NBA começa a temporada com uma conta regional em aberto

A queda no valor dos direitos locais leva liga a negociar um pacote que pode reunir as transmissões de quase todas as franquias americanas, com DAZN e YouTube na disputa pelo negócio

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Os três jogos de abertura da NBA exibidos, ontem, na televisão nacional americana reuniram equipes que fecharam acordos regionais com a DAZN. O atual campeão New York Knicks terá 65 partidas transmitidas pela plataforma, enquanto o San Antonio Spurs negociou 67 jogos e o Detroit Pistons, 69.

No início de agosto, a DAZN reuniu a imprensa em Nova York para apresentar seu portfólio de direitos regionais. Dos 19 acordos firmados com franquias de diferentes ligas americanas, incluindo WNBA, NHL e MLB, 11 envolviam equipes da NBA.

O modelo permite que os torcedores assinem o serviço de uma franquia individualmente ou adicionem as transmissões regionais a uma assinatura mais ampla da DAZN. Os preços variam conforme a equipe e o mercado.

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No caso do Cleveland Cavaliers, por exemplo, o plano padrão custa US$ 19,99 mensais ou US$ 119,99 anuais. A opção Ultimate sai por US$ 24,99 por mês ou US$ 139,99 por ano e inclui benefícios adicionais, como transmissões extras e descontos em ingressos e produtos oficiais.

A DAZN também prevê sublicenciar partidas selecionadas para canais de televisão aberta, ampliando o alcance de seus parceiros exclusivos. Dentro da plataforma, cada franquia terá um espaço próprio, com jogos ao vivo, reprises, calendário, informações sobre o elenco e a classificação, além de podcasts e programas de entrevistas.

Na apresentação de agosto, Pete Oliver, CEO de Mercados em Crescimento da DAZN, fez questão de dizer que a temporada 2026/27 não seria um “teste”. A proposta, segundo ele, era mostrar ao mercado como os esportes regionais poderiam ser distribuídos da “maneira correta.”

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A declaração tinha endereço. A DAZN disputa com o YouTube os direitos regionais da NBA, enquanto Amazon e Disney também acompanham as oportunidades nesse mercado.

Os contratos atuais incluem cláusulas que permitem às franquias rescindir os acordos caso optem por aderir à futura plataforma de streaming regional da própria NBA. É uma condição importante diante dos planos da liga, que pretende reunir as transmissões locais em um único ambiente.

Como mostrei aqui durante as finais da temporada passada, a NBA trabalhava para antecipar a criação desse serviço. Agora, a iniciativa avançou e abriu uma nova frente de negociação, com o YouTube entre os interessados em adquirir um novo pacote.

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Leia mais: NBA vai antecipar streaming próprio de jogos locais, e o paradoxo expõe o limite do novo contrato bilionário

A estrutura financeira escala com a participação. Segundo o Sports Business Journal (SBJ), a liga busca aproximadamente US$ 1,2 bilhão por ano caso consiga reunir as 29 franquias americanas no pacote. Se a adesão inicial ficar em torno de 25 equipes ou menos, o valor oferecido pelo YouTube poderia se aproximar de US$ 850 milhões anuais.

É uma diferença que reflete o tamanho do pacote e o número de franquias participantes, e depende das decisões individuais de cada equipe.

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As redes esportivas regionais americanas vêm perdendo espaço com o cancelamento de assinaturas de TV paga. A falência do Main Street Sports Group, responsável pela FanDuel Sports Network, acelerou a busca por alternativas.

Cerca de 22 franquias devem aderir ao novo modelo, entre elas equipes que transmitiam seus jogos pela FanDuel Sports Network, times afetados pela saída da NBC do segmento regional e que já contam com acordos de transmissão em TV aberta.

O dinheiro nacional já não compensa a perda local

Na última década, os contratos nacionais de mídia das principais ligas americanas cresceram expressivamente. A valorização das franquias também ajudou a sustentar a percepção de prosperidade do negócio. Esses números, contudo, convivem com a deterioração das receitas provenientes dos direitos regionais e com a perda de espaço dos canais esportivos locais.

O ex-presidente da Fox Sports Networks Bob Thompson resumiu a dimensão do problema em entrevista ao JohnWallStreet, plataforma dedicada aos negócios do esporte.

Segundo ele, franquias que antes recebiam US$ 50 milhões por ano em acordos locais passaram a negociar contratos de US$ 4 milhões ou US$ 5 milhões. Na comparação de Thompson, isso equivale a cerca de dez centavos para cada dólar recebido anteriormente.

A redução também afeta a receita acumulada por partida. Mesmo com contratos nacionais mais valiosos, a soma das receitas de televisão de muitas equipes encolheu em relação ao período em que os direitos locais representavam uma fonte relevante de recursos.

A análise publicada pelo JohnWallStreet, no fim de setembro, aponta para um problema que vai além da situação das redes regionais. A queda dos valores pagos pelos direitos locais de equipes da MLB, NBA e NHL, combinada à redução dos gastos com programação de entretenimento, oferece indícios do que pode acontecer com os direitos esportivos em um mercado de distribuição de vídeo mais concentrado e com margens menores.

A mudança também envolve a origem do dinheiro. As receitas de assinatura que hoje financiam os contratos nacionais vêm, em parte, da mesma base de consumidores que sustentava os pacotes de televisão por assinatura e os acordos regionais.

Nos Estados Unidos, o número de assinantes de TV paga caiu de aproximadamente 100 milhões, em 2016, para cerca de 62 milhões no segundo trimestre de 2026, segundo os dados citados pela publicação.

