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O mercado global de FAST alcançou US$ 5,8 bilhões em 2025, com os EUA concentrando 81% desse total. Esse número, no entanto, equivale a quase metade dos US$ 11 bilhões gerados pelos microdramas no mesmo período, um território onde a China, com 83% de participação, exerce um domínio quase absoluto.
A analista Sandra Lehner usou os dados da Omdia para estabelecer uma distinção fundamental que explica a evolução do formato de experimento marginal para um mercado multimilionário. Microdramas costumam ser tratados como uma “tendência global”, quando, na prática, o modelo de negócio é profundamente regional.
Hoje, apenas a Ásia, com destaque para a China e partes do Sudeste Asiático, opera os microdramas como um sistema completo, integrando produção, distribuição, monetização e escala.
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Na China, o setor saiu de aproximadamente US$ 500 milhões em 2021 para mais de US$ 7 bilhões em receita em 2024. As projeções indicam que o mercado pode alcançar US$ 16,2 bilhões até 2030, segundo o The Guardian.
Nos Estados Unidos, o Business Insider estima que os microdramas tenham gerado cerca de US$ 1,3 bilhão em 2025, majoritariamente via pagamentos diretos, como assinaturas e desbloqueio de episódios. A Variety projeta que a categoria pode atingir cerca de US$ 26 bilhões em receita anual até 2030.
Os números astronômicos sustentam a comparação feita por Lehner: trata-se de um mercado equivalente a alguns segmentos de nicho do streaming, com uma taxa de crescimento significativamente superior.
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O analista Hernan Lopez observou que o setor parece estar “descobrindo” os microdramas como um “novo continente.” E a sequência de movimentos registrada apenas nas primeiras semanas de 2026 corrobora essa leitura.
Há uma semana, a Fox Entertainment anunciou um acordo com a Dhar Mann Studios para a produção de 40 títulos verticais guiados por narrativa para o My Drama. Os conteúdos terão janela de exclusividade tanto no aplicativo quanto nas plataformas da Fox Entertainment Global.
Dois dias antes, o Deadline revelou que The Lodger: A Story of the London Fog, filme mudo de Alfred Hitchcock lançado em 1927, tornou-se possivelmente o primeiro clássico reinterpretado integralmente como microdrama. O título já está disponível nos Estados Unidos no aplicativo britânico Tattle TV, em formato vertical. A empresa descreve o projeto como um dos primeiros casos conhecidos de um filme clássico totalmente redesenhado para consumo mobile-first.
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No dia 21, a coluna Outro Canal informou que a Globo prepara o lançamento de uma plataforma de vídeos curtos para competir diretamente com TikTok e Kwai. Internamente chamada de Globopop, a iniciativa deve combinar vídeos virais e conteúdo original, com destaque para novelas verticais, formato que passou a ser tratado como estratégico dentro do grupo.
Duas semanas antes, insiders identificaram que o TikTok lançou discretamente nos EUA e Brasil o PineDrama, um aplicativo independente de microdramas. A jogada segue o playbook padrão da ByteDance: identificar um comportamento de consumo compulsivo (neste caso, a narrativa vertical serializada) e transformá-lo em um novo canal de receita.
O efeito cascata dessas iniciativas reforça a premissa de Lehner. O crescimento dos microdramas não representa tempo de tela adicional. O formato está, sobretudo, capturando a atenção dedicada a outros conteúdos de curta duração. Ou seja, competem com vídeos curtos, e não com a TV tradicional.
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O boom dos microdramas aponta menos para apostas isoladas e mais para a construção de sistemas industriais capazes de produzir conteúdo de forma contínua, com escala, eficiência e distribuição ampla, como já acontece na Ásia.
A armadilha da monetização: quem fica com o dinheiro?
O PineDrama foi lançado sem alarde no fim de dezembro. Os assinantes do Global Short Drama Index receberam esta história muito antes de qualquer cobertura da imprensa, como revelou Lopez. A interface replica o feed vertical do TikTok e reúne séries produzidas por estúdios como ShortMax, FlareFlow, Sereal+ e outros. A maioria dos títulos é estrelada por atores americanos.
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O questionamento levantado por Lopez está no modelo. O PineDrama se apresenta como livre de anúncios e, até agora, não impõe paywalls ou assinaturas. Isso desloca imediatamente a discussão para duas perguntas: onde está a monetização e quem captura o valor gerado?
Como observou Lehner, a estrutura de mercado é determinante. O fluxo de receita tende a se concentrar nas plataformas, e não nos produtores independentes.
Nesse ecossistema, produção e rentabilidade raramente caminham juntas. A plataforma detém o controle do público e dos mecanismos de monetização, não os criadores.
Outro entrave recorrente apontado pela analista é a dificuldade de monetização direta fora desses aplicativos. Criadores relatam limitações tanto na receita publicitária quanto em pagamentos diretos.
Em um fórum do Reddit de três meses atrás, citado por Lehner, usuários discutiam alternativas emergentes. Marcas começam a pagar por inserções em arcos narrativos curtos, percebidos como mais orgânicos do que anúncios tradicionais. Alguns criadores vendem pacotes episódicos em plataformas como Patreon ou Ko-fi. Outros usam curtas narrativos como porta de entrada para conteúdos mais longos no YouTube, onde o AdSense ainda sustenta o modelo.
A narrativa serializada, portanto, deixar de ser apenas um formato criativo para se consolidar como um modelo de negócios fragmentado e adaptativo, no qual o valor é capturado fora das paredes do aplicativo que hospeda o conteúdo.
Nas palavras de Lopez, se o PineDrama tiver sucesso, não será por entregar uma televisão melhor, mas por transformar a narrativa em hábito recorrente, mensurável e monetizável em escala.