O abismo do tênis: o choque entre tradição, festivalização e a tomada de território pelos criadores

Direitos fragmentados, pressão por relevância e o desafio dos creators aos modelos de mídia e distribuição que sustentaram a modalidade por décadas

Eduardo Mendes

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Australian Open 2026 (Foto: U.S. REUTERS/Jaimi Joy)
Australian Open 2026 (Foto: U.S. REUTERS/Jaimi Joy)

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Durante sua apresentação na AO Live Opening Week, o renomado DJ e produtor Cassian resgatou “Arian”, faixa lançada há dois anos pelo selo Afterlife, para construir um sample incomum: substituiu as batidas originais pelo som da bola em um rally disputado no passado entre Roger Federer e Rafael Nadal.

O australiano compõe o lineup galáctico do evento eletrônico que acontece em paralelo às partidas disputadas nas quadras duras do Melbourne Park. No domingo, Peggy Gou, uma das DJ’s mais cobiçadas da cena global, encerrará as festividades no dia da final masculina. Até o último fim de semana, os ingressos seguiam à venda, com preços entre 89 e 196 dólares australianos.

Este é o exemplo mais explícito do fenômeno que levou o jornal The Age a publicar um artigo sobre a “festivalização” do Australian Open.

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E a proposta de vender o Grand Slam como um híbrido de festival cultural e musical está funcionando. Em 2023, quando o torneio rebatizou a semana de qualificação como “Semana de Abertura”, 63.120 pessoas compareceram. Este ano, o público foi de 217.999, um aumento de 87% em relação a 2025, segundo dados do site The First Serve.

É um contraste que ecoa diretamente o artigo de Alyson Rudd publicado pelo The Times na semana de abertura do torneio. A jornalista critica a transformação do esporte em entretenimento ao repercutir a informação de que o All England Lawn Tennis Club exigirá mudanças significativas na cobertura da BBC sobre Wimbledon.

A percepção interna é de que outras emissoras vêm sendo “mais inovadoras e eficientes” em atrair públicos mais jovens. As transmissões da Sky para os circuitos ATP e WTA, assim como a cobertura de Roland-Garros e do Australian Open pela TNT Sports, são citadas como referências.

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Hoje, a BBC paga cerca de 60 milhões de libras por ano para exibir Wimbledon, um torneio transmitido pela emissora desde 1927 no rádio e desde 1937 na televisão.

A discussão, portanto, não é somente editorial. Ela envolve tradição, valor de marca e a disputa por relevância em um ecossistema de mídia pulverizado. O impasse se insere em um problema maior, bem mapeado por Charlie Eccleshare em reportagem publicada pelo The Athletic.

O artigo expõe por que a mídia do tênis se tornou um sistema fragmentado, dos direitos de transmissão dos Grand Slams à circulação de melhores momentos nas redes sociais.

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No centro da questão está a “tensão entre conteúdo oficial e não oficial”, e a forma como direitos e acordos definem essa fronteira. Esse embate será determinante para o futuro da modalidade como produto de mídia.

Ao trazer este recorte para o Brasil, abrimos 2026 com a CazéTV tentando atacar o domínio de direitos histórico da ESPN/Disney+ por meio de vídeos sociais e parcerias com criadores da bolha do tênis para impulsionar seu novo hub. Seria ingênuo imaginar que a ambição do canal se limitaria à transmissão da Copa Davis.

No ano passado, escrevi no InfoMoney sobre como a distribuição do tênis se dilui entre plataformas e por que o esporte ainda patina para se comportar como um ativo de mídia plenamente moderno. A discussão já apontava para o papel do conteúdo social nesse processo.

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Leia mais: O tênis está à venda. Mas quem compra cultura?

Agora, o ponto de inflexão fica mais evidente. O tênis, assim como outros esportes, tenta equilibrar o declínio dos modelos que sustentaram sua rentabilidade no passado, especialmente a TV linear e a TV paga, com a ascensão de formatos que prometem o futuro, mas ainda não entregam retorno consistente, como o streaming.

A pergunta inevitável é: o tênis caminhará para uma venda coletiva de direitos?

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O preço da tradição: quanto vale não modernizar?

A informação publicada pelo The Times indica que a BBC deve manter os direitos de transmissão de Wimbledon no Reino Unido após o fim do contrato atual, em 2027. A renovação, no entanto, estaria condicionada a uma atualização relevante da cobertura.

Do ponto de vista financeiro, o All England Club poderia extrair uma taxa significativamente maior se migrasse para um parceiro de TV paga. Ainda assim, a avaliação interna é de que o alcance massivo da BBC, somando televisão aberta, rádio e plataformas digitais, além do poder de promoção cruzada, compensa a renúncia a uma receita direta mais elevada.

