Se a empresa cortar sua IA amanhã, você consegue provar que ela vale o que custa?

A Accenture limitou a US$ 29 o gasto de cada funcionário com IA. Cinco perguntas ajudam a sua empresa a decidir o próprio limite com menos dor, e quatro passos protegem quem não decide o orçamento

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Alguns funcionários da Accenture gastavam até US$ 1.000 por mês com o Claude, a IA da Anthropic. Desde 1º de outubro, a empresa paga no máximo US$ 29 por pessoa, como o InfoMoney noticiou.

O que passar disso agora sai do orçamento de um projeto ou de uma equipe. Ou seja, quem usava muito passou a pedir licença para continuar usando.

Oito meses antes, a mesma empresa tinha avisado, segundo o Financial Times, que gerentes seniores e diretores associados só seriam promovidos se usassem IA com regularidade, medida pelo login semanal. Mediram quem entrava na ferramenta, e não o que saía dela.

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O teto tem lógica. Num áudio interno revelado em junho pela 404 Media, Justice Kwak, líder de estratégia de agentes de IA da Accenture, contou que boa parte do consumo vinha de gente usando IA para transformar PDF em apresentação, mais do que dos engenheiros.

O que doeu foi o caminho, pelo menos o que ficou visível. Primeiro a empresa cobrou uso sem dizer qual uso valia. Depois cortou pelo orçamento, com o mesmo limite para quem usava bem e para quem desperdiçava.

Pense em quem se acostumou a entregar tudo à IA sem saber quanto cada pedido custava. De uma semana para a outra, essa pessoa ficou sem ter como mostrar se o próprio trabalho valia US$ 29 ou US$ 1.000.

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Ser grande não garante método

Acompanho tecnologia há tempo suficiente para ter visto empresa grande errar bastante, e caro.

Em 2007, um dos maiores bancos do país abriu uma ilha no Second Life, a febre de mundo virtual da época. Em 2021, o Facebook virou Meta para apostar no metaverso, e em março deste ano a área responsável pela aposta já acumulava cerca de US$ 80 bilhões de prejuízo. A Disney fechou a divisão de metaverso, e a Starbucks desistiu de um programa de fidelidade com NFT.

Olhando de fora, a ordem se repete: entrar porque todo mundo está entrando e só depois descobrir o que aquilo precisava entregar.

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Com IA existe uma diferença: ela já mudou o trabalho de quase todas as áreas e vai ficar, coisa que o metaverso nunca esteve perto de fazer. Por isso o erro de método sai mais caro. Ninguém vai desistir da ferramenta, então o desperdício vira custo fixo.

Empresa brasileira também tropeça nisso. Numa pesquisa da Alina publicada pelo InfoMoney, só uma em cada quatro empresas mede o uso de IA, embora quase todas digam que querem ampliá-lo. É como aumentar o limite do cartão sem olhar a fatura.

Cinco perguntas antes de qualquer cota

Não precisa seguir esta ordem, mas vale ter as cinco respostas antes de o teto aparecer.

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Letramento. As pessoas sabem escolher a ferramenta e o modelo certos para cada tarefa? Transformar PDF em apresentação não pede o modelo mais caro do catálogo. Quem aprende isso gasta menos, sem que ninguém precise cortar nada.

Mensuração. Você mede uso ou resultado? Login, quantidade de comandos e ranking de consumo mostram que tem gente usando. Para saber se valeu a pena, compare quanto tempo a tarefa levava antes e quanto leva agora, contando o tempo de revisar o que a IA entregou.

Muita empresa sente que ficou mais produtiva e não enxerga isso no resultado, como mostrou uma pesquisa da McKinsey citada pelo InfoMoney: o ganho fica na tarefa e não chega ao negócio.

Controle de custo. Cada pessoa sabe quanto o próprio uso custa? Mostrar o gasto, avisar quando o ritmo passa do combinado e só então pedir aprovação é muito mais fácil de aceitar do que receber o teto por e-mail.

Mapeamento de processo. Onde a IA entra no fluxo de trabalho, e quem responde por aquela etapa? Tarefa sem dono vira consumo sem fim, porque ninguém sabe dizer quando ela acabou.

Dados de qualidade. A IA trabalha com os dados da sua empresa ou só com o que achou na internet? Sem dado próprio, organizado e confiável, ela entrega rápido e genérico. E resposta genérica paga a preço de modelo caro é justamente o desperdício que o teto tenta conter.

Se você não decide o orçamento

Você não precisa esperar a empresa resolver tudo isso. Dá para se preparar agora:

  1. Escolha três tarefas em que você usa IA e anote quanto tempo elas levavam antes e quanto levam hoje, contando a revisão.
  2. Descubra quanto custa o seu uso, no painel da ferramenta ou perguntando à TI. Se ninguém souber responder, você já tem um bom assunto para levar ao seu gestor.
  3. Teste a tarefa mais simples num modelo mais barato e veja se o resultado se sustenta.
  4. Guarde esses números e atualize todo mês.

Quando o limite chegar, é com esses números que você convence alguém a abrir uma exceção.

A Accenture tem tamanho para corrigir a rota depois de oito meses. A maioria das empresas brasileiras não tem esse fôlego para gastar.


Edney "InterNey" Souza é professor no IBGC, Insper e ESPM. Atua também como conselheiro consultivo especializado em tecnologia e inovação, treinamentos e palestras sobre IA e dados para empresas. Escreve como colunista no InfoMoney.