Sinais de esgotamento no ciclo de poder do PSDB em SP

Temos espaço para a reprodução da polarização nacional entre o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) no Estado tendo Haddad e Tarcísio como protagonistas

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O PSDB possui a hegemonia mais longeva do país em governos estaduais. Os tucanos comandam o Palácio dos Bandeirantes há 27 anos, mas terão em outubro a mais difícil eleição no Estado de São Paulo (SP), sua principal vitrine política, neste período histórico. Pesa contra o PSDB o desgaste do governador de SP, João Doria, e a divisão interna no partido, que vem se acentuando, atingindo também o vice-governador Rodrigo Garcia, que deve ser o candidato tucano a governador de SP.

Desde as eleições de 1994, foram sete vitórias consecutivas do PSDB no Estado. Em 1994 e 1998, Mario Covas foi eleito e reeleito governador. Em 2002, Geraldo Alckmin, na época filiado ao PSDB, e que assumiu o cargo após a morte de Covas, foi reeleito. No pleito seguinte, em 2006, quem venceu foi José Serra. Em 2010 e 2014, Alckmin foi eleito e reeleito governador. E em 2018, coube a João Doria preservar a hegemonia do partido no maior colégio eleitoral do país.

Embora o PSDB tenha surgido de uma dissidência do então PMDB, durante a Assembleia Nacional Constituinte, em 1988, vale recordar que, antes de 1994, os governadores paulistas eleitos – Franco Montoro (1982), Orestes Quércia (1986) e Luiz Antônio Fleury (1990) – eram do PMDB. Em 82 e 86, o que posteriormente seria o PSDB, fazia parte do PMDB. E mesmo nas eleições de 90, apesar do PSDB já ter apresentado Covas como candidato, o vice de Fleury era Aloysio Nunes Ferreira, que posteriormente ingressaria no PSDB. Como a origem do PSDB é o PMDB, podemos considerar que o mesmo grupo político está no poder em SP desde 1982.

Porém, essa hegemonia do PSDB em SP está ameaçada. Segundo a recente pesquisa do instituto Ipespe sobre a disputa ao Palácio dos Bandeirantes, embora o pré-candidato do PSDB, o vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB), seja desconhecido de 44% dos paulistas e tenha espaço para crescer, pois o governo João Doria (PSDB) tem uma avaliação positiva de 24%, Garcia aparece hoje com percentuais de intenção de voto nos cenários estimulados que variam de 3% a 7%. Na menção espontânea, Garcia tem apenas 1%. E quando o vice-governador é associado a Doria, atinge apenas 10%.

De acordo com o Ipespe, quem lidera os cenários testados pelo instituto são o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) e os ex-governadores Geraldo Alckmin (Sem partido) e Márcio França (PSB), que negociam uma aliança que passa pela escolha de Alckmin como vice de Lula, podendo unir Haddad, Alckmin, França e Lula também em SP. Já no campo da direita, temos a pré-candidatura do ministro de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas (Sem partido), que possui um potencial de crescimento ancorado na força do bolsonarismo. Para efeito de comparação, se associação de Rodrigo Garcia com João Doria eleva a intenção de voto no vice-governador para apenas 10%, Haddad – associado a Alckmin e Lula – saldo para 38%. E Tarcísio, associado a Bolsonaro, cresce para 25%.

Conforme podemos observar, temos espaço para a reprodução da polarização nacional entre o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) no Estado tendo Haddad e Tarcísio como protagonistas. Aliás, embora a discussão da eleição em SP tenha as questões estaduais na pauta, será inevitável a nacionalização do debate. Não apenas pela força política e econômica de SP, mas porque o PT enxerga que Alckmin pode funcionar como avalista da possível candidatura de Haddad junto ao eleitor que rejeita o PT. Por conta dessa estratégia, naturalmente, o ex-governador terá um peso na eleição paulista, e sendo o vice de Lula, o debate será nacionalizado.

Ainda no tema da questão nacional, um problema para o PSDB é a falta de competitividade que João Doria – o pré-candidato tucano ao Palácio do Planalto – possui nas pesquisas. Doria tem hoje menos de dois dígitos nas sondagens. Na pesquisa Ipespe realizada em SP, Doria obteve apenas 5%, percentual muito baixo se considerarmos que o governador teve uma grande visibilidade ao liderar a defesa da campanha da vacinação contra a Covid-19 – através da aposta que fez na Coronavac, sendo batizado por seus aliados de “João vacinador” – e também nas prévias do PSDB, que o escolheram como pré-candidato ao Planalto. Outro aspecto importante também pesa contra Doria: nem mesmo no Estado onde ele é mais conhecido, o governador consegue se mostrar competitivo na sucessão presidencial.

Assim como ocorreu em 2018 com a campanha de João Doria em SP, Rodrigo Garcia poderá não dispor de um presidenciável de seu partido para vincular sua campanha. Aliás, em 2018, por conta do fraco desempenho de Geraldo Alckmin na eleição presidencial, Doria acabou abraçando a bandeira do “bolsodoria”, principalmente no segundo turno. Doria conseguiu se eleger, porém, o PSDB correu o sério risco de perder SP, já que a vitória de Doria foi apertada contra o então governador Márcio França (PSB) foi apertada: 51,75% a 48,25% dos votos válidos.