No ano passado, ao analisar o tema durante o torneio, mostrei que a discussão era menos simples do que parecia. A Lei de Radiodifusão de 1996 determina que Wimbledon seja exibido em TV aberta no Reino Unido, mas não garante exclusividade. Essa brecha permitiu que TNT Sports e Sky Sports se posicionassem como alternativas viáveis, como reportou o CityAM.

Duas praças são financeiramente decisivas para Wimbledon: o mercado doméstico do Reino Unido e o mercado externo dos Estados Unidos.

Nos EUA, o novo contrato com a Disney, via ABC e ESPN, garante US$ 630 milhões até 2036, o equivalente a US$ 52,5 milhões por ano, ainda abaixo dos US$ 75 milhões anuais pagos pelo US Open.

No Reino Unido, a situação é diferente. Se a regra do “Grupo A” – que garante cobertura aberta de eventos de grande importância nacional – não existisse, players como Sky ou Amazon pagariam muito mais pelos direitos. O All England Club, portanto, deliberadamente deixa dinheiro na mesa para preservar a tradição e o acesso universal.

A TNT Sports, que transmitiu os Jogos Olímpicos e a Copa da Inglaterra nos últimos anos, surgia como a candidata mais lógica, dada sua integração com a Eurosport (também do grupo Warner Bros. Discovery) e sua experiência com outros dois torneios do Grand Slam. No entanto, o The Times informa que a TNT não demonstrou interesse em fazer uma proposta.

Em seu artigo que defendia a tradição, intitulado “Não modernizem o torneio de Wimbledon na BBC — sua tradição é reconfortante”, Rudd argumenta que o valor da cobertura da BBC está em seu poder de unir a nação.

Por duas semanas, o tênis deixa de ser nicho, atravessa classes sociais e ocupa o centro da cultura britânica. A imagem dos gramados impecáveis toma conta das telas, e essa “sensação de atemporalidade” é parte fundamental do apelo.

Rudd sugere que o melhor ajuste possível viria da própria BBC, mais especificamente do rádio. A Radio 5 Live combina informação, liberdade editorial e profundidade sem romper com o espírito do torneio.

A jornalista usa a prerrogativa de que o acesso às imagens não pode justificar empobrecimento da linguagem. Silêncios, sons de jogo e pausas também comunicam.

“Nem tudo precisa ser acelerado ou traduzido para manter jovens interessados.”

Um detalhe: o artigo de Rudd foi publicado em 17 de janeiro. Quando revisitei o texto no fim de semana para esta coluna, ele já havia sido retirado do ar.

A fórmula do caos: direitos fragmentados e a ilusão do valor

A fragmentação entre plataformas, múltiplos níveis de assinatura e serviços complementares não é tratada pela indústria do tênis como um problema. Para o The Athletic, ela é vista como consequência natural do peso que os direitos de transmissão exercem sobre o equilíbrio financeiro do esporte.

Nos Estados Unidos, a ESPN pagará US$ 2,04 bilhões para manter o US Open até 2037. Em Roland Garros, a Warner Bros. Discovery firmou em junho de 2024 um contrato de dez anos no valor de US$ 650 milhões pelos direitos do torneio no mercado americano. O acordo inclui a exibição no streaming Max, substituindo um modelo anterior fragmentado entre NBC, Tennis Channel, Tennis Channel+, Peacock e outros serviços.

Os outros Grand Slams seguem uma lógica semelhante, com transmissões distribuídas entre ABC, ESPN e Tennis Channel.

O efeito colateral desta pulverização é conhecido. No Australia Open deste ano, espectadores norte-americanos descobriram que precisavam assinar um pacote adicional da ESPN, o Unlimited, para acessar as quadras principais, mesmo com o serviço básico disponível em outras plataformas.

Na mesma reportagem, Eccleshare argumenta que, no curto prazo, contratos robustos combinados com restrições severas de acesso tendem a impulsionar a TV paga e a venda de ingressos presenciais.

O problema surge no médio e longo prazo. À medida que o streaming supera definitivamente a TV por assinatura, barreiras excessivas dificultam a descoberta do esporte e reduzem o hábito de consumo recorrente.

Se esses contratos perderem valor e novas receitas não compensarem a queda, porque os dados indicarão uma base menor de fãs engajados, o sistema entra em colapso, alertou o jornalista.

Esse diagnóstico apareceu novamente em um debate recente promovido pelo podcast Unofficial Partner, com Murray Barnett e Yannick Ramcke, dentro de um pacote de previsões para o mercado de mídia esportiva em 2026. O tênis, segundo eles, caminha para um modelo de venda coletiva de direitos.

