Recentemente participei do lançamento do Brazil Tokenization Report 2025 e fiquei surpreso com o tamanho do público. Empresários, investidores, reguladores e influenciadores lotaram o evento para discutir um tema ainda pouco compreendido.
Cheguei um pouco atrasado no evento, sentei-me na frente e reconheci poucas faces conhecidas, o que me deixou mais confortável. A verdade é que eu entendia pouco sobre tokenização, e ouvir executivos de empresas como Polygon, Ripple e Crown, nomes que nunca havia ouvido, despertou em mim uma mistura de ansiedade e curiosidade.
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Tokenização é o processo de converter direitos sobre um ativo real (imóvel, debênture, obra de arte) ou financeiro (fundo, crediário) em unidades digitais, ou Tokens, que residem em uma infraestrutura de registro digital, como blockchain ou ledger distribuído. Esses tokens permitem participação fracionada, negociação mais ágil e potencial liquidez ampliada
Saí do evento convencido de que estamos vivendo uma nova onda tecnológica e que precisamos estar preparados. Nos últimos anos, o mercado financeiro brasileiro passou por uma verdadeira revolução digital. Pix, Open Finance, ativos digitais e fundos tokenizados deixaram de ser tendências distantes e se tornaram parte concreta do dia a dia das instituições financeiras. Em 2025, esse movimento atinge um novo patamar com a consolidação do mercado de tokenização de ativos.
- O papel do assessor de investimentos
- Cuidados e riscos
- Token vs Cripto: qual a diferença?
- Números do mercado de Tokenização
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O papel do assessor de investimentos
Para o assessor, compreender a tokenização é transformar complexidade em oportunidade. Isso exige capacitação técnica, acompanhamento constante da evolução regulatória e domínio dos casos de uso que já estão surgindo no Brasil. O tema abre portas para novas classes de ativos, maior liquidez e personalização de portfólios, mas também demanda que o profissional eduque o cliente, apresentando benefícios e riscos com clareza. Nesse contexto, o assessor passa a atuar como ponte entre o investidor e esse novo mercado.
O impacto da tokenização na atividade do assessor é profundo. Não basta conhecer o conceito — é essencial entender sua aplicação prática, suas implicações regulatórias e a forma como esse mercado está sendo estruturado. A tokenização expande as oportunidades de diversificação, dá acesso a ativos antes restritos e pode trazer liquidez diferenciada. Ao mesmo tempo, exige rigor na análise de riscos, incluindo possíveis limitações de liquidez, incertezas tributárias e desafios de interoperabilidade tecnológica.
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O papel do assessor evolui, deixando de ser apenas orientador financeiro tradicional para assumir uma função também educativa e de facilitação. Cabe a ele traduzir essa fronteira emergente dos investimentos, oferecendo entendimento, segurança e direcionamento estratégico para que o cliente navegue esse novo ecossistema com consciência e preparo.
A regulação, antes vista como entrave, deixa de ser o foco principal. O desafio agora é educação, engajamento o institucional e padronização.
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Cuidados e riscos
Para o assessor
- Due diligence do ativo: Verificar lastro, documentação, contratos e auditorias externas do token;
- Regulação e compliance: Confirmar enquadramento jurídico, registro ou dispensa de registro e governança da plataforma;
- Adequação ao cliente: Avaliar perfil de risco, liquidez e tributação, garantindo que o cliente compreenda os riscos e oportunidades;
- Transparência e comunicação: Fornecer documentação completa, esclarecer direitos e deveres, e alertar sobre riscos específicos, como interoperabilidade ou liquidez limitada;
- Monitoramento pós-venda: Acompanhar performance, manter registros detalhados e atualizar-se sobre alterações regulatórias;
Para o investidor final
- Entender o token: Compreender se representa propriedade, dívida ou utilitário, e quais direitos jurídicos estão incluídos;
- Avaliar liquidez: Certificar-se de que há mercado secundário e compreender possíveis restrições de resgate ou lock-up;
- Risco regulatório e tributário: Considerar que regras podem mudar, impactando tributação e proteção legal;
- Custódia e segurança tecnológica: Verificar confiabilidade da plataforma, auditoria de contratos inteligentes e proteção de ativos digitais;
- Consciência de inovação: Reconhecer que tokens são produtos emergentes, com potencial de valorização, mas também sujeitos a falhas tecnológicas ou estruturais.
