Um recente ataque a reputação de uma grande instituição financeira, ocorrida em uma rede social, me fez perguntar, se elas ainda cumprem o seu objetivo inicial ou se de fato elas evoluíram para um território sem lei, onde o que vale é o engajamento e as curtidas, independentemente das responsabilidades e/ou consequências que geram, ao criarem ou compartilharem conteúdos duvidosos, mal checados e/ou com o simples objetivo de lucrar em cima da destruição de reputações.
Há pelo menos 10 anos, cientistas e acadêmicos, procuram estudar e entender o comportamento humano nas redes sociais e as conclusões, de modo geral, não são as melhores.
No estudo, Science vs Conspiracy: Collective narratives in the age of (mis)information (2014), Alessandro Bessi e Mauro Coletto concluíram que os consumidores de notícias conspiratórias demonstram maior engajamento e são mais propensos a interagir com informações satíricas e falsas. Ou seja, o conteúdo polêmico, mesmo sem veracidade, atrai significativamente mais atenção.
Em outro “paper”, The spread of true and false news online (publicado na Science), Vosoughi, Roy & Aral (2018) concluíram que notícias falsas se espalham mais rápido e mais amplamente do que notícias verdadeiras, especialmente quando apelam ao emocional.
Cientes disso, muitos “influencers”, personalidades não necessariamente célebres, mas que por algum motivo, acumulam centenas de milhares ou milhões de seguidores, têm plena consciência da força que o apelo emocional possui e conseguem disparar gatilhos psicológicos, como indignação, empatia, medo ou humor ao mesmo tempo que usam da simplicidade nas narrativas, para torná-la mais acessível e consumível, pois sabem que a polêmica gera o engajamento, seja de quem apoia ou de quem critica.
Esse comportamento, que parece cada vez mais comum em algumas plataformas, vem acendendo uma luz de alerta nas grandes corporações e nos grandes empresários, que podem ver a sua marca ou a sua repercussão ser destruída numa simples postagem.
A exemplo de legisladores, que desde a aprovação do marco civil da Internet, volta e meia, abrem debate sobre a regulação das redes sociais, as empresas vem buscando construir políticas internas de como agir e reagir, quando de sua exposição virtual ou quando de reação a ataques recebidos.
Um experimento mental
Imaginem uma praça pública onde centenas de pessoas se sentissem no direito de ignorar as normas mínimas de convivência. Começariam a se xingar, acusar, atacar e agredir umas às outras de forma irracional e impulsiva, simplesmente por acharem que têm o “direito” de fazê-lo. O final desse cenário hipotético não é difícil de prever: uma grande confusão e violência.
Pois esse é, de certa forma, o ambiente das redes sociais hoje. Uma sociedade inflamável, estimulada por maus exemplos, sente-se autorizada a agir com total liberdade de expressão — mas sem responsabilidade alguma.
Postagens impulsionadas artificialmente ganham autoridade e curtidas, com o único objetivo de atrair seguidores, gerar receita com anúncios e, muitas vezes, vender produtos e cursos duvidosos, como se fossem soluções mágicas para os problemas do mundo.
As redes sociais e a sua origem
As primeiras redes sociais surgiram há aproximadamente 20 anos atrás, quando plataformas como Linkedin, Facebook e Youtube, surgiram como uma grande disrupção tecnológica.
De modo geral, o objetivo principal de todos os seus fundadores foi o mesmo, independentemente da plataforma ou do momento histórico em que foram criadas, ou seja, conectar pessoas e compartilhar ideias, fotos, vídeos e experiências pessoais.
Lembro, quando surgiu o Facebook, de como era sensacional reconectar parentes e amigos, perdidos ao longo da vida e pelas dificuldades de comunicação, restritas as cartas e as ligações telefônicas, que nem sempre eram as mais econômicas de se fazerem.
Mark Zuckerberg havia criado essa ferramenta com o simples objetivo de que os estudantes de Harvard se conhecessem e interagissem através dela.
O Linkedin encontrou no nicho dos profissionais de mercado o seu público e até hoje, vem se posicionando como a rede social menos polêmica do mercado, mantendo o seu DNA intacto, ou seja, conectar pessoas com o único objetivo de tratar de temas relacionados ao trabalho e a carreira.
Já o Instagram surgiu com o objetivo de compartilhamento visual, onde as pessoas postavam fotos e vídeos do seu dia a dia, das suas viagens e momentos com amigos e familiares.
Com o passar do tempo, as redes sociais passaram a facilitar a criação de comunidades e grupos com interesses em comum, filtrando os seus membros e segmentando tribos com temáticas e discussões específicas.
Redes, com o intuito de inovar na forma de se comunicar digitalmente, como o antigo Twitter e atual X, passaram a permitir a difusão de ideias e notícias rápidas, limitadas ao número de caracteres, transformando cada usuário num miniblogger.
Pouco a pouco, a dominância do jornalismo tradicional ia sendo questionada, uma vez que o ambiente “democrático”, que as redes sociais propiciavam e a velocidade com que as notícias se disseminavam, iam tomando conta das sociedades ao redor do mundo.