Hoje, os quatro torneios do Grand Slam concentram cerca de 70% do investimento total no esporte, deixando apenas 30% para o restante do circuito. A tendência é que esses torneios passem a negociar direitos internacionais de forma conjunta, em busca de escala, previsibilidade e maior poder de barganha.

Barnett vai além e sugere a elevação de um torneio do nível 1000, com Indian Wells como candidato óbvio, para criar um “Quinto Slam”.

A ideia é oferecer um ambiente mais consistente e uma marca mais forte para os fãs casuais, que hoje se perdem no calendário fragmentado. A lógica, segundo ele, é de mercado: a escassez de eventos de elite tende a aumentar seu valor percebido.

A última peça do quebra-cabeça: o criador como plataforma própria

Na semana passada, veículos como a Máquina do Esporte destacaram a investida da CazéTV no tênis, com a criação de um hub dedicado exclusivamente à modalidade. A iniciativa visa ampliar presença, frequência e relevância do esporte dentro da lógica de streaming e redes sociais.

O movimento começou a ser desenhado no fim do ano passado, com a criação do perfil @cazetvtenis. O perfil foi lançado entre Natal e Ano Novo e, em dois dias, acumulou mais de seis mil seguidores, conforme acompanhei na época. Hoje, esse número se aproxima de 22 mil.

As notícias enfatizaram a presença do repórter João Barretto em torneios internacionais, acompanhando bastidores e a rotina dos atletas brasileiros. O que passou praticamente despercebido, por sua vez, foram duas colaborações com criadores que, na prática, são vetores centrais dessa aposta.

Uma delas é o Dupla Mista, que entrega uma abordagem mais leve e informal, diretamente da Austrália, explorando ambiente, contexto e curiosidades do torneio. A outra é o Tênis Além do Óbvio, hoje o canal com maior autoridade editorial sobre a modalidade no Brasil.

Ao longo de 2025, a CazéTV realizou colaborações pontuais no Instagram com o Alemzão, como é chamado carinhosamente pelos fãs brasileiros. Nos últimos meses, Stival, fundador do canal, participou como comentarista nas transmissões da Copa Davis e no evento “Batalha dos Sexos”, entre Aryna Sabalenka e Nick Kyrgios.

O poder dessa comunidade foi colocado à prova no ano passado nesta mesma época. O canal no YouTube registrou 98 mil pessoas assistindo a transmissão de react ( sem imagens) da vitória de João Fonseca sobre Andrey Rublev no Australian Open.

Na época, apontei que este caso ilustrava como a cobertura se descentralizou, escapando do controle absoluto dos detentores de direitos e impulsionando mídias próprias erguidas por criadores.

Retomo o argumento agora, apoiado na análise de Michael Cohen e Jeff Nathenson em suas projeções para 2026. Eles debatem como a distribuição liderada por criadores evolui de projetos-piloto para uma linguagem padrão em contratos. Tornou-se comum reservar períodos de transmissão ao vivo, direitos de co-streaming ou de destaques e reactions para o criador.

“Criadores não entregam apenas alcance. Eles organizam significado. Produzem narrativa, contexto e pertencimento”, escreveram.

É exatamente isso que o Tênis Além do Óbvio constrói há seis anos.

A CazéTV, naturalmente, ancora sua estratégia em seu próprio casting. Barretto ganhou visibilidade nos Jogos de Paris, conhece o esporte e sustenta bem a cobertura. Não parece haver, neste momento, uma intenção clara de impulsionar criadores independentes já consolidados como Alemzão, cuja audiência é menor em escala, mas muito mais densa em vínculo.

Como afirmou Evan Shapiro em entrevista à coluna no ano passado, o valor deixou de estar nas visualizações e migrou para o impacto direto. Não se compra mais impressões. Falar com as massas, como modelo isolado de negócio, perdeu eficácia.

Por isso, ele aposta que a economia dos criadores e a mídia tradicional deixarão de ser entidades facilmente distinguíveis. É uma tese com a qual compactuo.

Tenho analisado com frequência por que estes satélites de transmissão deflagram o afastamento da velha abordagem de comando e controle em relação ao público em um cenário em que os criadores são tanto o meio quanto a mensagem dentro da nova cadeia de valor da mídia do futuro.

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Eduardo Mendes

Eduardo Mendes é estrategista em conteúdo e novos modelos de negócio para esportes, mídia e economia criativa. Com quase uma década no jornalismo esportivo, hoje atua com inteligência estratégica e inovação. É cocriador das newsletters The Block Point e Creative Moves, e esteve à frente de projetos como o ecossistema digital do Atlético-MG e os primeiros colecionáveis digitais da T4F.