Quando todos vivermos de renda, quem erguerá o futuro?

O Brasil se financeirizou. Financeirizar é um bom negócio quando o país já está construído. O nosso ainda não está

Bruno Sindona

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Imagem gerada com auxílio de IA/Amanda Garcia
Imagem gerada com auxílio de IA/Amanda Garcia

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Os desafios econômicos brasileiros são vastos — e as análises, infinitas. Especialistas surgem com críticas e soluções aos montes, inclusive este que vos fala. Equilíbrio fiscal, arcabouço fiscal, responsabilidade fiscal: expressões que ocupam manchetes, dominam as redes sociais, pautam reuniões e conversas de café. Mas toda essa discussão, por mais técnica que pareça, rapidamente deságua numa análise política, curta e muitas vezes apaixonada.

Hoje comemoramos o agro, o fenômeno que representa quase 50% da balança comercial e mais de 20% do PIB brasileiro (CEPEA/USP, 2024; MAPA, 2024). Mas, ao conviver com esses números, esquecemos que o agro do Brasil é fruto das navegações portuguesas, das entradas e bandeiras do Brasil colônia, dos programas de integração nacional do último século, do imperial Banco do Brasil, da criação da EMBRAPA e de tantas gerações de famílias brasileiras que desbravaram o solo, trabalhando duro e muito longe do glamour de hoje.

Mas quais são os elos entre as caravelas lusitanas e nossos recordes de safra? Risco, investimento e tempo.

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Esses mesmos elos explicam a criação da Embraer, da Petrobras, de Itaipu e de toda a matriz energética renovável que hoje celebramos. Foram esses fatores que impulsionaram feitos improváveis, como o 14 Bis, o Copacabana Palace, o gasoduto Brasil-Bolívia e a ponte Rio-Niterói. Ou ainda, que permitiram ao Brasil operar a maior composição ferroviária de minério do mundo.

Monteiro Lobato e o petróleo, Ozires Silva e a indústria aeronáutica, Juscelino Kubitschek e Brasília. Exemplos tão imensos que intimidam a nossa geração. Não conseguimos encará-los de frente, pois estamos olhando de baixo e para baixo. Hoje, discutimos — cada um no seu círculo e nas suas proporções — quanto rende X reais na renda fixa por ano.

O Brasil se financeirizou. Financeirizar é um bom negócio quando o país já está construído. O nosso ainda não está. Temos mais de 49 milhões de pessoas sem coleta adequada de esgoto (IBGE, 2022) e cerca de 33 milhões sem acesso regular à água potável, a incapacidade de integrar o Brasil ao Pacífico e exportar para a Ásia, metrópoles que não se desenvolvem por estarem congestionadas e uma economia que continua exportando ferro e importando aço.

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Sofremos uma grande ruptura econômica e política na última década e, com ela, foi-se o nosso sonho de Brasil. No ano passado, 21 empresas fecharam o capital na bolsa de valores, enquanto nenhuma abertura relevante ocorreu (B3, 2024). O BNDES, que já injetou na economia 5% do PIB ao ano, hoje injeta pouco mais de 1% (BNDES, 2023). Os CRIs, que poderiam financiar um possível Copacabana Palace 2, só o fariam se o prédio já estivesse pronto e alugado. Os fundos de pensão, que outrora financiaram projetos greenfield e boa parte da infraestrutura nacional — muitos com sucesso —, hoje não podem mais assumir esse risco.

O que falta ao Brasil não é capital ou poupança; é direção e intenção. A renda fixa floresce sobre um país inacabado, e a liquidez repousa onde ainda faltam saneamento, ferrovias, portos, moradias e parques industriais. O desafio, portanto, é menos técnico do que filosófico: quem vai construir o Brasil quando todos estiverem ocupados cultivando sua renda?

A exemplo do FGTS, que hoje é o quase único indutor de construção de moradia popular no Brasil, sempre que possível ele é alvo de saques e toda sorte de projetos são constantemente apresentados a fim de eliminá-lo. No passado recente houve inclusive uma batalha no STF para definir sua rentabilidade, alegando-se que era injusto com o trabalhador. Ora, sendo ele a única fonte financiadora com juros adequados à moradia no país, o que é mais injusto: o contribuinte ser um pouco menos remunerado ou nunca ter acesso à casa própria?

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O uso do FGTS é a prova de que se pode fazer indução de investimento com seriedade e eficácia, um modelo onde o poder público age induzindo o investimento e o crédito para a população e as empresas privadas desenvolvem e contratam os projetos. O mundo está repleto de modelos vencedores assim. A Coreia do Sul, por exemplo, tem fundos municipais estruturais que financiam tecnologia e mobilidade urbana; países árabes, com IDH e economias menores que a nossa, criaram fundos soberanos focados em desenvolvimento. Além disso, fundos de pensão públicos e privados lideram a infraestrutura e a inovação em diversas nações.

O Brasil pode e deve mais. Reunimos inúmeras potencialidades essenciais ao mundo do futuro. Olhar com grandeza para nossas mazelas de país ainda subdesenvolvido é o presente de um passado que negligenciamos, mas nosso desafio nem está aí. O futuro chegou: a IA, o hidrogênio verde, a segurança alimentar global — isso sem contar o potencial inexplorado da nossa biodiversidade, que representa um novo caminho das Índias para o mundo contemporâneo. Precisamos urgentemente voltar a reverenciar quem cria e crê, quem investe no incerto porque é o certo a se fazer. A nação vem antes dos governos. Ninguém se lembra quem governava o povo holandês quando criaram a Companhia das Índias Orientais e a mais moderna forma de investimento até então, mas todos nós nos beneficiamos até hoje desses avanços.

O futuro não será construído por quem apenas administra o presente, mas por quem ousa imaginar o que ainda não existe.

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Bruno Sindona

Bruno Sindona é empreendedor no setor imobiliário e investidor em desenvolvimento urbano. Atuou em projetos habitacionais de impacto social e escreve sobre economia, cidades e infraestrutura. Além de ser Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável do Governo do Brasil.