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Imagine um clube de futebol como uma empresa. Agora, pense em uma empresa que, para pagar as contas no fim do mês, depende de prêmios de desempenho ou de uma grande venda pontual. Se ela não ganhar um bônus ou não conseguir fechar esse negócio, o caixa fica no vermelho. Se aquela base promissora não virar no profissional ou aquela aposta não for bem no Estadual, as contas apertam. Parece instável, não?! Pois essa é a realidade da maioria dos clubes brasileiros hoje.
Esse contexto fica nítido quando observamos uma diminuição de -5 pontos percentuais (82% em 2023 vs 77% em 2024) de 2023 para 2024 da penetração da receita recorrente, segundo o relatório Convocados 2025. Vale destacar que receita recorrente é todo e qualquer rendimento que o clube arrecada sem considerar negociações de atletas, visto que esse tipo de ganho é pontual e com baixa previsibilidade.
O Relatório Convocados 2025 mostrou a distância da geração de receita entre a Premier League e os clubes da Série A do Brasil, a liga brasileira arrecada hoje apenas 19% do que gera a liga inglesa. Entre os principais torneios europeus (Premier League, Bundesliga, Ligue One, Serie A Italiana e La Liga) o campeonato brasileiro do ponto de vista de geração de receita se aproxima da França, onde os clubes brasileiros têm 51% das receitas da Liga Francesa.
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Avaliando o montante arrecadado com receita não recorrente, a venda de atletas, representou a 2º maior fatia da receita dos clubes da série A, totalizando R$2,3 bilhões. Parece muito? Pode ser. Mas é uma receita que depende de timing, sorte, desempenho individual, interesse do mercado externo e até da cotação do euro. Não é algo que se possa contar como certo.
Premiações seguem a mesma lógica. Quem avança em torneios, fatura. Quem é eliminado cedo, amarga perdas. E essa dependência cria um ciclo vicioso: clubes gastam mais do que deveriam apostando no “vai que dá”, esperando recuperar tudo com um bom ano. Calculam o orçamento contando com possíveis finais – mesmo com poucas chances efetivas de chegar lá. E quando não dá, sobra dívida.
Em 2024, o Flamengo, por exemplo, arrecadou mais de R$1,2 bilhão em receita total. Mas o que chama atenção é que o clube com 94% desse valor em receita recorrente, foi o único bilionário. Isso quer dizer que, mesmo sem vender jogadores ou depender de premiações pontuais, o clube teria uma base sólida de sustento.
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Focar nas receitas que têm mais previsibilidade pode ser uma saída para mirar uma receita bem estruturada com crescimento previsto para os anos posteriores.
A receita com maior previsibilidade são as receitas recorrentes aquelas que entram mês após mês, independentemente do resultado em campo. São os sócios-torcedores que pagam frequentemente, os patrocínios de longa duração, os contratos de mídia estáveis, as receitas de bilheteria e até novas frentes digitais — como streaming próprio, licenciamento de conteúdo e venda direta de produtos.
Nesse modelo, o clube consegue respirar. Planejar. Investir com consciência. E, acima de tudo, sobreviver — mesmo quando o time não vai bem em campo.
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Exemplos que funcionam
Segundo o Relatório Convocados 2025, o top 4 das maiores torcidas de clubes brasileiros (Flamengo, Corinthians, São Paulo e Palmeiras) são aqueles que estão bem consolidados nessa frente de receita, muito por conta da sua fanbase de torcedores. Entretanto, os maiores saltos de 2023 para 2024 nessa linha de receita são clubes que conseguiram alcançar resultados satisfatórios nos indicadores que desbloqueiam receitas com produtos e serviços de monetização constante dos torcedores: taxa de ocupação, média de público e coeficiente de sócio-torcedor.
As três variáveis acima impactam diretamente a performance da bilheteria e do sócio-torcedor, oportunidades que ainda são pouco exploradas regularmente ou em projetos de médio / longo prazo na frente de negócio do matchday brasileiro. Embora representem uma fatia menor da receita recorrente em relação a direitos de TV e patrocínios, bilheteria e sócio-torcedor têm a vantagem de serem mais ágeis de alavancar. Essas frentes dependem de menos interlocutores e permitem ajustes estratégicos no curto prazo, ao contrário dos contratos de TV e patrocínio, normalmente longos e burocráticos.
Matchday é tudo aquilo que o clube fatura com o jogo acontecendo. Bilheteria, venda de bebidas, alimentação, estacionamento, produtos oficiais. E o principal motor disso é a presença do torcedor. Quanto mais gente no estádio, maior a receita. E quanto mais frequente for essa ida, mais previsível ela se torna.
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Com o avanço da tecnologia nas frentes de recorrência de cobrança, mapeamento do consumidor, comunicação junto ao fã, ferramentas de desbloqueio de recompensas e aprimoramento do acesso ao estádio, os clubes avançaram em projetos que premiam o torcedor assíduo ao esporádico e conhecimento vem aumentando a expectativa de receitas recorrentes ano pós ano.
Sócio-torcedor
Pilar poderoso nesse contexto que vem puxando a receita recorrente para cima é o sócio-torcedor. Em 2024, programas como o Avanti (Palmeiras), Sócio Tricolor (Grêmio), Sócio Internacional (Internacional), Sócio Futebol (Fluminense), Sócio Furacão (Athletico) e Sócio Gigante (Vasco) mostraram que a combinação entre benefícios reais, preço justo e engajamento digital pode transformar o torcedor comum em uma fonte constante de receita e mitigar o impacto dos resultados ruins dentro de campo, apresentando um impacto maior que a receita de bilheteria.
Clubes europeus, como o Real Madrid, Bayern e Benfica, além dos argentinos Boca Juniors e River Plate mostram benchmarks de monetização da paixão do torcedor recorrente com exemplos de memberships ou abonados que alcançam mais de 350 mil sócios-torcedores. Destaque para o Benfica que com Red Pass tem o equivalente a 73% da população de Lisboa e 4% da população de Portugal.
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O futebol brasileiro tem um potencial gigante. O amor da torcida, o talento dos atletas, as empresas endêmicas que estão chegando para somar a indústria do esporte com tecnologia e o tamanho das marcas dos clubes são ativos reais. Mas falta o principal: gestão sustentável. Depender da venda de jogador ou da vitória em campo para manter as luzes acesas é como jogar um campeonato inteiro com um único plano tático. Quando o adversário muda, não há como reagir.
Se queremos um futebol mais forte, competitivo e financeiramente saudável, precisamos construir modelos que não vacilem a cada eliminação. Que construam comunidades fortes, influentes e engajadas, tanto dentro como fora dos gramados, com transmissões de qualidade e produtos que criam vínculos.
E isso só acontece quando o clube entende que ganhar dinheiro todo mês é tão importante quanto ganhar o jogo no final de semana.