Cartona ao amigo Florian Bartunek

Concordo que a adoção universal do ESG seja excelente notícia para nós, para todo nosso ecossistema e para o planeta. Mas, paradoxalmente, a adoção às pressas traz externalidades que podem ser profundas

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(shutterstock)

Caro Florian,

Li no InfoMoney a coluna “20 anos em 2 meses”, que você escreveu para o Stock Pickers na semana passada. Adorei!

Tão logo li, compartilhei em minhas redes sociais e grupos de WhatsApp. Na sequência, comecei a escrever um e-mail para você com alguns comentários, pensamentos e provocações…

Mas, dada a nossa relação de tantos anos, o seu olhar para a educação financeira e especialmente a parte final do seu texto, em que diz “essa questão do ESG não é nossa, é do Brasil e do mundo, então quanto mais investidores usarem isso, melhor será para todos nós”, optei por transformar o e-mail privado em carta aberta.

Espero que não se incomode!

Bem, você começa o texto dizendo que em alguns anos a sigla ESG vai sumir, tal qual o freio ABS. Concordo contigo. Veremos uma inversão grande: o ESG que hoje é nicho, virará mainstream, e quem precisará de sigla identificadora são os investimentos irresponsáveis.

Você fez analogia ao freio ABS, e eu faço analogia ao cigarro: fundos que contenham empresas poluentes, homofóbicas, antiéticas etc. merecem um selo para que o investidor saiba que está sendo conivente com tais práticas.

Mas, para que esse dia chegue, a comunidade investidora brasileira precisa integrar o ESG com a responsabilidade e o cuidado que o tema merece; e esta é a razão desta minha carta para você.

Logo no início da sua coluna, você pondera que tal adoção será “uma das coisas mais rápidas do mercado brasileiro”. Apesar de corroborar da sua visão, vejo isso com reserva e preocupação.

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Mais adiante no seu texto, você complementa afirmando que “esta é uma questão complexa até para nós (…); está sendo quase como voltar para a escola ou para a faculdade”.

Esse ponto para mim é crucial. Como sabe, estou nesta jornada há quase três décadas e sem medo de errar afirmo que é o assunto mais complexo com que já lidei no mundo de investimentos.

Você é um cara brilhante, muito fora da curva (usando uma expressão sua 😊), que já está se dedicando ao ESG há alguns anos, e, mesmo assim, sente dificuldade…

Como seria para o mercado em geral realizar esta transição? Você afirma que somos três hoje, projeta 30 daqui a um ano e 100 em dois anos… Complicado. Implementar e integrar ESG não é uma questão de vontade apenas.

Aqui faço outra analogia: a medicina. Para tornar-se médico, é necessário muito estudo, depois residência e, para se tornar um bom médico, bastante experiência.

Como estes 30 virarão a chave em um ano e os 100, em dois anos, eu não sei. O fato é que dificilmente esse passo será dado com a substância e profundidade necessárias.

Concordo que a adoção universal do ESG seja excelente notícia para nós, para todo nosso ecossistema e para o planeta. Mas, paradoxalmente, a adoção às pressas traz externalidades que podem ser profundas.

Creio que nós e o Márcio Correia, da JGP, bem como um bom número de profissionais (consultores, empreendedores, ONGs, asset owners etc.) que já transitam nessa área há algum tempo, temos o dever de transmitir conhecimento de forma ativa cuidando para que este momento por que estamos passando finque raízes sólidas e definitivas e se afaste do oportunismo comercial ou do greenwashing.

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Vou te dar um exemplo. No texto, você comenta que todos os R$ 12 bi (wow! congrats!) da Constellation estão aplicados seguindo os métodos ESG.

Você já percebeu que empresas que seguem a orientação ESG têm melhor desempenho operacional (aliás, você deve conhecer o brilhante estudo do professor Eccles, também de Harvard, que diz o mesmo – vale a leitura aqui).

Enfim, quando você percebeu que ESG é um filtro de qualidade, “tombou” toda a Constellation para ESG, sem pestanejar!

É importante que as pessoas entendam de uma vez por todas que ESG é uma filosofia e não um produto. Se a gestora acredita no ESG, então deve adotar ESG para toda a sua linha de produtos.

Se não acredita, OK, mas aí não faz sentido lançar um produto em que não acredita, não é mesmo?

Portanto, no meu entender, não existe fundo ESG. Existe gestora ESG. Aliás, também discordo da categoria da ANBIMA de “fundos sustentáveis”, mas deixamos essa conversa para depois.

Em seu texto, você de certa forma se refere a este ponto quando afirma que mesmo os gestores que não concordarem ou aplicarem ESG terão que dar explicações a seus clientes. É verdade.

Os questionamentos acerca destes assuntos vão aumentar e obrigar que o debate exista mesmo entre aqueles que não concordem.

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Ótimo ponto, pois talvez em algum momento o incômodo de explicar o inexplicável seja tão grande que traga para a jornada mesmo os avessos a ela.

Há um bom número de ex-fumantes que largaram o vício por pressão e não por preocupação com a saúde.

Tem um outro assunto que você aborda e que vai ao encontro de algo que eu tenho sempre falado: o choque geracional.

Li uma coluna que a sua filha Carolina escreveu, na qual ela disse: “Nós, jovens, temos até uma vantagem em relação aos investidores mais experientes (…) geralmente percebemos as mudanças de tendência antes”.

