Economia em uma única lição

Economia Numa Única Lição”, com um título ousado e belicoso, faz jus a uma análise simples e direta das principais falácias econômicas que assombravam o mundo em 1946, mas que, infelizmente, permanecem palpáveis nos dias atuais.
Por  IFL - Instituto de Formação de Líderes -
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Natália Vasconcellos*

Henry Hazlitt (28 de novembro de 1894 – 8 de julho de 1993) foi um economista e jornalista americano, autor de 18 livros sobre economia e negócios. Sua obra Economia numa única lição tem um título ousado, porém, seu conteúdo faz jus à ousadia.

Ele faz uma análise simples e direta sobre as principais falácias econômicas que permeavam a sua época, expondo a forma pela qual o processo de inflação monetária se difundia. Sua primeira versão foi escrita em 1946 e atualizada em 1979. No entanto, suas lições permanecem (infelizmente) atuais.

Na primeira lição, Hazlitt aborda como a beleza da economia não está apenas em considerar os efeitos imediatos de qualquer ato ou política, mas também os mais remotos, descobrindo o impacto de uma política sobre todos os grupos sociais. Segundo ele, isso diferencia “o joio do trigo”, os bons dos maus economistas.

O primeiro conceito do livro é: quanto maior a quantidade de moeda emitida, mais será a perda de valor de uma determinada unidade monetária, a qual pode ser medida pelo aumento do preço das mercadorias, ou seja, INFLAÇÃO. Bem, não é exatamente isso que vivemos no presente momento no Brasil e no mundo?

A pandemia pelo COVID-19 instaurou a crise sanitária em março de 2020, a qual foi sucedida por uma crise econômica mundial que se assemelha às registradas nos períodos de pós-guerra em 1918 e 1945, com aumento significativo do preço das mercadorias após períodos de grande emissão de moeda.

Aqui não se trata exclusivamente de emitir moeda, mas também de fomentar a expansão monetária que ocorre, por exemplo, por meio da compra de títulos públicos, queda taxa básica de juros (SELIC) e empréstimo facilitado (em outras palavras, crédito barato). A impressão de moeda propriamente dita costuma ser o último recurso nesses casos, haja vista as experiências anteriores como a grande desvalorização do real que ocorreu na década de 1980 (inflação beirava os 80%) e a grande inflação que inundou a Alemanha no período pós-guerra em 1918 (taxa de inflação diária de 21%).

Infelizmente, a maior parte das pessoas tem o hábito de pensar em sua riqueza em termos de quantidade de moeda, ao passo que o correto é pensar em termos de bens e poder de compra. Em 1918, na tentativa de reduzir a dívida pública, houve grande impressão de moeda (marco) na Alemanha. Em 1923, os preços de produtos do supermercado duplicavam a cada três dias, e as pessoas estocavam produtos essenciais nos porões de suas casas. Ou seja, havia mais dinheiro no mercado, mas o poder aquisitivo fora perdido.

Hazlitt também comenta como os gastos governamentais desenfreados contribuem para o aumento da tributação, ou seja, dos impostos, que termina onerando os contribuintes e acabando com sua poupança, a qual poderia “aquecer” a economia, gerar empregos e subsidiar investimentos. Obras governamentais “fúteis”, sucateadas, muitas vezes com finalidades meramente eleitoreiras (quem não se lembra da “Ferrovia da Morte” inaugurada em 1912 em Porto Velho, Rondônia?), sob o objetivo duvidoso de gerar empregos à população, terminam aumentando o ônus à mesma. Aumentam-se os tributos, que, inevitavelmente, desencorajam a produção. Sem “poupança” não há como haver capital para investimento.

Da mesma forma, empréstimos desenfreados fornecidos pelo governo a pessoas que não o teriam obtido no ambiente privado também criam um ambiente de risco à população geral, a qual é, neste caso, a credora, a fonte do dinheiro, a pagadora de tributos. Crédito é algo que o homem já possui, altamente dependente de seu caráter e antecedentes. Esse é o principal princípio que norteia os lucros daqueles que vivem do fornecimento do crédito. O credor precisa conhecer o seu devedor. Quando o governo decide deliberadamente fornecer crédito a fazendeiros, agricultores, empresários e industriais que não o obteriam no mercado privado, ele passa por cima desse princípio e há maior porcentagem de falência, menor eficiência e maior desperdício de recursos. Frequentemente, o crédito termina por não chegar ao indivíduo que, de fato, é detentor do crédito por direito.

Invariavelmente, toda forma de subsídio governamental favorece um determinado grupo à custa de outro. Mas, infelizmente, até os dias atuais permeia no governo a ideia de que o subsídio aos agricultores, industriais e empresários age para manter o poder aquisitivo e a produção dos mesmos. Isso ocorre de diversas formas, tanto por meio de empréstimos facilitados à classe, quanto por queima de produção (para manter o preço alto dos produtos agrícolas).

