveu? sumiu?) eleva a temperatura da conversa. Há riscos: manchetes desencontradas, teorias que se impõem antes da confirmação, clips fora de contexto. Mas há ganhos: picos de busca, migração para fontes oficiais, novas leituras que mantêm o tema no topo por dias. A lição prática é de governança: garantir explicações confiáveis rápidas, construir materiais de esclarecimento e manter um canal de diálogo com creators-chave, sem engessar a espontaneidade que torna a conversa viva.

Continua depois da publicidade

O que fica como hipótese geral:

  1. Quanto mais capítulo, mais conversa. Obras episódicas, com ganchos claros, tendem a gerar recorrência e reinterpretações — o terreno ideal para threads, reacts e cortes.
  2. Quanto mais ambiguidade controlada, mais participação. A incerteza, quando desenhada (e não fruto de erro) induz cooperação: o público preenche lacunas com inteligência coletiva.
  3. Quanto mais personagens simbólicos, mais memética a repercussão. Vilões e anti-heróis com brand assets fortes (voz, frases, gestos) viram matéria-prima de meme e abrem portas para públicos que não veriam a obra por causa do enredo, mas ficam por causa dessa certa mitologia contemporânea.

Por isso, “Vale Tudo 2025” importa bastante como estudo de caso, não pelo entretenimento em si, mas como prova de que a narrativa principal (o texto da novela) e as narrativas emergentes (releituras nas redes sociais) não competem entre elas. Pelo contrário, alimentam-se uma da outra. A TV entrega o capítulo; a internet produz as camadas mais profundas de retenção. Diante de um cenário tão inovador, a resposta para “quem matou Odete Roitman?” vem acompanhada de uma nova conquista: quem ajudou a escrever a história fomos todos nós. Isso pode ser convertido em dinheiro se fizer parte do pacote comercial dos donos do conteúdo — de maneira bastante estratégica. Não se trata de adaptação das cotas já existentes, como um remendo; é venda de uma narrativa “social content first”. Algo diferente na essência. E existe bastante verba no mercado publicitário esperando por essa abordagem.

Autor avatar
João Pedro Paes Leme

Empreendedor digital e Presidente do Play9 Content Group, um ecossistema criativo que integra conteúdo, influência e tecnologia, composto por empresas especializadas. Com mais de 30 anos de experiência na indústria da comunicação, 20 deles dedicados à Rede Globo, consolidou sua carreira em criação, gestão e distribuição de conteúdo multiplataforma. Eleito pela Bloomberg como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina em 2024, é também Top Voice no LinkedIn.