A extinção do arbitrador temporal: por que (quase) não há capital de longo prazo no Brasil

A tranquilidade financeira é produzida por uma única variável: o tempo

Lucas Collazo

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Caros(as) leitores(as),

Eu era muito jovem quando ingressei no mercado financeiro, tão sonhada realização de uma vocação adormecida desde 2013. Ansioso para viver logo essa realização, meu pai direcionou suas palavras a mim e me chamou a atenção: “preciso te dizer algo muito importante”, disse ele, com tom mais firme.

“Todas as vezes que ler o nome do cliente, apague-o e escreva em cima o meu. Cuide do dinheiro de todos eles como se fosse o meu.”

Mais palavras não precisaram ser pronunciadas. Num soar de missão dada e compreendida, fui capaz de responder apenas um singelo “pode deixar, pai”.

Os anos se passam, mas fico assustado como essa simples frase numa noite paulistana, dentro de casa, em meio à vibração da notícia recém-chegada de um “sim” num processo seletivo que não tinha sido concebido em todas as tentativas regressas, não perde um só grama de seu peso. Ela apenas se transforma, se reinventa, se coloca, mas é incapaz de deformar seu valor.

Eu tive o privilégio de executar milhares, talvez milhões de ligações, para as mais diversas famílias, pessoas, em estágios diferentes de suas vidas, para as aconselhar financeiramente – ou melhor, ser um canal seguro para tratar suas dores. Depois eu migrei para a “cozinha”, o lugar que se pesquisa para formar uma cabeça – e ela quem vai definir onde se é melhor alocar o capital, pelo desenhar do entendimento de um cenário (e suas chances probabilísticas).

Por fim, cá estou, próximo do respeitado gigante, o “tubarão” em meio as “sardinhas”: os investidores institucionais. Fundações, fundos de pensão, endowments, single family offices, multi-family offices, fund of funds, private banks, wealth managers.

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E o aprendizado que quero compartilhar neste dia, neste texto? Bom, ele não será muito animador. 

A espécie mais rara dos investidores se chama “arbitrador temporal”. O que torna o capital de longo prazo, ao menos no Brasil, escasso, marginalmente inexistente.

Eu sei onde está a culpa, ou melhor, sei onde ela não existe: na educação. Somos uma sociedade pouco educada financeiramente, algo estrutural, um tão falado “buraco mais embaixo”.

O dialeto financeiro é esquecido pelos meus conterrâneos, poucos são aqueles que sabem ler o significado de uma definição de taxa de juros, o impacto da credibilidade nos preços, ou que ignore tudo isso, mas tenha consciência prática do que faz em sua realidade contábil. Na média, não é uma prioridade.

Essa acomodação sempre foi realizada sob a sombra de uma taxa de juros historicamente anormal, dosagem usada para tratar justamente as anomalias da pátria amada. Paulistas, cariocas, gaúchos, goianos, brasileiros e brasileiras, mas também rentistas.

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“Oras, se os juros mais elevados trazem os valores presentes dos ativos para baixo, geram um ‘desconto’, por que não aproveitar para sair as compras?”

O americano que aproveita esses saldos sempre para encher ainda mais seu carrinho com estes papelotes que podem valer muito dinheiro. Aqui no Brasil, é justamente nessa hora que todos correm para a renda fixa. Somos diametralmente opostos.

E para explicar isso para um investidor “gringo”…

O rentismo faz você priorizar o agora em detrimento de qualquer outra janela de tempo possível. Veste um cabresto, nada mais importa: quero meu dinheiro agora, quero saber o retorno ao mês, tudo é muito tempo – às vezes eu acho que a ansiedade assola cada dia mais a sociedade moderna.

Viciados no próximo estímulo, no próximo “pingo”, nós nos perdemos na brincadeira de nos tornarmos grandes investidores. A tranquilidade financeira é produzida por uma única variável: temporal.

 Os juros compostos fazem um fenômeno de bola-de-neve e catapultam seu patrimônio para outra dimensão com o passar de um punhado de anos. Assim como os carvalhos crescem, se tornam fortes e maduros, por meio das mãos do ser humano são manipulados em barris, guardam os vinhos e os transformam por mais um punhado de anos.

Nada relevante, sólido, incontestável é construído em dias. A paciência e o silêncio são mais barulhentos no longo prazo.

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Mas parece que todos nós, alocadores ou não, afinal, se o dinheiro vem de famílias, existe investidor institucional de fato? Ou o tubarão é um conto, uma fábula, e no final sempre fomos um grande cardume de sardinhas, preocupadas em se manter juntas, cair e subir da mesma forma?

Todos esses fatores se tornam fibras, tecem um colchão, em que aquele que não cai na falácia da liquidez é capaz de capturar. O doce prêmio de dormir tranquilo.

Nessa corrida da sua rotina, ao esbarrar num colega dos “velhos tempos”, que vai mudar de país pelo trabalho, e que precisa vender seu apartamento rapidamente, toma a decisão de ofertá-lo por R$ 750 mil, mas seu valor estimado é de R$ 1 milhão, uma pausa foi feita e você arrematou o imóvel, ainda celebrou o bom negócio. Seria capaz de exportar essa mentalidade para o seu patrimônio líquido?

Entender a importância da renda fixa, da aplicação do curto prazo, aquecimento do cobertor de segurança. Se esfriar fora dele e ser calculista, entender que o descasamento de preço e valor gera prêmio, ele está na mesa e você pode pegar.

O mundo não vai acabar, mas os descontos sim. Não os perca, atravesse essa ponte, realize como arbitrador temporal finalmente – seria um motivo de orgulho do “seu Ricardo”, da frase simples, mas igualmente pesada.

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Lucas Collazo

Host e conselheiro no fundo do Stock Pickers | Especialista em alocação e fundos de investimento no InfoMoney