Patrick Crakes, fundador da Crakes Media e consultor da JohnWallStreet Advisory, avalia que o enfraquecimento do pacote tradicional de TV paga recoloca as leis de oferta e demanda no centro da negociação dos direitos esportivos.

Um exemplo recente, segundo ele, foi a declaração de Lachlan Murdoch de que a Fox não pretendia renegociar os termos de seu contrato com a NFL no meio do acordo.

Leia mais: A NFL pode crescer mais? O próximo embate está em quem define a moeda da audiência

Crakes também questiona a premissa de que grandes empresas de tecnologia estarão sempre dispostas a elevar seus investimentos em direitos esportivos.

A expectativa de que Amazon, Google ou Apple possam triplicar seus gastos a qualquer momento precisa considerar os recursos exigidos por outras frentes de investimento, incluindo a infraestrutura de data centers. Essa restrição pode alterar as condições econômicas que sustentaram a valorização dos direitos nos últimos anos.

A independência da DAZN tem um preço

No início deste ano, conforme mostrei aqui, a Ampere Analysis projetou que o Prime Video ultrapassaria a DAZN até o fim de 2026 como maior investidor individual em direitos esportivos por streaming, com US$ 3,8 bilhões, encerrando sete anos de liderança da plataforma.

Leia mais: A nova matemática dos direitos esportivos

A discussão sobre o futuro da DAZN também esteve presente no IBC 2026, uma das principais feiras globais de mídia, entretenimento e tecnologia de transmissão, realizada em Amsterdã em setembro.

Na ocasião, Carlos De Marchis levantou uma questão sobre o setor: a DAZN estaria dominando o streaming esportivo ou os aplicativos independentes, com distribuição direta ao consumidor, ainda teriam espaço para competir?

O analista chamou atenção para a situação financeira da companhia. Com base nos balanços divulgados, a DAZN acumulava receita de US$ 3,19 bilhões e prejuízo operacional de US$ 877,5 milhões, além de mais de US$ 7 bilhões em financiamento de acionistas.

Em junho, a empresa anunciou uma nova holding nas Ilhas Cayman para viabilizar uma captação de recursos. Os números referentes ao ano fiscal de 2025 ainda não haviam sido divulgados, segundo a análise.

A pergunta de De Marchis vai ao centro do modelo de negócios. Se uma empresa mantém seu próprio aplicativo, enquanto aluga a infraestrutura de uma companhia que concorre para substituí-la, até que ponto continua independente?

O acordo com o Indiana Pacers ilustra a questão.

Segundo o analista, o contrato prevê uma garantia de US$ 8 milhões, divisão de 50% da receita publicitária e possibilidade de rescisão mútua após o primeiro ano. A cláusula de saída ganha outra dimensão quando se considera a identidade da empresa com a qual a DAZN compartilha a distribuição.

O YouTube quer mais do que os direitos

Na disputa regional da NBA, a diferença entre os modelos pode ser decisiva. Segundo o SBJ, a liga distribuiria os recursos de uma eventual colaboração com o YouTube entre as franquias de acordo com o valor de mercado de cada equipe.

Miami Heat e Philadelphia 76ers, por exemplo, receberiam parcelas maiores do que Memphis Grizzlies e New Orleans Pelicans, enquanto Los Angeles Lakers e New York Knicks estariam entre os principais beneficiados.

Fontes ouvidas pela publicação indicaram que a DAZN talvez precisasse oferecer até US$ 1,4 bilhão para superar a proposta do YouTube. O valor, caso se confirme, elevaria ainda mais o custo de entrada em um mercado no qual a plataforma já precisa equilibrar investimentos em direitos e sustentabilidade financeira.

O YouTube, por sua vez, espera recuperar boa parte desse desembolso por meio de assinaturas.

A proposta discutida prevê um contrato de nove anos, com opção de extensão por mais cinco, alinhado ao encerramento do atual ciclo de direitos nacionais da NBA, avaliado em US$ 77 bilhões por 11 anos.

A relação entre as duas empresas também se estende a outros acordos. A partir de 2027, o YouTube Premium exibirá partidas da NBA por meio do contrato firmado com a Peacock, que inclui rodadas duplas exclusivas às segundas-feiras e jogos simultâneos com a NBC aos domingos e às terças-feiras nos Estados Unidos.

Como escreveu Yannick Ramcke, o YouTube não precisa ser proprietário do conteúdo para controlar o relacionamento com o cliente, a interface e a entrega das transmissões.

Do ponto de vista econômico, esse modelo se aproxima da distribuição tradicional por atacado, na qual uma plataforma reúne e distribui conteúdo de terceiros, como ocorre com o YouTube TV.

Conforme ponderou Ramcke, a proposta difere tanto da venda de canais individuais por meio do Primetime Channels quanto dos pacotes que combinam serviços de streaming oferecidos por operadoras, como o da Comcast com Peacock, Apple TV e Netflix.

É nesse terreno que a DAZN terá de enfrentar o YouTube pelos direitos regionais da NBA.

A DAZN construiu sua oferta em torno do esporte, com ambientes dedicados às franquias e assinaturas específicas para os torcedores. O YouTube pode integrar as partidas a um ecossistema que reúne distribuição, publicidade, conteúdo e assinaturas, ampliando as possibilidades de monetização dos jogos.

O desafio da DAZN será justificar o investimento nos direitos e preservar o controle comercial da relação com os fãs. Para o YouTube, o pacote regional pode ampliar o valor de um ecossistema que já monetiza diferentes formatos de conteúdo.

A disputa, portanto, envolve o preço dos jogos e quem terá melhores condições de transformar essas transmissões em uma fonte recorrente de receita.


Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.