O futebol global ainda depende de fronteiras

A fragmentação da distribuição ampliou as formas de consumir futebol, mas não mudou a lógica que determina o valor dos direitos: cada mercado continua tendo suas próprias regras

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As tradicionais manhãs de domingo de Premier League na ESPN/Disney ganharam uma nova tela no último fim de semana.

Pelo menos para os fãs por trás dos mais de 700 mil aparelhos conectados que acompanharam Manchester City x Bournemouth na estreia da CazéTV na competição.

Esse foi o primeiro dos 38 jogos que serão exibidos pelo canal no YouTube até o fim da temporada.

A novidade do gratuito para a transmissão da liga de futebol mais badalada do planeta no Brasil repercutiu mais do que a virada do City em campo.

Especialmente na bolha esportiva do X/Twitter, a celebração estava menos relacionada ao resultado e mais ao significado desse marco.

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O anúncio de que o Liverpool também faria sua estreia na CazéTV na segunda rodada ampliou essa percepção. Pela primeira vez, a Premier League passa a ser oferecida no Brasil em uma plataforma aberta, criando uma nova porta de entrada para um produto historicamente associado a pacotes pagos e acesso por assinatura.

No Disney+, assistir aos 380 jogos do Campeonato Inglês custa R$ 69,90 por mês.

O valor é praticamente equivalente aos £10,04 (R$ 70,39) desembolsados pelos torcedores sul-americanos pelo pacote completo oferecido pela Disney no continente.

O número aparece no levantamento feito pelo The Athletic sobre os 84 contratos internacionais da Premier League para o ciclo 2025-2028. Foram considerados apenas mercados onde os valores das assinaturas são divulgados oficialmente pelas emissoras detentoras dos direitos ou distribuidores autorizados.

A discrepância entre mercados escancara uma característica peculiar da economia esportiva.

Apesar de a Premier League ostentar o apelo de uma marca global, o valor do seu direito continua sendo determinado por características locais.

Leia mais: Por que a Premier League bateu no teto dos direitos de mídia

Na Singapura, o pacote Premier League+ via StarHub custa cerca de €27,5 por mês (£23,55). No Reino Unido, uma combinação entre Sky Sports e TNT Sports chega a aproximadamente €59,5 mensais (£51), sem necessariamente garantir todos os 380 jogos.

Na Islândia, torcedores pagam o equivalente a £87,77 por mês por uma assinatura da Syn Sports. Na Turquia, assinantes da TOD TV conseguem acessar a cobertura da beIN Sports por £3,52 mensais.

Como bem destacou o blog Futebol E Negócios, a estratégia local por mercado permite maximizar ARPU (receita média por utilizador) com preços muito distintos.

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O mesmo futebol, diferentes economias

Na véspera do jogo do Manchester City, a CazéTV já havia registrado mais de um milhão de aparelhos conectados para Espanyol x Real Madrid em sua primeira partida da LaLiga, competição da qual detém 100% dos direitos no Brasil após a saída da ESPN.

Nesta temporada, os brasileiros terão acesso a pelo menos um jogo por rodada do Big Five europeu no YouTube, conforme mostra o infográfico abaixo do Falando de Mídia Esportiva.



Enquanto isso, nos próprios países de origem, o acesso integral às competições continua dependente de diferentes pacotes pagos.É uma diferença que revela como o consumo do futebol global continua condicionado ao mercado onde o fã está inserido.

Um levantamento do Calcio e Finanza comparou quanto custa para um torcedor acompanhar integralmente o principal campeonato nacional e as competições europeias em seus cinco maiores mercados de futebol: Espanha, Reino Unido, Alemanha, Itália e França.

Foram classificados os menores valores disponíveis nas plataformas titulares dos direitos, com os preços anuais convertidos em mensalidades quando necessário. No caso espanhol, o cálculo inclui a obrigatoriedade de contratação de pacote de internet fixa.

