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Realizada em Miami, a Confut USA reuniu investidores, dirigentes, gestores e especialistas para discutir o presente e o futuro da indústria do futebol. A proposta era clara: fomentar o desenvolvimento do esporte com base nas boas práticas internacionais. Ao longo de dois dias de debates, ficou evidente que o futebol vive uma transição: deixar de ser apenas paixão para se consolidar como um ativo estratégico, financeiro e de engajamento em escala global.
Entre os destaques, os grupos multiclube (MCOs) foram protagonistas. Hoje, já são mais de 140 conglomerados que controlam cerca de 400 clubes ao redor do mundo. Com lógica corporativa, esses grupos operam a partir de sinergias técnicas, desenvolvimento compartilhado de talentos e estratégias comerciais unificadas. Um dos modelos mais debatidos foi o da Eagle Football, que atua com caixa único entre Botafogo e Lyon. A prática, embora eficiente do ponto de vista financeiro, levanta questões sobre regulamentação e integridade esportiva, uma agenda que ainda caminha lentamente em boa parte da América Latina.
O avanço dos MCOs mostra que o futebol é cada vez mais visto como um ativo de portfólio. E isso exige dos clubes — e dos países — uma estrutura jurídica e operacional capaz de atrair capital qualificado. O Brasil deu passos importantes com o modelo das SAFs, mas ainda precisa evoluir em pontos como governança, segurança jurídica e clareza nos direitos entre clubes e investidores. Durante a Confut, houve consenso de que a criação de uma liga nacional forte, com centralização de direitos, compliance (leia-se: fair play financeiro) e planejamento estratégico, será decisiva para atrair os grandes players globais.
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A América Latina, aliás, foi citada repetidamente como próxima fronteira de crescimento do futebol global. O apetite por clubes da região é alto, especialmente pelo potencial esportivo, engajamento das torcidas e valorização de ativos. Argentina, México, Colômbia e Chile já despertam o interesse de investidores, mas o Brasil continua sendo o mercado com maior potencial de retorno, desde que avance em sua organização interna.
Dados mostram que os 20 maiores clubes brasileiros geraram R$10,9 bilhões em receitas em 2024, crescimento de 22% em relação a 2023, com patrocínios comerciais e de empresas de apostas esportivas desempenhando papel de destaque. Em 2025, os contratos com casas de apostas devem superar R$1 bilhão — um salto de mais de 30% em relação ao ano anterior.
No campo esportivo, também se destacaram as discussões sobre gestão técnica. O modelo americano, com processo de formação muito bem estruturado, desde o high-school até o universitário, integração com a transição para o profissional e visão de longo prazo, foi apontado como exemplo a ser observado.
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No caso do futebol, os EUA vem buscando se aproximar do modelo de formação global e, como parte desse processo, as recém-criadas MLS Next e a MLS Next Pro vieram não apenas formam jogadores, mas constroem ativos que geram retorno técnico e financeiro. Já na MLS a presença de nomes como Messi e Suárez mostra como a construção de marca passa pelo desempenho esportivo e pelas narrativas que mobilizam públicos locais e globais.
Embora o otimismo predomine, a Confut também alertou para o risco de avanço sem regulamentação. A falta de critérios sobre propriedade cruzada, fair play financeiro e transparência pode comprometer a integridade do jogo. Casos recentes na Premier League e na Liga Francesa mostram que fiscalização e regras claras são fundamentais para a credibilidade do sistema. O Brasil, ao avançar nas SAFs e na criação da liga, deve incluir desde já salvaguardas que evitem conflitos de interesse e assegurem competitividade.
Clubes como Cruzeiro, Vasco, Botafogo e Bahia já vivem diferentes estágios de transição para o modelo SAF. São movimentos importantes para entender o impacto da profissionalização na estrutura esportiva, administrativa e financeira das entidades. No entanto, a consolidação desse novo ciclo depende de um ecossistema que vá além das quatro linhas: ambiente regulatório, transparência na gestão, formação de talentos, investimento em infraestrutura e integração com o mercado de capitais.
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A síntese que a Confut nos deixa é evidente: o futebol já não cabe mais em estruturas amadoras. Seja na gestão, na relação com o torcedor ou na governança esportiva, o jogo exige uma nova mentalidade — e novos modelos. O Brasil tem uma janela de oportunidade única para aprender com experiências internacionais, adaptar soluções e liderar a transformação do futebol na América Latina.