Outro dado importante e que reforça a perda de capital político do PSDB em SP foi o resultado do primeiro turno da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes em 2018. Naquela disputa, Doria obteve 31,77% dos votos válidos. Embora tenha ficado em primeiro lugar, sua votação foi 25,34 pontos percentuais abaixo da obtida por Alckmin em 2014 (57,31%), quando ele foi reeleito. Mais do que isso, em 2018, o PSDB teve que disputar o segundo turno em SP, o que não ocorreria desde 2002, já que Serra (2006) e Alckmin (2010 e 2014) venceram em primeiro turno.

Vale recordar ainda que, em 94 e 98, Covas teve FHC como cabo eleitoral na disputa presidencial. Em 2002, Alckmin se associou a Serra. Em 2006, Serra – candidato a governador – se vinculou a Alckmin, que concorreu ao Planalto. Em 2010, a parceria se inverteu. O candidato do PSDB a governador foi Alckmin e o candidato tucano a presidente foi Serra. E em 2014, Alckmin disputou à reeleição e fez campanha para Aécio Neves. Em campanhas que acabam sendo nacionalizadas, não contar com um presidenciável competitivo se torna uma fragilidade para o candidato a governador. Não foi por acaso que Doria “abandonou” Alckmin em 2018 e trabalhou para Bolsonaro, principalmente no segundo turno.

Há ainda outras variáveis que pesam contra o PSDB e, consequentemente, a pré-candidatura de Rodrigo Garcia: 1) o desgaste natural do partido após um longo ciclo no poder; 2) a rejeição pessoal de Doria – dificilmente Garcia conseguirá se desvincular do governador; e 3) o PSDB paulista está muito dividido. Além de setores do partido aguardarem Alckmin definir seu futuro partidário para acompanhar o projeto político do ex-governador, principalmente os prefeitos do interior de SP próximos a ele, parte dos tucanos no Estado que apoiaram o governador do Rio Grande do Sul (RS), Eduardo Leite (PSDB), nas prévias podem migrar para o PSD caso Leite troque de partido para concorrer ao Planalto, enfraquecendo ainda mais a estrutura do PSDB paulista.

Em que pese todos esses obstáculos, não devemos descartar a possibilidade de Rodrigo Garcia – e o PSDB – se recuperarem dos baixos índices de intenção de voto nas pesquisas, principalmente porque, de acordo com o Ipespe, temos mais de 1/3 do eleitorado paulista ainda sem candidato, e Garcia deve ter o controle da máquina a partir de abril, tendo instrumentos de poder para construir uma aliança competitiva.

Outro aspecto que não deve ser descartado é uma eventual desistência de João Doria do projeto presidencial caso seu desempenho nas pesquisas continue abaixo do esperado, principalmente em SP. Neste caso, o que faria Doria: concorreria à reeleição? disputaria o Senado? ou não seria candidato a nada? Estas são variáveis que surgirão no tabuleiro caso o governador não concorra ao Palácio do Planalto.
Faltando cerca de oito meses para as eleições, temos fortes indícios que a disputa de outubro pelo Palácio dos Bandeirantes poderá marcar o fim de um ciclo político que já dura 27 anos. Se considerarmos que o PSDB surgiu de uma dissidência do PMDB, essa hegemonia vigora há 40 anos.

Assim, poderemos assistir em SP uma eleição histórica, afinal de contas pode estar em curso a transição de um ciclo histórico de poder. Um dos sinais dessa ruptura de ciclo é a aproximação cada vez mais forte de Geraldo Alckmin, e outros tucanos históricos, com Lula, e o possível desembarque de aliados paulistas de Leite do PSDB. Neste cenário, para quem trabalhará os chamados históricos do PSDB em SP? Ao que tudo indica não será para Garcia, que foi trazido pelo partido por Doria, que apesar de ser o grande nome nacional da legenda após ter vencido as prévias do partido, tem fortes resistências entre os chamados “cabeças brancas”.

Neste cenário, parte dos históricos do PSDB podem seguir Alckmin e encorpar a frente de unidade nacional almeja em torno de Lula, Alckmin, Haddad e Márcio França, o que seria eleitoralmente muito forte em SP. De outro lado, poderemos ter, após muitos anos, uma direita competitiva com Tarcísio. Embora o bolsonarismo represente no país a chamada “nova direita”, há características nesse movimento que remetem a políticos conservadores do passado recente da política paulista como os ex-governadores Adhemar de Barros, Jânio Quadros e Paulo Maluf.

Embora ainda falte oito meses para as eleições, temos pleitos que apontam em direção a quebra de ciclos históricos, marcando transições de poder. E este pode ser o caso de SP nesta eleição.

Carlos Eduardo Borenstein

Cientista político formado pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA-RS). É analista político da Arko Advice Pesquisas desde 2006 e consultor político e de marketing eleitoral pela Associação Brasileira dos Consultores Políticos (ABCOP). Possui MBA em Marketing Político, Comunicação e Planejamento Estratégico de Campanhas Eleitorais pela Universidade Cândido Mendes.

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