Um mercado de marcas chatas

A vida seguiria igual se quase oito em cada dez marcas sumissem amanhã

Ewerton Mokarzel

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Dá para resumir o humor das pessoas em um número que incomoda qualquer C-level. A edição 2025 do Meaningful Brands mostra que a maioria não se importaria se 78% das marcas sumissem amanhã. O dado subiu em relação ao ano anterior e não é apenas um detalhe estatístico.

Há um desconforto silencioso no mercado. Campanhas corretas, layouts limpos, mensagens aprovadas por comitês e resultados medidos no curto prazo. A sensação é de vazio. As pessoas olham, passam e esquecem. Sinal de cansaço do público ou de acomodação das empresas. Talvez de ambos. Este texto segue uma linha analítica que eu defendo há anos, com o pé no chão do Brasil.

O curto-prazismo vazou do mercado para a criatividade

Segundo a Gartner, os orçamentos de marketing recuaram para 7,7% da receita das empresas. A reação foi blindar mídia paga, que subiu para 27,9% do budget. Dentro desse bolo, o digital passou a liderar com 57,1%, com concentração em três motores que uniformizam o jeito de criar e de comprar (search com 13,6%, social com 12,2% e display com 10,7%). 

Continua depois da publicidade

(Reprodução/Gartner)

Tecnologia de marketing caiu ao menor nível da década, e agências e times também perderam espaço. Quando o investimento em capacidade e diferenciação encolhe, o caminho natural é escorar na mesma máquina de performance que todos usam. Quem se parece com todo mundo não fica na memória de ninguém.

O vício em métricas de curtíssimo prazo aparece no feed, ou melhor, não aparece no feed. O relatório 2025 da Rival IQ mostra queda de engajamento em todas as plataformas medidas (Instagram -16%, TikTok -34%, Facebook -33,3% e X -48%). A disputa não é só por mídia. É por significado.

(Reprodução/Gartner)

Pasteurização do branding

Quando o medo de errar toma a direção, o discurso escorrega para um centro morno que parece correto, mas não move ninguém. A cautela cresceu com o clima polarizado e levou marcas a territórios neutros demais, onde nada se arrisca e tudo soa igual.

Continua depois da publicidade

O algoritmo também empurra para o meio. Plataformas e feeds inteligentes recompensam o que se parece com o que já funcionou. As ferramentas de IA aceleraram a produção e, de quebra, a homogeneização, com queda de novidade nos resultados “criativos”.

Enquanto isso, os códigos das marcas foram ficando iguais. Tipos, paletas, tom de voz e até o naming caminharam para um centro genérico que apaga a identidade. O estudo global da Ipsos testou mais de cinco mil ativos e encontrou só 15% realmente distintivos.

O tédio virou banner invisível

Algoritmo otimiza o que já deu certo e tráfego alugado cobra caro todo mês, por isso repetir virou atalho que empobrece a marca no longo prazo. Marcas ficaram chatas quando passaram a conversar com planilhas e não com gente. O público não desaprendeu a gostar de marcas, apenas desaprendeu a perder tempo com o que não faz diferença. 

Continua depois da publicidade

Quando a estratégia volta a priorizar a criatividade com propósito de negócio, a marca sai do piloto automático e a indiferença cai. A atenção deixa de ser comprada por impressão e passa a ser conquistada por significado.

Autor avatar
Ewerton Mokarzel

Ewerton Mokarzel é designer e executivo com mais de 25 anos de experiência em branding. CEO e sócio da FutureBrand, lidera projetos de transformação para grandes empresas no Brasil e no exterior, com passagens pela Austrália e Singapura. Reconhecido por unir estratégia e execução criativa, conquistou mais de 250 prêmios nacionais e internacionais, incluindo os mais importantes do setor, e consolidou a FutureBrand como a maior consultoria de marcas do país e uma das líderes globais. Ao longo da carreira, já trabalhou com empresas como Grupo Boticário, Santander, Nestlé, Hering, BTG Pactual, Track&Field, Localiza, Banco do Brasil, Porto Seguro, JBS, Nespresso, entre outras.