Rússia versus o mundo: quais são os impactos para a economia global?

O impacto de tantas sanções será pesadíssimo para a economia do país, mas gerando efeito para outros países; acordo dos EUA com Irã também está sendo afetado, enquanto americanos buscam aproximação com a Venezuela

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Fonte: Getty Images

O mundo vem assistindo petrificado o que está acontecendo entre a Rússia e a Ucrânia. Claro que os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e o Ocidente responderam à invasão russa na Ucrânia com várias sanções econômicas, banindo o Banco Central da Rússia do SWIFT (uma espécie de e-mail para transações financeiras que envia e recebe pagamentos entre bancos), assim como bancos russos chaves. Além disso, houve a saída de várias empresas internacionais da Rússia.

O impacto disso será pesadíssimo para a economia do país, pois suas reservas internacionais – de US$ 630 bilhões, investidas em títulos públicos dos EUA, da União Europeia, nações da zona do Euro, Japão, Canadá e outros países  – foram bloqueadas para serem utilizadas domesticamente.

Daí a corrida para trocar rublos por dólares. Sabendo que o Banco Central da Rússia não terá condições de defender sua moeda sob um ataque especulativo, esse mesmo ataque especulativo acaba ocorrendo (“fulfilling the prophecy”).

Sem reservas internacionais suficientes para atender a demanda por dólares da população pelas pessoas físicas e corporações, a autoridade monetária russa subiu sua taxa de juro básica de 9,5% para 20%, adotando ainda restrições à movimentação de capitais. Pouco adiantou, uma vez que o rublo russo já depreciou mais de 40% desde o início da guerra. Crise cambial.

Mas como uma crise cambial pode acabar também impactando o segmento corporativo russo? Ora, dada a globalização financeira, é bem provável que um grande número de empresas localizadas na Rússia, estrangeiras ou domésticas, estejam com passivos em dólares sem hedge cambial. Com a depreciação cambial, muitos já devem estar com o patrimônio líquido negativo (PL) o com uma relação dívida/PL próximo da insolvência. Crise corporativa.

Como bancos locais também devem ter seus passivos em dólares “unhedged”, a situação desses bancos será semelhante à situação do segmento corporativo. Some-se a isso, o fato de que esses mesmos bancos provavelmente ainda terão de arcar com um nível bem elevando dívidas podres em seus balanços. Crise bancária.

O sistema bancário de uma nação não pode e nem deve ser comparado a um segmento corporativo. Óbvio que ninguém advoga dar vida eterna a bancos “zumbis”, mas deixar todo o sistema bancário colapsar suscitaria um colapso total das empresas, dos depositantes e da economia. Daí a grande probabilidade do “step in” do governo, ajudando os bancos a se manterem líquidos com enormes aportes de recursos e aumento da dívida púbica, tornando-a insustentável, posto que o custo de carregamento real da dívida deverá ser maior que o crescimento (na realidade, declínio) do PIB russo. Crise da dívida pública.

Se usarmos a premissa bastante razoável de que poucos poupadores irão comprar títulos públicos russos, mas assumindo que a máquina estatal não pare, é bem provável que o relacionamento promíscuo entre tesouro e Banco Central da Rússia rolará solto, com mais impressões de Rublo. Crise inflacionária.

Essas sanções e essas crises devem acelerar a queda da Rússia como potência (estado em declínio) no médio prazo, mas não podemos esquecer que o país conta com um enorme arsenal nuclear. Além disso, seu líder é, como definido pela ex-chanceler alemã, Ângela Merkel, alguém com pensamento no século XIX agindo no século XXI. Ele tem um expansionismo territorial czarista incabível em mundo globalizado e interconectado por cadeias globais de suprimento.

Porém, ainda ditador e com as mãos em arsenal atômico, que pode colocar o mundo em uma nova grande guerra. Enfim, uma fera obstinada e encurralada. Independentemente do que o Ocidente pensa sobre culpabilidade e justiça, aparentemente torna-se crucial que o mundo apresente uma saída no mínimo honrosa para Putin após essa invasão desastrosa na Ucrânia.

Isso pois um líder que tem seus exércitos alvejando abertamente a quinta maior usina nuclear do mundo e a maior da Europa, a usina de Zaporizhzhia, não parece estar blefando quanto aos seus ímpetos atômicos.

Sem dúvida, Vladmir Putin está aumentando o tom de suas ameaças, afirmando serem declarações de guerra as sanções impostas pelo Ocidente e que impor uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia teria consequências catastróficas para a Europa e o mundo.

Essa última nos parece ser, com toda a licença humanitária, de acordo com o tratado da OTAN, razoável. Se o Ocidente impuser na Ucrânia uma zona de exclusão aérea, o que aconteceria se um avião de combate russo desrespeitasse essa zona? Os países membros da OTAN reagiriam entrando formalmente na guerra enviando tropas para a Ucrânia? Isso seria uma declaração de guerra mundial.