O estudo aponta que acompanhar integralmente o futebol nesses mercados custa: 972 euros por ano na Espanha, 867 euros no Reino Unido, 810 euros na Alemanha, 669 euros na Itália e 439 euros na França.

Por aqui, para assistir a 100% dos jogos do Campeonato Brasileiro e das três principais competições europeias, o torcedor precisa combinar quatro plataformas digitais principais, considerando assinaturas diretas e sem depender dos pacotes tradicionais de televisão por assinatura.

Seria Premiere e Amazon Prime Video para o Brasileirão, Max para a Champions League e Disney+ Premium para Europa League e Conference League.

Ao somar todos os pacotes no plano anual em formato mensalizado, o fã brasileiro gastaria aproximadamente R$ 132,70 por mês, ou R$ 1.592,40 por ano. Na conversão direta para a moeda europeia, cerca de 265 euros anuais.

A despeito de o valor ainda não superar as assinaturas europeias, o dado corrobora a transformação no comportamento do torcedor brasileiro.

Ao mesmo tempo em que ele passou a lidar com uma oferta fragmentada de assinaturas, também passou a questionar quais conteúdos justificam uma barreira de pagamento quando existe uma alternativa gratuita de acesso.

Esse novo equilíbrio entre pago e o de graça ficou evidente novamente na terça-feira passada, quando a TNT iniciou a distribuição do seu pacote de 31 jogos da Champions League no YouTube. Fenerbahçe x Lyon registrou mais de 185 mil aparelhos conectados na plataforma.

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Mais uma vez, uma propriedade premium encontrou uma audiência quando eliminou a barreira inicial de entrada.

O mito do fã global

Quando analisei a falha da UEFA na venda do pacote global da Champions League em novembro do ano passado, a discussão passava por uma contradição da indústria. Na ocasião, a questão não estava relacionada apenas ao valor financeiro do acordo.

Leia mais: Novo acordo de mídia expõe o paradoxo da Champions League

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A UEFA vendeu durante anos a Champions League como uma das maiores propriedades esportivas globais, capaz de conectar torcedores em todos os continentes. A expectativa era que essa escala internacional pudesse ser traduzida em uma nova arquitetura comercial de direitos.

O resultado mostrou uma realidade diferente.

Leia mais: UEFA infla novo ciclo de direitos, e o jogo econômico do esporte segue concentrado

Apesar do alcance mundial da competição, a negociação continuou dependente das estruturas locais de mídia, dos interesses das emissoras nacionais e da capacidade de cada mercado em transformar audiência em receita.

O discurso global encontrou uma barreira conhecida da indústria esportiva: o torcedor pode ser global, mas o negócio ainda precisa responder às condições de cada território.

O podcast Unofficial Partner trouxe uma provocação relevante ao questionar a própria ideia do “fã global”.

A tese não questiona a existência de torcedores que acompanham clubes e competições de diferentes países. Eles estão espalhados pelo mundo e são responsáveis por uma enorme circulação de conteúdo, conversas e influência cultural.

O quanto desse relacionamento, por sua vez, consegue ser convertido em valor econômico direto?

A indústria incorporou alcance digital, seguidores e interações sociais como indicadores de demanda. O problema é que atenção e monetização seguem caminhos diferentes.

Um torcedor pode acompanhar diariamente o Real Madrid, consumir conteúdos da Premier League e participar de discussões sobre a Champions League sem necessariamente representar uma nova assinatura, uma compra de pacote ou uma receita equivalente ao torcedor doméstico.

Unofficial Partner argumenta que direitos internacionais permanecem abaixo do potencial imaginado justamente porque o valor econômico ainda está concentrado nos mercados locais. A NFL, por exemplo, está presa abaixo de 3% fora dos EUA.

A construção de um negócio global é mais complexa do que angariar uma audiência internacional.

O mercado cresce, mas o modelo está sendo redesenhado

Essa transformação não significa uma redução no valor dos direitos esportivos. Como analisou James Mortimer, o mercado global de mídia esportiva continua em expansão, com projeções de crescimento anual entre 4,5% e 6,2% até 2030, podendo ultrapassar US$ 114 bilhões.

