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(Longer than) One Page: O Ano da Surpresa

Os que acompanham a coluna há algum tempo já conhecem a dinâmica: um texto mais longo e mais macro. Espero que gostem (13 minutos de leitura).
Por  Alexandre Aagesen -
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Risco é o que sobra depois que você (acha que) já pensou em tudo.

Duzentos anos antes de Cristo, a região ao redor do rio Amarelo (atual China) sofria com ataques e invasões dos povos do norte, vindos da Mongólia e da Manchúria. O imperador, Qin Shihang, ordenou a construção do que viria a ser, atualmente, a Muralha da China. Quinze séculos depois, os problemas permaneciam. A muralha, ainda inacabada, já era um obstáculo, mas haveria um homem que unificaria as tribos nômades e construiria um dos maiores impérios que a Ásia (e o mundo) já viram: Gengis Khan. Suas conquistas o levariam da China e Coreia até à gelada Rússia, às fronteiras da Índia, à Europa Oriental e à Península Arábica, empurrando à sua frente outros povos em fuga. Duzentos anos de acontecimentos pouco prováveis depois, Constantinopla cai na mão dos Otomanos e, com isso, o mundo ocidental cristão ficaria refém do monopólio aos produtos “das Índias”… a menos que uma nova rota pudesse ser encontrada. O português Vasco, o vaidoso Cristóvão e, finalmente, o grandalhão Pedro são frutos desta busca. 523 anos depois de Pedro sair de Portugal e acabar chegando na “terra dos papagaios”, cá estamos. Numa inimaginável sequência de dominós, daquelas que mudam o mundo, a simples construção de uma parede contra uma tribo nômade do outro lado do mundo trouxe você até aqui, lendo essa carta de fechamento do ano num pedaço de terra chamado Brasil, escrito numa língua europeia, chamada de português. Surpresa.

Se eu te falasse que 2023 ia ser tipo os anos 1970, você ia imaginar calças boca de sino, festivais de música e muito “amor, entorpecentes e rock ‘n roll”. Mas a realidade é a parte que você não vê em “That’s 70’s Show”: inflação, choque do petróleo e guerra indireta entre superpotências. Sob qualquer holofote, não há dúvidas de que 2023 foi desafiador. Normalmente eu começo a escrever esta coluna pensando nos temas que vou abordar. Esta aqui foi diferente. Comecei pelo começo. E por cima. O tema central costurou esse ano todo: a Surpresa.

Primeiro Semestre

Risco é o que sobra depois que você (acha que) já pensou em tudo.

Ainda em novembro de 2022, algumas falas do Lula, o Haddad como ministro da Fazenda (aqui temos uma surpresa, mas daqui a pouco falamos disso) e a PEC de transição estressaram juros e expectativas futuras. Na virada do ano, a Selic era 13,75%, o dólar estava na casa dos R$ 5,20 e os juros longos estavam acima de 13% ao ano. As expectativas não eram de melhora iminente: segundo o último Boletim Focus de 2022, o mercado esperava um dólar entre R$ 5,25 e R$ 5,30 para os próximos três anos e inflação de 5,31% em 2023. Muito diferente da realidade de IPCA por volta de 4,50%, dólar abaixo de R$ 4,90, Selic de 11,75% (e caindo) e juros de 10 anos abaixo de 10,50% que estamos vendo agora (330 bps abaixo dos piores momentos do ano).

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Mas começa o ano e… SURPRESA! Fato relevante de Americanas traz volatilidade e aversão a risco para o mercado. Ainda teríamos outras ao longo dos meses: Tok&Stok, Marisa, Bombril, Oi… outras mais ou menos famosas e, finalmente, Light. O Brasil (e o brasileiro) fez um MBA forçado em risco de crédito – e custou caro. Quem tinha posição diretamente nas empresas, sofreu. Quem não tinha, aprendeu o que significa “abertura de spreads de crédito”. Aprendemos termos como Credit Crunch, vasos comunicantes, acionista de referência, Coco Bonds, Covenants e Waiver. A percepção de risco de crédito foi diminuindo depois de abril, mas foi uma surpresa constante (se é que existe isso) ao longo do ano inteiro.