Com a sua consolidação e o crescente número de usuários, não demorou para que as redes sociais mudassem o seu foco para o comercial, deixando o social em segundo plano e fazendo com que aquela máxima, que dizia: “Se você está consumindo algum produto de graça é sinal de que o produto é você”, passasse a ser uma verdade.
Logo, as redes passaram a ter modelos de negócio, baseados em publicidade direcionada, vendas de dados e “insights” para empresas, alimentando marcas, criadores de conteúdo e “influencers”.
Como as sociedades reagiram as redes sociais?
Foram vários os impactos positivos que as redes sociais trouxeram as sociedades. Podemos destacar a conexão global, a democratização da informação e a voz para as minorias, como alguns deles, mas por outro lado, tivemos a nossa privacidade ameaçada, a disseminação de desinformação e de “fake news” aumentada, afetando o bem-estar mental, em especial dos jovens, que apresentam aumento de ansiedade, baixa estima e distorção da realidade
As plataformas digitais amplificaram os discursos de ódio e criaram bolhas de informação. O fenômeno da desinformação tornou o debate público mais tóxico e emocional.
Hoje, qualquer pessoa se tornou uma voz. “Influencers”, “nano influencers” e até robôs (bots) viralizam conteúdo sem qualquer curadoria ou verificação de fatos.
E é aqui que mora o perigo, quando deixamos de ter um filtro a veracidade e a comprovação do noticiado ou por vezes alardeado, forma como normalmente nasce o tom da polêmica. E como era antes das redes sociais?
A principal diferença do antes e do depois das redes sociais está na velocidade e no alcance, que as notícias passaram a ter, causando estragos imensuráveis as pessoas e as corporações.
Na imprensa tradicional, mesmo com sensacionalismo ou erros, havia filtros editoriais e checagens, o que limitava a escala da desinformação. Nas redes sociais, conteúdos virais podem atingir milhões de pessoas em segundos, sem moderação nem responsabilidade editorial.
Um exemplo marcante da imprensa ocorreu na década de 1980, após uma reportagem revelar detalhes de um empréstimo do antigo Banco Nacional de Habitação (BNH) ao Grupo Delfin, com garantias superavaliadas. A matéria levou a uma corrida de resgates e à intervenção do Banco Central em 1983. À época, o grupo era o segundo maior em depósitos de caderneta de poupança, atrás apenas da Caixa Econômica Federal, com 3,5 milhões de clientes.
Outros casos, como os boatos sobre a liquidez dos bancos Auxiliar e Comind, também culminaram em liquidações e em crises sistêmicas.
Em 2010, boatos sobre o fim do Bolsa Família provocaram tumultos em agências da Caixa Econômica Federal no Nordeste, levando milhares de beneficiários a tentar sacar seus recursos.
Fatos semelhantes ocorreram no exterior, como o escândalo da Libor, os saques bilionários no Northern Rock (Inglaterra) e as crises no First Bank e no Diamond Bank (Nigéria).
O que buscam os propagadores de fake news?
Muitas vezes, por trás da divulgação de notícias falsas ou sensacionalistas, estão interesses variados. Abaixo, alguns dos mais comuns:
- Monetização de conteúdo o Polêmicas geram mais visualizações e receita publicitária.
- Atraem marcas (muitas vezes de setores pouco éticos, como apostas online ou “infoprodutos”).
- Vendem cursos ou mentorias usando escândalos como isca.
- Ganho de autoridade ou influência o Criam a imagem de justiceiro digital ou “anti-sistema”.
- Prometem “mostrar o que ninguém tem coragem de mostrar”.
- Alavancagem algorítmica o Plataformas premiam conteúdos que geram reações emocionais.
- Mais indignação = mais compartilhamentos = mais alcance.
- Ataques encomendados ou agendas ocultas
- Conteúdos podem ser patrocinados por concorrentes, políticos ou grupos interessados em minar reputações.
- Agenda ideológica ou militância extremada
- Alguns influenciadores atuam com base em ideologias ou alinhamentos partidários.
- Atacam instituições com argumentos conspiratórios.
- Economia da raiva o A indignação é uma moeda valiosa nas redes.
- Quanto mais um conteúdo revolta, mais ele viraliza — gerando lucros e reputação.
E como se proteger das “fake news”?
É essencial desenvolver senso crítico ao consumir conteúdo online. Fique atento aos seguintes sinais:
- Fontes duvidosas ou sem comprovação;
- Textos emocionais, com apelos à raiva ou medo;
- Mensagens copiadas, compartilhadas em massa;
- Imagens manipuladas, memes ou “deepfakes”;
- Perfis falsos, bots ou contas não verificadas;
- Notícias antigas, reapresentadas como se fossem atuais.
E no caso de você se sentir vítima das “fakes news”, talvez, o silêncio, seja o melhor caminho no curto prazo, independente de ter ou não ações judiciais, se cabíveis, pois no fundo o que o detrator quer é que você alimente aquele “post”, gerando mais engajamento e discórdia, afinal é atrás dessa notoriedade que eles estão.
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