Apesar de muitos confundirem tokens com criptoativos, há diferenças importantes. Criptoativos geralmente não possuem lastro em ativos reais, enquanto tokens de ativos reais têm suporte jurídico, contratos e garantias. Essa distinção é crucial para que o assessor de investimentos consiga explicar ao cliente que a tokenização representa investimentos concretos, e não apenas ativos digitais especulativos.
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Token vs Cripto: qual a diferença?
A ambiguidade entre os dois impede que muitos investidores vejam a tokenização como investimento em ativos reais — e esse é o ponto que o assessor precisa esclarecer.
- Criptoativos: ativos nativos de blockchain, como moedas ou tokens sem lastro físico.
- Tokens de ativos reais (RWA Tokens): têm lastro em algo concreto, com regras jurídicas, contratos e garantias.
Números do mercado de Tokenização
Globalmente, o mercado de ativos tokenizados era estimado em cerca de 865 bilhões de dólares em 2024, com projeção de alcançar 1,24 trilhão em 2025, de acordo com dados do Brazil Tokenization Report 2025. Até 2030, alguns relatórios indicam que esse valor pode ultrapassar 10 trilhões de dólares. As categorias que mais impulsionam esse crescimento são os ativos do mundo real, como imóveis, crédito privado, debêntures e arte.
O relatório indica que o Brasil atingiu um ponto de inflexão: a tokenização não é mais um experimento, mas uma realidade em expansão.
Liquidez ainda é um desafio: muitos tokens existem, mas poucos são negociados ativamente no secundário.
Dimensões
- Brasil ultrapassou US$ 1 bilhão em ativos tokenizados em 2025, líder na América Latina;
- Mercado gerou US$ 98,5 milhões em receita em 2024, projeção de US$ 392,4 milhões até 2030, CAGR ~21,7%;
- Mais de 100 empresas atuam no ecossistema — de fintechs a bancos e securitizadoras;
- 70% dos fundos de venture capital investem em projetos ligados a ativos digitais, com mais de US$ 100 milhões alocados;
- Adoção tecnológica: empresas brasileiras adotam tokenização 56% acima da média global, segundo a Adyen.
Convergência
- Tecnologia blockchain amadurecida;
- Regulação em estágio avançado (CVM e Bacen);
- Instituições financeiras aderindo à plataformas de tokenização;
- Modelos de negócio sustentáveis emergindo em crédito, real estate e recebíveis.
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Vetores tecnológicos e de mercado
- Stablecoins lastreadas em reais (BRZ, BRLA, BBRL) ganham destaque como infraestrutura para RWA no Brasil:
- Integração da tokenização com o Pix: diferencial competitivo brasileiro:
- Benefícios para usuários institucionais: customização e redução de custos operacionais (75% dos distribuidores apontam vantagens).
Casos de uso
- Crédito e recebíveis: R$ 1,7 bilhão tokenizados em crédito privado, debêntures e recebíveis, com liquidação via blockchain;
- Imóveis tokenizados: frações digitais movimentaram R$ 15 bilhões em 2024. Tokens representam direitos econômicos, não titularidade registral;
- Stablecoins e infraestrutura: base para integração com pagamentos via Pix.
Tipos de tokens
- Equity tokens: representam participação em um ativo (ex.: imóvel tokenizado).
- Debt tokens: representam títulos de crédito (ex.: debênture tokenizada).
- Tokens híbridos/utilitários: acesso a serviços ou fluxos futuros, comuns em fintechs.
Desafios
- Interoperabilidade entre blockchains e padronização de contratos inteligentes.
- Educação financeira e institucional sobre tokenização.
- Tributação: necessidade de atualização da Receita Federal para ativos tokenizados.
As opiniões contidas nesse artigo não refletem necessariamente as opiniões da ABAI, ficando ao autor a sua responsabilidade