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A indústria de ETFs vive, globalmente, um dos seus momentos mais maduros — e,
paradoxalmente, ainda é vista como emergente no Brasil. Segundo o Relatório Anual de
ETFs da B3 – 2025, o mercado brasileiro encerrou o ano com mais de 100 ETFs
listados, além de centenas de BDRs de ETFs internacionais, oferecendo exposição a
praticamente todas as classes de ativos, geografias e estilos de investimento.
O patrimônio sob gestão atingiu a casa de R$ 90 bilhões, com crescimento consistente ano após
ano, impulsionado principalmente por ETFs de renda fixa, índices internacionais e
estratégias temáticas. Hoje são pelo menos 16 gestoras especializadas em ETFs, que já
foram distribuídos para mais de 800 mil investidores.
No mundo, o contraste ajuda a dimensionar o potencial. A indústria global de ETFs já
supera US$ 12 trilhões em ativos, com mais de 10 mil produtos listados, distribuídos
por dezenas de mercados. Em economias mais maduras, ETFs deixaram de ser
instrumentos “alternativos” e passaram a ocupar o centro das estratégias de alocação,
tanto para investidores institucionais quanto para pessoas físicas.
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É nesse contexto que a pesquisa com escritórios de assessoria de investimentos — cujos
resultados analisamos a seguir — oferece um retrato honesto do estágio atual do mercado
brasileiro: um setor que reconhece o valor dos ETFs, mas ainda enfrenta barreiras
estruturais, culturais e de modelo de remuneração para capturar todo o seu potencial.
- Veja mais: Realocação global pode gerar fluxo de até US$ 45 bi para o Brasil, aponta Santander
- E também: ETF de renda fixa mais do que dobra patrimônio em 4 meses; entenda avanço do LFTB11
O que a pesquisa revela: adesão existe, mas ainda é superficial
A pesquisa contou com 80 escritórios, distribuídos entre as principais plataformas do país
— com forte presença de XP, BTG Pactual, Safra, Genial e Necton — e com AUC
variando de menos de R$ 100 milhões a mais de R$ 1 bilhão.
O primeiro dado relevante é claro: a ampla maioria dos escritórios afirma oferecer
ETFs aos clientes. No entanto, quando se observa a profundidade desse uso, surgem
nuances importantes.
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Escritórios que oferecem ETFs

Apesar da alta taxa de oferta, os próprios respondentes indicam que, na maior parte dos
casos, os ETFs são utilizados de forma tática, pontual ou complementar —
principalmente em exposições a:
- S&P 500 (IVVB11, ETFs de S&P)
- Ibovespa (BOVA11)
- Ouro (GOLD11, IAU)
- Criptoativos (HASH11, BITH11)
- Renda fixa (LFTS11, LFTB11)
Poucos escritórios declaram usar ETFs como pilar estrutural do asset allocation.
As principais barreiras: o problema não é o produto
Quando questionados sobre os motivos para não oferecer ETFs ou para não ampliar
seu uso, os escritórios apontam barreiras recorrentes — e reveladoras.
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Principais barreiras ao uso de ETFs

O dado mais simbólico é que “baixa remuneração” aparece de forma consistente entre
as respostas. Isso evidencia que o entrave não está na eficiência, liquidez ou transparência
dos ETFs — atributos amplamente reconhecidos — mas sim no modelo de incentivos
da indústria.
Fee fixo: o ponto de inflexão
A pesquisa mostra que o mercado está em transição. Embora a comissão ainda seja
predominante, cresce o número de escritórios que:
- já adotam modelo híbrido (fee + comissão)
- pretendem adotar ou ampliar o fee fixo
Modelo de remuneração dos escritórios


- Sócios da Buena Vista lançam Dex, a “fábrica de índices” de ETFs no Brasil
- Ouro Preto diversifica gestão com fundo multimercados de ETFs
ETFs e fee fixo: uma relação direta
Os dados mostram uma correlação evidente:
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- Escritórios com fee fixo ou modelo híbrido usam mais ETFs
- Carteiras com maior percentual de fee tendem a ter maior volume alocado em
ETFs

Esse dado dialoga diretamente com os estudos SPIVA (S&P Indices Versus Active), que
mostram que, no longo prazo, a maioria dos gestores ativos não supera seus
benchmarks líquidos de custos. ETFs, por definição, entregam:
- previsibilidade
- transparência
- eficiência de custo
Quando o assessor é remunerado por fee, o conflito desaparece. O ETF deixa de “pagar
menos comissão” e passa a ser o instrumento mais eficiente para cumprir o dever
fiduciário.
O papel do assessor: educação, curadoria e alinhamento
A pesquisa reforça um ponto central: ETFs não substituem o assessor. Pelo contrário.
Eles elevam o papel do profissional, que passa a atuar como:
- educador financeiro
- arquiteto de portfólio
- gestor de expectativas
- curador de soluções
Não por acaso, mesmo entre escritórios que ainda usam pouco ETFs, a maioria declara
que gostaria de oferecê-los mais aos clientes.

Metodologia, disclaimers e limitações
Esta pesquisa foi realizada a partir de questionário estruturado, respondido por
escritórios de assessoria de investimentos de diferentes portes, plataformas e modelos de
negócio. Trata-se de uma amostra não probabilística, baseada na adesão voluntária dos
participantes.
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Os resultados:
- não representam estatisticamente todo o mercado;
- podem conter vieses de seleção e percepção;
- refletem a prática declarada, não necessariamente a execução integral.
Ainda assim, os dados oferecem um retrato bastante próximo da realidade, sobretudo
por sua consistência interna e convergência com tendências observadas no mercado.
Conclusão: o futuro já começou — mas ainda não terminou
A pesquisa mostra um mercado em transição. Os ETFs já são reconhecidos, aceitos e
utilizados, mas ainda subaproveitados. O principal freio não é técnico, regulatório ou
educacional — é econômico e cultural.
O avanço do fee fixo, da consultoria de valores mobiliários e da agenda de
transparência regulatória tende a acelerar esse movimento. Quando incentivos se
alinham, o ETF deixa de ser exceção e passa a ser regra.
O investidor já entendeu.
O produto está pronto.
Agora, o modelo de distribuição está finalmente começando a acompanhar.