Nos dois primeiros meses do ano, nosso ministro da Fazenda, Luiz Inácio “Lula” da Silva (sim, o Haddad só daria as caras de fato mais a frente), tomou as rédeas na luta contra o Banco Central e, particularmente, contra Roberto Campos Neto e sua taxa de juros “genocida”. Esse embate que mirava reduzir os juros só o fez aumentar. Fato é que o Banco Central mal-e-mal controla a Selic. Os juros que realmente impactam a economia estão na B3 e subiram até 13,80% antes dos idos de março (se você pegou essa referência romana, passou de ano).

Em março, Haddad começa a assumir de fato a cadeira e… SURPRESA! Até que esse chapéu de interlocutor com o mercado lhe cai bem. Se em dezembro de 2022 você falasse pra Faria Lima que o Haddad nem ia entrar no governo, risk-on. Se em dezembro de 2023 você falar que ele vai sair, fujam para as colinas. Mas ele apresenta o “Novo Arcabouço Fiscal”, nome chique para (SURPRESA!) “Temer+2,5%”. O malvado Teto de Gastos do Ex agora tinha um sótão (mas era um sótão apertadinho).

Nos EUA, curva de juros invertida, Fed Fund Rates em ascensão, PMIs recessivos, Fed reduzindo balanço. “Nossa, agora só falta alguém quebrar (rindo de nervoso)” … SURPRESA! Quebra, e não é qualquer um. É um banco. Um não: três! Caos na terra, recessão, estamos em 2008, “Lehman Brothers” volta a ser pesquisado no Google. Só que não. SURPRESA! S&P reverte tendência e sobe 20% nos próximos 140 dias. E a União dos Bancos da Suíça fica um pouco mais unida.

Agora era festa. Esqueçam o medo do começo do ano. É bolsa pra cima, juros pra baixo, inflação controlada, CMN confirma a meta, S&P melhora a perspectiva de crédito do Brasil (iria subir a nota em si só em dezembro), Fitch se antecipa, e de fato, sobe a nota de crédito (na verdade, Fitch foi em julho, mas ok)! Fica claro que vai ter corte de juros e o mercado se antecipa. Sem surpresas. TODO MUNDO ganhou dinheiro nesse trimestre. Bem, menos os Multimercados e o investidor de Vale.

Agora vai! Soft-landing garantido, FOMC pula uma reunião, Brasil virando Dinamarca, RCN e Haddad são melhores amigos, Lula fiscalista, Gleisi sumida do Twitter, café quentinho e ninguém suado. Sem surpresas, certo? Certo?

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Segundo Semestre

Risco é o que sobra depois que você (acha que) já pensou em tudo.

Ao longo do primeiro semestre, a gente acompanhava a política monetária nos EUA. Juros curtos subiam sem parar, aumentando o custo de capital, mas nada na parte longa. A partir de julho, a gente começa a olhar mais pra frente. Dúvidas em relação à qualidade institucional e orçamentária dos EUA levam a Fitch (a mesma que tinha acabado de subir o rating do Brasil) a reduzir o rating do “livre de risco” do mundo para AA+. Surpresa! Um fiscal frouxo, um Fed reduzindo balanço, fluxo vendedor de títulos de todos os lados e algumas (muitas) apostas especulativas levam os juros de 10 anos dos EUA para a lua.

