Eu odeio workshops

Meu problema não é com gente reunida pensando, e sim com encobrir falta de confiança, excesso de reuniões e uma cultura que não sustenta mudança

Ewerton Mokarzel

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(Foto: Reprodução)
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Essa é minha confissão honesta sobre por que dinâmicas corporativas raramente mudam o que precisa mudar. Fim de ano chega, o Roberto Carlos descongela, o orçamento do ano seguinte aperta e alguém dispara um convite supostamente inspirador. Três dias de sala divertida para resolver doze meses de conversas mal resolvidas.

A temporada dos workshopplays começa. Mesa colorida de post-its, quebra-gelo que só quebra a paciência de quem trabalha, promessas de virar a página e na segunda-feira tudo volta ao normal. Meu problema não é com gente reunida pensando, e sim com encobrir falta de confiança, excesso de reuniões e uma cultura que não sustenta mudança com eventos pontuais.

Reuniões demais, resultado de menos

A Atlassian ouviu milhares de profissionais e os dados não deixa muita dúvida. 78% dizem que são chamados para tantas reuniões que fica difícil concluir o trabalho. 51% precisam fazer hora extra alguns dias da semana por causa do excesso de reuniões. Entre diretores e níveis acima o número sobe para 67%.

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76% se sentem esgotados em dias com muitas reuniões. Eu não estou sozinho nesta batalha. \o/

A Microsoft analisou uso do 365 e pesquisas globais e encontrou um quadro de sobrecarga persistente. 68% dizem que lutam com o ritmo e o volume do trabalho. O dia fica com 60% do tempo em e-mails, chats e reuniões e apenas 40% em criação de conteúdo. Quando a liderança não confia na autonomia e no fluxo de informação, multiplica checkpoints, muda prioridade de chamada em chamada e confunde presença com gestão. O excesso de reuniões acaba como sintoma de desconfiança e vira microgestão em escala.

Sem confiança, sem ambiente seguro, sem resultado

Toda empresa diz que quer colaboração mas poucas estruturam uma cultura onde ela acontece. É saber que o colega cumpre o combinado, que discordar não vira retaliação, que vulnerabilidade não será usada contra ninguém. Confiança reduz atrito, acelera informação e libera energia para resolver problemas. A McKinsey analisou times no mundo todo e encontrou um padrão de performance. Equipes com confiança acima da média foram 3,3 vezes mais eficientes e 5,1 vezes mais propensas a entregar resultado quando comparadas às de baixa confiança.

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Não existe dinâmica que fabrique confiança instantânea. Quando a equipe já não se escuta, qualquer exercício lúdico fica artificial e evapora assim que a pressão cotidiana reaparece. Confiança nasce de rotinas visíveis. Pessoas cumprem o que prometem, líderes protegem o espaço para a verdade, divergências são tratadas com respeito e transparência. A partir daí surge a segurança psicológica que transforma reunião em trabalho de verdade e faz do encontro uma celebração do que já existe no dia a dia.

Eu amo mudanças

Na minha empresa ninguém aguenta mais me escutar repetir – estamos sempre mudando e isso não vai mudar. Não aposto em fórmulas fáceis nem em encontros divertidos porque mudar exige coragem para mexer no que realmente trava. Mudar dói e expõe contradições. Só que é nessa hora que a cultura sai da parede com frase inspiradora e vira vantagem competitiva.

Eu gosto do livro Immunity to Change que mostra por que tanta iniciativa morre ao enfrentar um sistema imunológico invisível. Compromissos ocultos e suposições profundas nos fazem segurar o freio enquanto pisamos no acelerador. O discurso diz que queremos colaborar. A prática protege status, controle ou zonas de conforto. Se a organização não enxerga esse mecanismo, cada workshop vira corpo estranho que o organismo expulsa.

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É o um a um que se repete, o retorno de informação honesto, a decisão que segue critérios claros, o reconhecimento que acontece quando ninguém está olhando. O time aprende a confiar porque aquilo se repete. Rotinas de feedback que tratam erro como dado e não como culpa. Espaços frequentes de decisão que diminuem a necessidade do improviso de última hora. A confiança que falta nos workshops nasce dessa teimosia do cotidiano.

Se a equipe não confia e não tem tempo de foco nenhum evento vai resolver. Se a segunda-feira ainda desmente o que foi dito na sexta, não é o formato que está falhando. É a liderança. O trabalho começa na segunda, continua na terça e assim por diante.

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Ewerton Mokarzel

Ewerton Mokarzel é designer e executivo com mais de 25 anos de experiência em branding. CEO e sócio da FutureBrand, lidera projetos de transformação para grandes empresas no Brasil e no exterior, com passagens pela Austrália e Singapura. Reconhecido por unir estratégia e execução criativa, conquistou mais de 250 prêmios nacionais e internacionais, incluindo os mais importantes do setor, e consolidou a FutureBrand como a maior consultoria de marcas do país e uma das líderes globais. Ao longo da carreira, já trabalhou com empresas como Grupo Boticário, Santander, Nestlé, Hering, BTG Pactual, Track&Field, Localiza, Banco do Brasil, Porto Seguro, JBS, Nespresso, entre outras.