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Rússia versus Ucrânia: um imbróglio em que a China finge ser neutra

A pretensa ambiguidade de Beijing com um leve viés pró-Kremlin busca minimizar a hegemonia dos EUA no tabuleiro geopolítico e já costurar uma aliança comercial com a Rússia em um conflito com Taiwan

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Quase, mas ainda não. Mesmo por um momento desconsiderando o choque de oferta advindo da guerra da Rússia com a Ucrânia, o mundo parecia respirar um pouco mais aliviado com o fim da pandemia de Covid-19. Pois é. Mas não parece ser o que está acontecendo na China.

Talvez o Partido Comunista da China tenha uma agenda muito restrita ao defender o “COVID Zero”, tentando eliminar por completo o vírus do país. Exagero. De qualquer forma, o fato é que a transmissibilidade da nova variante Ômicron parece ter aumentado os casos na China assustadoramente, para os padrões almejados pelo governo chinês. Por favor, perdoem a opinião de um economista sobre vírus!

O outbreak de um novo surto de Covid no país asiático tem levado o governo a decretar lockdowns draconianos e testagens ad nauseam, prejudicando novamente o fluxo e o bom andamento da cadeia de suprimentos que abastece o mundo.

Províncias e cidades como Jilin (Nordeste da China), Shenzhen, no sul, têm prejudicado a produção chinesa de vários componentes e levado empresas como Toyota, Foxconn, Apple, Samsung, Volkswagen, Tesla e tantas outras serem afetadas não apenas com os lockdowns, mas com o atraso no trânsito de caminhões pela estrada e a enorme quantidade de navios cargueiros estacionados nos portos de Shanghai, esperando para que os profissionais sejam testados.

A projeção do PC da China é de um crescimento de 5,5% em 2022, depois de crescer 8,1% em 2021. Mas agora, com um novo surto de Covid, talvez nem 5% de crescimento econômico possa ser atingido.

Mais do que isso, tendo a China como um polo extremamente relevante como parte de uma cadeia mundial de suprimentos, esses lockdowns e paralisações apenas intensificam os choques de oferta que o mundo vem testemunhando com a guerra da Rússia, o que provavelmente afetará mais ainda as expectativas inflacionárias do mundo e as respostas das autoridades monetárias.

Não bastasse esses movimentos, o gigante asiático está promovendo restrições a diversos setores.

Afinal, por que será que a China tem conduzido um crackdown nas empresas de “tutorials” e de tecnologia?

De 1979 a 2016, a China vivia sob a orientação de “one child policy”. Obviamente, isso não queria dizer que seria proibido se uma família local quisesse ter três ou quatro filhos. Longe disso. Mas o governo tinha como política oferecer assistência social, médica apenas para um único filho. Dessa forma, famílias chinesas mais abastadas e que não precisavam contar com a ajuda do governo para criar seus filhos, pouco se preocupavam em ter mais de um ou dois filhos.

Como escrevemos em artigo do InfoMoney, em 2016 o PCChinês percebeu que a população crescia à média de 0,5% ao ano nos últimos 10 anos, e que a taxa de fecundidade havia caído para 1,3 filho por mulher em idade fértil, considerado bem abaixo do limiar para renovação de gerações. De tal sorte, que o PCChinês passou a oferecer assistência ao segundo filho naqueles anos e, em 2022, ao terceiro filho.

Mas o que isso tem a ver com o crackdown (repressão) dos tutorials ou semelhante aos cursinhos para vestibular no Brasil (que, no caso da China, são denominados de Gaokao, ou como no Brasil, Enem)?

O fato é que esses tutorials, bem como o costume de um casal de cuidar financeiramente de seus pais, tornou-se um fardo financeiro extremamente pesado para as famílias chinesas. Tentando diminuir o peso financeiro que esses tutorials impetravam no orçamento das famílias, Xi Jinping estabeleceu uma diretriz em que esses tutorials não poderão ser lucrativos.

Em princípio, parece ser uma notícia simpática para os pais. Mas como reter professores qualificados, se o lucro passa a não ser mais maximizado por essas empresas? Risco enorme de que se desenvolva um mercado paralelo de tutorials na China.

