A Creator Economy e o poder das comunidades: por que o Brasil pode liderar essa transformação global?

Muito além de curtidas ou seguidores, o ativo mais valioso da nova economia digital é a capacidade de formar comunidades vivas, que transcendem a lógica da audiência e criam vínculos duradouros entre público, criadores e marcas.

João Pedro Paes Leme

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Vivemos um momento em que a lógica de comunicação de massa já não explica o mundo. Antes, poucos falavam e muitos escutavam. Hoje, qualquer pessoa pode ser polo de influência. Não se trata de um modismo, mas de uma mudança estrutural, que alguns chamam de Creator Economy e que costumo denominar também de A Era da Influência, inclusive título do livro que lançarei em março de 2026. Nesse contexto, marcas e empresas deixam de ser as únicas protagonistas da narrativa e passam a disputar atenção, confiança e tempo com milhares de criadores de conteúdo espalhados pelo mundo.

De acordo com o Influencer Marketing Hub, o mercado global da Creator Economy deve movimentar mais de US$ 480 bilhões até 2027. Para se ter uma ideia, esse número já rivaliza com a indústria cinematográfica e aproxima-se das cifras da publicidade tradicional. Nos Estados Unidos, plataformas como YouTube, TikTok e Twitch moldaram um novo ecossistema de carreiras. Criadores são tratados como startups: estruturam equipes, captam investimentos, lançam produtos próprios. Em países como a Coreia do Sul, onde a cultura digital se entrelaça com música, games e lifestyle, a economia de criadores já é política pública.

O Brasil como potência criativa

E onde entra o Brasil nessa história? Somos o segundo maior mercado do mundo em número de usuários ativos de redes sociais, perdendo apenas para a Índia. Mais do que isso: nossa capacidade de engajamento é única. O brasileiro não apenas consome, mas interage, comenta, cria memes, responde. E vale aqui um lembrete, óbvio porém necessário: qualquer comparação que tenha a China ou a Índia como parâmetros já torna o Brasil primeiro colocado porque é impossível – ou ao menos desleal – pensar em algo comparável com populações que estão beirando 1,5 bi de pessoas.

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Não por coincidência que nomes como Anitta ou Casimiro alcançaram dimensões globais. Eles são apenas a face mais visível de um ecossistema onde também brilham micro e nano influenciadores que, mesmo com públicos menores, geram impacto profundo. São invisíveis a olho, mas, na lupa das métricas digitais, compõem um ecossistema poderoso que conversa com comunidades, seja por afinidade com temas de nichos variados, seja por alguma conexão geográfica.

O erro mais comum, no entanto, é confundir audiência com comunidade. Audiência é fluxo: pessoas que passam, consomem um conteúdo e seguem em frente. Comunidade é destino: pessoas que permanecem, se reconhecem, interagem entre si.

E esse é o verdadeiro poder da Creator Economy: a formação de comunidades vivas.

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Em momentos de crise, uma audiência fluida e genérica pode desaparecer. Uma comunidade, ao contrário, se torna escudo e sustentação. É por isso que, cada vez mais, investidores, marcas e plataformas começam a medir não apenas o alcance, mas a densidade comunitária de um criador.

Do marketing de influência ao investimento em comunidade

A lógica de negócios também muda. Se antes bastava contratar um criador para postar sobre determinado produto, hoje a pergunta central é: como transformar essa relação em comunidade duradoura, que sobreviva ao algoritmo e ao tempo?

Isso envolve três movimentos fundamentais:

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  1. Soberania de canais: não depender apenas de plataformas, mas construir espaços proprietários (newsletters, grupos, aplicativos).
  2. Participação econômica: modelos de revenue share, produtos digitais, experiências exclusivas.
  3. Governança da narrativa: comunidades não são controladas, mas cuidadas. O papel do criador é mais próximo de um curador do que apenas de um porta-voz.

Contradições e desafios

É claro que esse modelo não está livre de tensões. A dependência de algoritmos continua sendo um risco. Questões como desinformação, discursos de ódio e concentração de poder em poucas plataformas também precisam de debate público.

Além disso, existe o risco da “autenticidade performática”: quando todos tentam parecer autênticos ao mesmo tempo, o público percebe o padrão e a confiança se dilui. É por isso que coerência no longo prazo se torna ainda mais relevante do que a autenticidade pontual.

Apesar de muitos desafios, o Brasil tem vantagens competitivas. Nossa cultura é de interação, improviso e criatividade coletiva. Transformamos conversas de bar em memes globais, transformamos transmissões de futebol em experiências multimídia, transformamos criadores em empreendedores de múltiplas frentes.

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Se conseguirmos estruturar esse talento em ecossistemas sustentáveis, com governança, métricas e visão de longo prazo, o país, que hoje sempre está no pódio em qualquer métrica ligada às mídias sociais, pode se tornar líder global da Creator Economy.

E para quem quiser fazer parte desse movimento, é importante entender que Era da Influência não tem a ver com quem fala mais alto, mas como vozes se organizam em comunidades que dão legitimidade, sustentação e poder real às narrativas.

Num mundo em que atenção é o ativo mais escasso, comunidade é o verdadeiro patrimônio. E o Brasil, com sua energia criativa única, tem tudo para ser protagonista dessa transformação global.

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João Pedro Paes Leme

Empreendedor digital e Presidente do Play9 Content Group, um ecossistema criativo que integra conteúdo, influência e tecnologia, composto por empresas especializadas. Com mais de 30 anos de experiência na indústria da comunicação, 20 deles dedicados à Rede Globo, consolidou sua carreira em criação, gestão e distribuição de conteúdo multiplataforma. Eleito pela Bloomberg como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina em 2024, é também Top Voice no LinkedIn.