1984

Por  Alexandre Aagesen
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“O que tem no quarto 101?” A expressão do rosto de O’Brien não de modificou. Respondeu secamente: “Você sabe o que tem no quarto 101, Winston. Todo mundo sabe o que tem no quarto 101”.

Assim escreveu George, em 1948, sobre um futuro distante que já passou há exatos 40 anos, e mesmo assim segue tão atual. O que tem no meu quarto 101, você não vai saber. Não hoje. Mas o que tem no quarto 101 do mercado, é um COPOM dividido, votando por 25 bps. O problema não é a divisão em si, nem a decisão per se. O problema é o conjunto. Cortar 25 bps com todos os indicados pelo governo atual votando por 50, e sendo voto vencidos? Quarto 101. Você conhece a dinâmica. Juros para cima, bolsa pra baixo, dólar na lua. “Ele pensou com uma espécie de espanto a inutilidade biológica da dor e do medo, a traição do corpo humano que sempre congela em inércia exatamente no momento em que um esforço especial é necessário”. O problema é: se os quatro indicados pelo Lula estão mais dovish, o que acontecerá com os juros a partir do ano que vem, quando forem maioria? E o que acontece com a inflação depois – principalmente com mais impulso fiscal? Tombini, segunda edição? Bem-vindos ao quarto 101.

Ainda essa semana, do outro lado do mundo, a trama de “1984”, de Orwell continua. Vladimir Putin, nosso grande irmão, tomou posse. Talvez você não tenha assistido, não é notícia depois de já ter acontecido tantas vezes, mas ele tomou. Em toda posse que se preze, temos discursos, claro. O dele, dessa vez, foi razoavelmente curto, e particularmente otimista. Guerra é paz. Steven Seagal estava na plateia – sim, ele mesmo; Macron estava destrucando (se é que isso existe), depois de meses de garganta; diplomatas europeus compareceram em peso; e na sequência, voltamos a falar de guerra nuclear por ali.

Se você acha que acabou, está muito enganado. Hoje temos IPCA. Como diria Belchior, “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Será? A hora que lá fora começa a dar sinais melhores, aqui temos que ter aumento de ruído, né? “Ah, que mal-entendido cruel e desnecessário! Ah, que obstinado autoexílio do peito amoroso! Duas lagrimas recendendo a gim correram-lhe pelas laterais do nariz. Mas estava tudo bem, estava tudo certo, a batalha chegara ao fim. Ele conquistara a vitória sobre si mesmo. Winston amava o Grande Irmão”.

Ficou com alguma dúvida ou comentário? Me manda um e-mail aqui.

Alexandre Aagesen Com mais de 16 anos de mercado financeiro, é CFA Charterholder, CAIA Charterholder, autor do livro "Formação para Bancários", professor convidado e Investor na XP Investimentos

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