E as empresas de tecnologia como Alibaba, ByteDance (TikTok), etc?

Novamente, parece que a política intervencionista de Xi Jinping tende a não parar apenas nos tutorials, mas também em algumas empresas de tecnologia. Nesse caso o motivo é diferente.

Aparentemente, o Partido Comunista da China entende que gastar dinheiro e recursos humanos em empresas de consumer internet, ao invés de alocá-los em empresas de inteligência artificial e tecnologia hardware, não parece ser a melhor estratégia econômica e principalmente geopolítica, posto que as novas conquistas tecnológicas logram colocar países bem a frente em suas vantagens comparativas.

Falando em geopolítica: por que a China esta se enviesando em direção à Rússia?

A princípio, parece que a China adota uma enorme ambiguidade em relação à guerra entre Rússia e Ucrânia. Ao mesmo tempo que evita mencionar guerra e invasão, clama por paz e estabilidade na região.

Notadamente, a China está em uma situação extremamente delicada. Não pode se jogar completamente nos braços de Putin, tampouco pode repudiar veemente a invasão russa, como pleiteado pela Casa Branca. A China compra pelo menos 70% do petróleo que utiliza da Rússia e 40% do gás natural. Contudo, essa razão econômica não parece ser a principal, mas sim os planos de Xi Jinping para Taiwan.

Vejamos:

Se levarmos em consideração os discursos de Putin sobre a Ucrânia e a expansão da Otan em direção ao leste europeu, notamos uma semelhança assustadora.

  • Em 2007, Putin em um discurso em Munique disse que a expansão da OTAN no Leste Europeu era uma provocação séria;
  • Em 2008, disse a George W. Bush que não considerava Ucrânia um país;
  • Em 2008 invadiu a Georgia;
  • Em 2014 anexou a Criméia;
  • No verão passado, Putin disse que ucranianos estavam em territórios historicamente russos. Além disso, ele geralmente descrevia russos e ucranianos como um único povo;
  • Em 2022 invade a Ucrânia e Putin se mostra surpreso com a surpresa do ocidente.

Em Beijing:

  • Em 2013, Xi Jinping disse que o assunto de Taiwan não poderia durar indefinidamente;
  • Em 2015, Xi estressou a solidariedade étnica entre Taiwan e a China Continental;
  • Em 2019, XI disse que a unificação com Taiwan seria a grande tendência inexorável da história. Entretanto, não disse nada sobre unificação pacífica;
  • No mesmo discurso, Xi disse que não prometia o abandono da utilização da força para a unificação;
  • Em Hong Kong, mostrou sua força e intransigência fazendo com que o então território autônomo estabelecesse um comitê que tem poder de veto de candidaturas que não forem consideras patrióticas. Na prática elimina a possibilidade de democracia em Hong Kong;
  • Estabelece campos de concentração em Xinjiang revelando um regime imune a uma condenação global.

Difícil não antecipar os interesses de Xi Jinping em anexar Taiwan. Em que pese as diferenças entre ambas as situações, Ucrânia e Taiwan, há de se levar em consideração também como a China está avaliando as sanções impostas pelo Ocidente.

A pretensa ambiguidade de Beijing com um leve viés pró-Kremlin busca minimizar a hegemonia dos EUA no tabuleiro geopolítico e já costurar uma aliança comercial com a Rússia em um conflito com Taiwan. Novamente, talvez Xi Jinping reconsidere seus ímpetos expansionistas. A China é maior e mais importante que a Rússia no tabuleiro geopolítico, comercial e financeiro, mas urge ressaltar que o Ocidente comece a diversificar suas cadeias de suprimento para outros países com vantagens comparativas semelhantes.

Isso para não serem pegos de surpresa como o ocorrido na atual guerra Rússia e Ucrânia e ainda evitar os constante lockdows causados pela política Covid Zero e os crackdowns de empresas de tecnologia e de outros segmentos econômicos.

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Roberto Dumas Damas

Roberto Dumas Damas é economista-chefe do Voiter e representou o Itaú BBA em Xangai de 2007 a 2011. Em 2017, atuou no banco dos BRICs em Xangai. Dumas é mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra, mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China), além de professor de MBA e pós graduação do Insper e da FIA e professor convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China)

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