Quem não se lembra das grandes queimas de café que ocorreram no governo Getúlio em 1931? A justificativa foi que o preço do produto não parava de cair desde a quebra da bolsa de Nova York em 1929. O objetivo era reduzir a oferta e conter a queda dos preços. Até 1945, mais de 70 milhões de sacas de café foram queimadas no Brasil, quantidade suficiente para garantir o consumo mundial do produto por três anos. Isso resolveu o problema? Não. O que, talvez, teria resolvido o problema? Permitir que o país desenvolvesse a agricultura e a indústria de acordo com a demanda interna e externa do momento.

Uma outra grande falácia econômica é a de que máquinas e avanços tecnológicos terminam reduzindo o número de empregos. Tome o exemplo de um empreendedor que consegue aumentar sua produção e reduzir o número de funcionários ao adquirir um novo maquinário. O aumento de seu lucro líquido pode ser utilizado para expandir suas operações, investir em outra indústria e/ou aumentar o próprio consumo.

Em qualquer dessas situações o emprego cresce. O lucro proporcionado pelo novo maquinário terminará no pagamento ou financiamento de uma outra máquina, outra indústria ou, ainda, nas mãos de construtores de uma casa, de produtores de automóveis, fabricantes de joias e roupas. E as benesses do avanço tecnológico não param por aí. No longo prazo, o aumento de produção provoca abundância de oferta e queda na escassez. Ou seja, há queda nos preços para os consumidores e mais pessoas podem ter acesso a produtos antes considerados “de luxo”. Não foi exatamente isso que vimos no Brasil com a popularização da energia elétrica, da televisão, do telefone celular, do laptop e da máquina de lavar? Qual foi o impacto disso na produtividade, economia de tempo e melhora na qualidade de vida das pessoas? O benefício é tão grande que nem pode ser mensurado.

Erra também quem pensa que as tarifas alfandegárias a produtos importados beneficiam os produtores internos. Ao se criar tarifas para o produtor externo, é possível até, por um breve momento, beneficiar o produtor local de um determinado produto (assim como os funcionários que ele emprega).

Entretanto, termina-se por onerar a população, pois o preço do produto aumenta e menos renda resta para gastar com outros produtos. Além disso, as tarifas, no longo prazo, reduzem também a exportação de produtos do país para o exterior. Aqui cabe a sabedoria da terceira lei de Newton: “ao aplicarmos uma força sobre um corpo (ação), recebemos desse corpo a mesma força (reação), com mesmo módulo e na mesma direção, porém, com sentido oposto”. Não há qualquer intervenção que termine sem uma consequência.

Hazlitt finaliza o livro retornando à sua primeira lição: ao avaliarmos os efeitos de qualquer proposição econômica devemos examinar não só os efeitos imediatos, mas também os resultados a longo prazo; não só as consequências primárias, mas também as secundárias; e não só os efeitos sobre um determinado grupo, mas os efeitos sobre todos.

Visualizo o Estado como um protetor dos direitos da população, à propriedade, à liberdade e à vida. No século XXI, com a abundância de riqueza e recursos tecnológicos, considero inenarrável a minha tristeza ao saber que 27 milhões de brasileiros vivem hoje abaixo da linha da pobreza, números infelizmente superiores ao ano anterior. Entretanto, toda intervenção econômica vem da suposição de oferecer algum benefício imediato a algum grupo especial. Nós, enquanto cidadãos, devemos agir como fiscalizadores desses “benefícios”, sempre objetivando as consequências secundárias, ou seja, seus efeitos a longo prazo sobre todos os grupos. A intervenção que não protege termina, invariavelmente, aumentando aqueles que reduzem o poder aquisitivo dos cidadãos, os tributos e a inflação.

Termino com uma frase do Frederic Bastiát: “Não esperar senão duas coisas do Estado: Liberdade e Segurança, e ter bem claro que não se poderia pedir mais uma terceira coisa, sob o risco de perder as outras duas.”

Fontes:

 

  1. HAZLITT, Henry. Economics in One Lesson(New York: Harper & Brothers, 1946), p. 20.
  2. https://studentsforliberty.org/brazil/blog/um-pequeno-guia-para-henry-hazlitt/
  3. https://objetivismo.com.br/artigo/henry-hazlitt-em-uma-unica-licao/
  4. https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/populacao-abaixo-da-linha-da-pobreza-triplica-e-atinge-27-milhoes-de-brasileiros/
  5. https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=10460
  6. https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45358463
  7. https://focanodinheiro.neon.com.br/controle-financeiro/impressao-de-dinheiro

 

* Natália Vasconcellos é médica, neurologista pela Universidade Federal de São Paulo, com especialização em neurointervenção na USP-SP e mestrado em curso na UNIFESP (neurociências). Atua em diversos hospitais de São Paulo, como o Hospital Albert Einstein, Hospital São Luiz e Hospital Santa Paula.

 

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