A despeito de alguns protestos observados na Rússia contra a guerra na Ucrânia, o país vive sob uma lei marcial. Sem independência da imprensa, não podendo mencionar os termos “guerra” ou “invasão”, sob pena de 15 anos de pressão.

Trata-se de uma operação militar especial para “desnazificar” e libertar a Ucrânia, segundo o Kremlin. Obviamente que Putin está tentando imbuir um processo de vitimização da Rússia, tentando implantar na cabeça de seus residentes que o Ocidente esta em um momento de “Russofobia”. O movimento é na esperança de inverter a narrativa da guerra e culpar o Ocidente pela falta de produtos na economia russa e os apertos monetários sofridos por ela.

a. Impactos na economia mundial

Podemos apontar de forma sucinta os seguintes na economia mundial:

a.1. Tende a agravar os problemas logísticos (transportes marítimos) e as cadeias de suprimento que estavam em recuperação pós-choque de oferta advindos da pandemia;

a.2. Já estamos percebendo um aumento no preço de commodities agrícolas e energéticas, o que deve impactar na inflação de alimentos e de energia. Essa inflação tende a afetar as camadas mais pobres dada a cesta de bens e serviços dessa classe econômica. Se as classes de menor poder aquisitivo tendem a ser mais afetadas com menor renda, dada maior inflação de alimento e energia, o consumo tende a diminuir. Esta classe de consumidor é a que tem a maior propensão marginal a consumir. Quanto menor renda, maior o multiplicador keynesiano, o que levaria a um impacto mais contracionista na economia;

a.3. Com maior inflação mundial, provavelmente as autoridades monetárias deverão aumentar ainda mais as taxas de juros, o que no curto prazo tende a afetar o crescimento mundial;

a.4. Certamente prejudicará o ambiente de negócios mundial e a confiança dos agentes econômicos. Se não sabemos até quando a guerra perdurará, também não sabemos até quanto o preço dos fertilizantes, petróleo, gás natural, grãos, alimentos e taxa de juros deverão ser impactados, o que poderá ocasionar um cenário de incerteza, paralisando o interesse por pesados investimentos na economia e consumo doméstico.

b. Acordo nuclear com o Irã deverá ser impactado

EUA, União Europeia e Rússia haviam chegado a um acordo nuclear com o Irã em 2015. Chamado de Joint Compreenshive Plan of Action (JCPOA), o acordo limitava a quantidade que o país poderia enriquecer seu urânio a 3,65%, além de obrigar a eliminação de 98% de suas reservas de urânio e reduzir em dois terços o número de centrifugadores de gás em 13 anos. Entretanto, o acordo foi rompido pelo então presidente dos EUA, Donald Trump em 2018, que reimpôs sanções ao país.

Os EUA, a União Europeia e a Rússia estavam quase fechando um novo acordo nuclear com o Irã, depois de 11 meses de negociação. Não obstante, com a imposição de sanções à Rússia pelo Ocidente, agora a Rússia exige, por escrito, que as sanções econômicas impostas não abrangerão as relações comerciais e financeiras entre este país e o Irã. Os países têm uma relação comercial intensa, em que o Irã vende urânio enriquecido para a Rússia em troca de concentrado de urânio (“yellowcake”).

A ironia disso tudo é que os EUA precisam desesperadamente desse acordo para derrubar as sanções impostas em 2019, e começar a importar petróleo da República Islâmica em mais de 1 milhão de barris por dia (mm/bd). Mas parece que agora Rússia resolveu chantagear o acordo, daí o preço do petróleo brent atingindo suas máximas em US$ 131 o barril (em 7 de março, chegando a encostar nos US$ 140 no intradia).

c. Uma pequena ajuda junto de los Hermanos de Venezuela. Agora são Hermanos?

Ciente de sua necessidade de novos embarques de barris de petróleo para os EUA, eis que Joe Biden envia diplomatas à Caracas para minar aliança da Venezuela com a Rússia e ao mesmo tempo tentar isolar a Rússia na América Latina.

Os EUA romperam relações diplomáticas com a Venezuela em 2019, depois de acusar Nicolás Maduro de fraude eleitoral. O então presidente dos EUA, Donald Trump, tentou derrubar o regime de Maduro, reconhecendo seu opositor Juan Gaidó como presidente do país, impondo sanções à Venezuela, banindo a compra de petróleo venezuelano, o que levou Nicolás Maduro a se aproximar mais ainda da Rússia, China e Irã. Os EUA tentam reverter isso. Nada como um bom tabuleiro geopolítico dinâmico.

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Roberto Dumas Damas

Roberto Dumas Damas é economista-chefe do Voiter e representou o Itaú BBA em Xangai de 2007 a 2011. Em 2017, atuou no banco dos BRICs em Xangai. Dumas é mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra, mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China), além de professor de MBA e pós graduação do Insper e da FIA e professor convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China)

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