A chamada “geração Z” é cheia de propósito e está alinhada a uma das razões pelas quais você acredita no crescimento do ESG: “porque é a coisa certa a fazer”, conforme você colocou.

Eu, assim como você, acho mais gratificante interagir com empresas que tratam o tema adequadamente.

Mas, talvez nesse ponto eu tenha uma visão mais “radical” do que a sua: você escreve que não é gratificante interagir com empresas que consideram ESG irrelevante, e eu já acho que tais empresas é que sejam irrelevantes.

Vale perguntar para a Carolina e amigas se elas comprariam produtos de empresas que passam mensagens subliminares como: “poluo mesmo, e daí?”, “racismo é problema do governo, não meu” ou “o que interessa se o animal vai sofrer, vai morrer mesmo…”.

Tais empresas (e não são poucas) estão fadadas à irrelevância. Aliás, no mundo de hoje, não basta apenas ter boas práticas, é necessário posicionar-se diante das más práticas: empresas ou marcas que não se posicionam são vistas como coniventes. O silêncio fala muito.

Gostei quando você diz que quem entra neste mundo, não sai mais. Este pensamento está relacionado a um conceito que eu gosto muito e que jamais encontrei uma tradução justa para o português: accountability.

Durante séculos nós, humanos, acreditamos que os recursos naturais fossem inesgotáveis e nos apropriamos deles sem pagar: ar, água e terra. Do lado social, fizemos algo parecido e em muitas oportunidades nos apropriamos da liberdade e direitos dos nossos semelhantes.

Chegou a hora de prestar contas e assumirmos as responsabilidades pelos nossos atos. Ao enxergar que, no final das contas, ESG expressa a defesa do meio ambiente e dos direitos humanos, de fato não há como se eximir.

ESG então transcende ser apenas uma estratégia de investimento; é muito maior do que isso. Por isso, te entendo perfeitamente: quem entra, não sai mais.

Gostaria de tecer alguns comentários rápidos.

No caso do “S” (social), você aponta no seu texto as considerações ao cliente, colaborador e comunidade. Contudo, observo ser relevante que inclua também os fornecedores neste âmbito do “S”.

Infelizmente ainda nos dias de hoje, não são raros os que se utilizam de trabalho infantil, semiescravo, em condições sub-humanas ou não respeitam direitos trabalhistas. Temos que nos atentar a isso.

Em relação aos colaboradores, lembro muito bem desta época nos anos 1990 que você cita em que o tratamento aos jovens era feito com desdém. Não estou muito seguro de que esta prática tenha ficado para trás, mas talvez tenha adquirido novas formas.

Também observo que em nosso mercado, a palavra “meritocracia” ecoa quase como um mantra, mas raramente leva-se em consideração que, em uma corrida justa, todos sairiam do mesmo ponto de partida.

Se nós, empresários e investidores não tivermos este olhar e transmitirmos os conceitos de inclusão e diversidade em nossas investidas, quem o fará? Você se refere a este conceito na parte final de sua coluna, quando afirma ser difícil haver empresas ricas em países a longo prazo.

De fato, a desigualdade compromete sobre o nosso sistema e a democracia. Creio que já deva ter lido Capital, do Thomas Piketty.

Nesse campo, indico acompanhar o trabalho do Branko Milanovic (por coincidência, esteve no Roda Viva da semana – se não assistiu, segue o link) e o livro O Nível, de Richard Wilkinson, que compila 30 anos de pesquisas mostrando claras evidências de que quase todos os indicadores sociais melhoram com o combate à desigualdade e não com o aumento da riqueza.

Por fim, precisamos mesmo falar do clima. Estamos no Brasil ainda em uma retrógrada discussão sobre a existência da mudança climática, em vez de estarmos debatendo seus cenários e consequências.

Estamos perdendo tempo questionando a ciência, o que é lamentável. Quem sabe um efeito colateral da crise do coronavírus seja o respeito maior à ciência?

Você relata que há empresas fundamentais para a humanidade e que precisam continuar existindo apesar de serem grandes emissoras de CO². Sem dúvida.

Mas elas devem existir de uma maneira responsável. E, ao fazê-lo, ainda que elas continuem viáveis enquanto empresas, provavelmente serão inviáveis enquanto investimento.

Boa parte de nossos pares ainda não entendeu a extensão do impacto no valuation destas companhias.

Outros até entenderam, mas ainda acham que o problema de clima se resume ao CO² e a questão ambiental se resume ao clima. Há um education longo a ser feito.

Enfim, era para ser um emailzinho e virou uma cartona. Sorry! Acabo me empolgando quando trato desse tema.

De qualquer modo, fico feliz de estarmos juntos nessa jornada. Este novo mundo é colaborativo. Muito antes de sermos concorrentes, somos aliados na missão de transformação em larga escala.

Um grande abraço,

Fabio

Fabio Alperowitch

Co-fundador e portfolio manager da FAMA Investimentos, gestora independente que se dedica à gestão de uma carteira de empresas listadas na Bolsa brasileira. É formado em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), com cursos de extensão na Universidade da Califórnia (Berkeley) e na Harvard Kennedy School. Iniciou sua carreira na Procter & Gamble e fundou a Fama em 1993.

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