O Economista e a Tesoureira

Os dados mudam. O mercado atrasa.
Por  Alexandre Aagesen
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Rafael é economista. Ele estuda muito, conhece todas as técnicas, faz todas as contas, planilhas e projeções. Dá seus palpites e, se estiver errado, revisa suas projeções. Principal métrica da sua carteira pessoal é % do CDI e liquidez. É ele que responde o FOCUS, mas ele não faz preço. Clara é tesoureira. Ela também estuda muito, conhece todas as técnicas, faz todas as contas e planilhas – as projeções ela pega com o João, na reunião de caixa pela manhã. Seus palpites estão no seu book, suas convicções são traduzidas em posição no mercado. Principal métrica da sua carteira é V@R e DV01. Ela faz o preço no mercado, e o FOCUS é bastante secundário para ela. Na sexta-feira passada, o Rafa revisou (de novo) sua projeção de PIB. Em dezembro ele tinha falado que o PIB ia crescer 1,5% no ano. Agora já está falando em 2,05%. A SELIC de 2024, ele falava que ia ficar em 9%, já está puxando para algo entre 9,50% e 9,75%. O motivo principal? Juros nos Estados Unidos (que já devolveu dos picos, mas as projeções não mudaram) e o fiscal brasileiro.

Do outro lado do aquário, a Clara está um pouco confusa. Ela sabe que o fiscal é problemático, claro. Ela conversa com o Rafael, ela lê o jornal, ela sabe que está esquisito. Mas ela olha para os dados e, mais uma vez, o governo conseguiu um superávit. Em janeiro colocaram a culpa foi dos precatórios de dezembro. Em fevereiro foi uma surpresa, um ponto fora da curva. Em março foi muito pequeno nem conta. Um quarto do ano já passou, com três surpresas positivas até agora, e o governo já acumula 90 bilhões de superávit. Ponto fora da curva, claro. A Clara pergunta para o Rafa, e ele confirma. Projeção mantida em déficit de -0,67% do PIB para 2024. Mesmo com PIB pra cima? A resposta é sim. Clara não sente firmeza, mas vida que segue.

Clara sabe que o Rafael está pessimista. Faz parte mesmo. E ontem teve muito motivo para piorar esse pessimismo. Newsflow ruim, curva abrindo 10 bps, dólar para cima, volatilidade implícita para cima. Mas a bolsa caiu só 0,03%. Puxa, a Clara lembra de um chefe que ela teve no começo da carreira, que dizia que “quando os fundamentos melhoram e seu papel não anda mesmo assim, vende que é bucha” (ele não usava o termo “bucha”, mas essa é uma coluna de família). Será que o contrário é verdadeiro também? Sei lá, bora que o mercado abriu.

Ficou com alguma dúvida ou comentário? Me manda um e-mail aqui.

Alexandre Aagesen Com mais de 16 anos de mercado financeiro, é CFA Charterholder, CAIA Charterholder, autor do livro "Formação para Bancários", professor convidado e Investor na XP Investimentos

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