Leia mais: A nova matemática dos direitos esportivos

A questão está na distribuição desse crescimento, porém nem todos os ativos seguirão a mesma trajetória.

Enquanto grandes propriedades internacionais continuam atraindo investimentos, alguns segmentos enfrentam pressão sobre modelos tradicionais de receita.

O exemplo mais evidente aparece no mercado americano, onde as redes esportivas regionais, conhecidas como RSNs, perderam força com o avanço do corte de assinaturas de televisão por assinatura.

Durante décadas, esse modelo funcionou porque garantia às ligas uma base previsível de consumidores dentro dos pacotes tradicionais de TV.

Com a migração do público para novas plataformas, essa previsibilidade desapareceu.

Ligas e equipes, então, recorreram a novas alternativas. Serviços diretos ao consumidor, transmissões gratuitas, acordos digitais e distribuição multiplataforma passaram a fazer parte da estratégia.

Como destacou Mortimer, a nova realidade da mídia esportiva exige uma abordagem agnóstica em relação às plataformas.

Pacotes fragmentados permitem testar modelos, preservar presença em TV e, ao mesmo tempo, abrir portas para plataformas digitais que operam com ciclos mais rápidos de atenção.

Ou seja, vendem-se audiências fragmentadas e distribuídas conforme o hábito de cada grupo.

O local ainda define o valor global

A discussão sobre a internacionalização dos direitos esportivos criou a expectativa de que as maiores plataformas globais poderiam diluir a importância dos mercados locais.

A pulverização das propriedades ampliou os caminhos de distribuição, porém não eliminou o valor de quem conhece o comportamento do torcedor, os hábitos de consumo e a dinâmica comercial de cada território. E a Globo é um exemplo da perseverança da mídia legada.

Após o choque da Copa do Mundo, a empresa articulou uma ofensiva mirando diferentes propriedades esportivas.

Na semana passada, SporTV e Ge TV anunciaram a exclusividade na transmissão do jogo da NFL no Brasil que marcará a estreia do Maracanã como palco da liga americana.

No futebol nacional, a Globo abriu conversas com a Record para voltar a exibir o Campeonato Paulista, com possibilidade de inclusão da Copa do Brasil, cujos direitos para o ciclo de 2027 estão sendo negociados desde julho.

Em meio ao imbróglio da aquisição da Warner Bros Discovery pela Paramount e do recuo da Conmebol pelo venda dos direitos da Libertadores à TNT, a emissora apresentou proposta para adquirir 70 jogos do torneio entre 2027 e 2030 e levar o pacote para o SporTV, segundo informações do Outro Canal, da Folha de S.Paulo.

A busca por esses ativos acontece em um momento em que a própria indústria revisa a forma de distribuir e monetizar suas propriedades.

O modelo baseado em grandes pacotes fechados e concentração de inventário já não responde sozinho à diversidade de hábitos de consumo e aos diferentes estágios de desenvolvimento de cada mercado.

O futuro dos direitos esportivos será construído a partir de uma arquitetura mais flexível. As propriedades precisarão desagregar inventário, distribuir conteúdos por diferentes camadas e calibrar exposição conforme a maturidade de cada território.

Leia mais: A Copa do ciclo de US$ 13 bilhões colocará à prova as teses sobre o futuro da mídia esportiva

Aquela ideia do “ganhador leva tudo” perde força porque não acompanha a pulverização do consumo nem sustenta, sozinha, o crescimento internacional das competições.

A Premier League continuará sendo uma marca global. A Champions League seguirá como uma das maiores propriedades esportivas do mundo. A NFL não cessará sua ambição por territórios internacionais.

Com facilidade, o esporte atravessa fronteiras na busca de novos mercados e fãs. A captura de valor, porém, ainda depende das estruturas locais que sustentam sua comercialização.


Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.