Se o livre de risco agora tem risco e chega a valer 4,99% no dia 19 de outubro, o que se dirá desse seu investimentozinho arriscado num “paiseco” de terceiro mundo? Julho, agosto, setembro e outubro foram completamente monotemáticos. Completamente! EUA, Brasil, Tailândia, tanto faz: o mundo só falava da “alta das Treasuries de 10 anos”. Que chato! Esqueçam o micro de cada país. Do dia 19 de outubro até hoje, a gente continua, mas agora é para o outro lado. Só se falou de Treasury. E Treasury. E Treasury. Ah, teve um pouco de Treasury também. Sabe o rali de 12.5% de novembro? Treasury. Sabe quando o COPOM cortou 50 bps em dezembro e a bolsa deu mais um salto e bateu seu recorde de alta? Esquece o COPOM, Treasury, já falei. BRICS abriu a porteira pra dobrar de tamanho? Treasury. Fluminense ganhando a Libertadores? Cara, provavelmente dá pra botar a culpa disso aí na Treasury também, sei lá.

Houve ainda outras surpresas que o ano nos reservava. Do lado geopolítico, tivemos Prigozhin, Hamas, Hutis iemenitas, (mais um) golpe de estado no Sudão, Venezuela/Guiana, Armênia e Azerbaijão. Tivemos até o Putin chamando a guerra na Ucrânia de guerra. Essa eu fiquei surpreso mesmo. Do lado de pleitos, tivemos a Venezuela votando por anexar a Guiana (igual os russos votando para anexar partes da Ucrânia no ano passado), Chilenos recusando (de novo) a nova constituição e o Egito reelegendo o ditad… digo, o presidente Sisi.

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Para 2024, várias das preocupações de 2023 devem permanecer. O cabo de guerra entre recessão e inflação nos EUA ainda não acabou. Vamos ter eleições na Rússia, EUA e Taiwan. Todas muito apertadas. Na Rússia, por exemplo, os dois mais bem cotados para assumir a presidência, o Vladimir e o Putin, disputam voto a voto. Os outros candidatos estão muito atrás: atrás das grades ou atrás de outro lugar pra viver (isso os que tiveram permissão para viver, claro). Em Taiwan, em março, empate técnico entre os dois primeiros: o vice da presidente atual (pró-Ocidente) versus o líder da oposição (pró-China). Potencialmente problemático. EUA é só no fim do ano, e vamos falar muito disso ainda.

A tão esperada convergência entre emergentes e desenvolvidos, que a gente sempre ouviu, começou em 2022 e deve continuar em 2024 – mas não no sentido que gostaríamos. Instituições mais fracas, déficits fiscais, juros e inflação não são mais exclusividade do sul global. Surpresa! E se 2023 foi o ano da volta dos emergentes, 2024 promete continuar. Principalmente se seu sobrenome for Modi ou bin Salman. A Índia criou um corpo no cenário internacional (olha só) surpreendente. O – agora país mais populoso do mundo – senta confortavelmente na mesa dos adultos em qualquer evento. O mesmo vale para a Arábia Saudita. A Ásia é cada vez mais incontornável no mundo.

E agora zera o cronometro. O ano começa de novo e, de novo, vamos ser surpreendidos. Afinal, risco é o que sobra depois que você (acha que) já pensou em tudo. “Nós só podemos ver um pouco do futuro. Mas é o suficiente para saber que há muito a ser feito ainda” (Alan Turing). E vamos seguir fazendo o que pudermos, conforme pudermos. O ano que começa promete uma série de surpresas, mas que graça teria se não fosse assim? Se 2023 foi um ano ímpar no mundo, que em 2024 possamos estar mais ao par do que acontece. Podem contar comigo para continuar tentando desvendar (foco no “tentando”) as surpresas do mercado.

O grande Suassuna disse: “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Ok, Suassuna, seguirei sendo esse tolo chato esperançoso mais um aninho então (com foco no “chato”, claro).

Ficou com alguma dúvida ou comentário? Me manda um e-mail aqui.

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Alexandre Aagesen Com mais de 15 anos de mercado financeiro, é CFA Charterholder, autor do livro "Formação para Bancários", host do podcast "Mercado Aberto" e Investor na XP Investimentos

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