O “pesado” segmento de veículos pesados

Dentro do "caos automotivo", nada pode ser tão ruim que não possa piorar!

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Recentemente, o boletim Focus do BC nos brindou com as suas novas (???) perspectivas para a economia brasileira deste ano e para o ano que vem.

E a grande conclusão foi que aquela pequena luz que víamos no final do túnel, nada mais era do que o trem vindo em nossa direção!!

Ou seja, nada está tão ruim que não possa piorar!!

Voltando para o nosso setor – o automotivo – a gente bate muito aqui sobre a questão do “caos automotivo”. Onde as vendas de automóveis no primeiro semestre despencaram em mais de 20%. E já apontamos (aqui) que o setor só deve se recuperar lá para 2020 ou 2021.

Sim… as vendas de carros estão um “caos”, mas, como já disse: “nada está tão ruim que não possa piorar”.

Neste contexto, vamos falar um pouco sobre o “pesado” segmento de veículos pesados. O grande ponto aqui é que este segmento é reflexo mais que imediato do que acontece com a situação econômica do país.

Lembremos que o nosso principal modal de transporte de cargas é o rodoviário! E, aqui, qualquer reflexo positivo ou negativo na conjuntura econômica irá refletir nas vendas.

A economia irá retrair-se algo próximo a 2%. As vendas de carros estão com retração de 20%. E as de veículos pesados (caminhões e implementos rodoviários), como estão?

Retração de 20% é para os fracos! O segmento de veículos pesados está com queda superior a 40%!

Com quase 83,3 mil veículos vendidos neste primeiro semestre, estes dois segmentos registraram queda de 41,2% sobre o primeiro semestre do ano passado, quando foram vendidos mais de 141,5 mil veículos.

Considerando o recorde histórico do setor, que foi o ano de 2011 (174 mil veículos), a queda nas vendas é superior a 52%.

Basicamente este setor regrediu uma década em volume de vendas, como mostra o gráfico abaixo:

 

E porquê fazemos uma analogia sobre o “pesado” segmento de veículos pesados? É simples! Numa economia em recessão, qual é a primeira coisa que se faz? Cortar o investimento!

É natural! É a reação básica de qualquer empresário. Se eu trabalho no ramo de transporte de cargas e não vislumbro uma melhora no quadro econômico nos próximos ciclos, vou deixar de renovar a minha frota e fazer o antigo rodar mais. Isso serve tanto para o caminhão quanto para o implemento.

E o setor de caminhões e implementos, infelizmente, é o primeiro a sentir os reflexos de uma crise (eles registraram queda de dois dígitos no ano passado) e, por serem “pesados”, serão um dos últimos a “se levantarem” e a mostrar alguma recuperação.

Se projetamos uma recuperação para o setor de autos para 2020, pode-se dizer (sem medo de ser feliz) que o setor de caminhões demorará de um a dois anos a mais para voltar à mesma posição de recorde de vendas.

A grande perda para a sociedade, com a derrocada do setor de caminhões, é a perda de competitividade ou aumento de custos. O comprador desses tipos de veículos são “planilheiros”. A compra é motivada pelo retorno que  terá com o veículo. Com a forte retração, ligada ao corte de investimentos, não estamos tendo uma renovação da frota de veículos. Ou seja, estamos com caminhões antigos, ultrapassados tecnologicamente e com custos elevados de transporte (consomem mais e transportam menos carga) operando no Brasil. A idade média da frota de caminhões é de 10 anos. Idade média!!! Você ainda vê, por aí, caminhões da década de 80 e 90 em circulação.

Ou seja, aquilo que todos pleiteiam – a “redução do custo braziu” ainda vai demorar um pouco para acontecer.

O lado interessante – principalmente no segmento de caminhões – é que, assim como em automóveis, existem marcas que estão indo bem e outras não. Marcas de caminhões, que possuem foco em uma linha de produtos pesados e extrapesados (veículos com Capacidade Máxima de Tração – CMT – superior a 40 toneladas) são os que estão sofrendo mais. É o caso da Scania, com -63,5% em vendas neste primeiro semestre, e nem mesmo o Jean Claude Van Damme conseguiu segurar as vendas da Volvo: -62,8%.

Raphael Galante

Raphael Galante é economista, trabalha no setor automotivo há mais de 20 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.