A confiança não nasce do retorno. Nasce da responsabilidade

Qual é, afinal, o nosso papel na relação entre risco, retorno e expectativa do investidor?

Francisco Amarante

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Todo início de ano convida o mercado financeiro a um ritual quase automático de revisão. Estratégias são ajustadas, cenários são reavaliados e novas narrativas surgem para explicar — ou justificar — decisões passadas.

Mas, para além das projeções e das promessas implícitas em cada virada de calendário, existe uma pergunta que deveria ocupar o centro da atuação dos assessores de investimentos: qual é, afinal, o nosso papel na relação entre risco, retorno e expectativa do investidor?

Os últimos anos foram generosos em exemplos de que retornos atraentes, por si só, não constroem relações duradouras. Ao contrário: frequentemente constroem expectativas frágeis, que se rompem no primeiro teste de estresse. O que sustenta a assessoria no longo prazo não é o acerto pontual, mas a confiança — e confiança não nasce do resultado. Nasce da conduta.

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Confiança: um conceito mais antigo do que o mercado financeiro

A palavra confiança vem do latim confidentia, formada por con (junto) e fidere (acreditar, ter fé). É a mesma raiz de termos como fé, fidelidade e fidúcia. No direito e no comércio romanos, confiar significava entregar algo de valor acreditando que o outro não se aproveitaria da assimetria existente.

Esse ponto é essencial. Desde a Antiguidade, confiança nunca significou ausência de risco. Significou clareza de intenções, respeito a limites e responsabilidade sobre aquilo que se recomenda ou se aceita. No mercado financeiro contemporâneo, essa definição continua atual: confiar não é acreditar que sempre dará certo, mas acreditar que os riscos foram explicitados — e não minimizados.

Ganância: um velho risco com novas embalagens

Se confiança nasce da fé compartilhada, a ganância surge do desejo sem freio. No latim clássico, ela aparece como cupiditas — desejo excessivo — e avaritia, o apego desmedido à acumulação. Já os gregos chamavam esse comportamento de pleonexía: querer sempre mais, mesmo quando já é suficiente.

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A ganância não desapareceu com a sofisticação dos mercados. Ela apenas mudou de linguagem. Em determinados ciclos, veste a roupa de ativos “inevitáveis”, estruturas “inteligentes” ou produtos “imperdíveis”. Em outros, surge disfarçada de urgência: “é agora ou nunca”, “todo mundo está ganhando”, “é só uma pequena parte da carteira”.

Nos últimos anos, vimos investidores com perfil conservador ou moderado aceitarem travas longas de liquidez, riscos de crédito relevantes e estruturas complexas em troca de ganhos marginais de rentabilidade. Casos como determinados COEs ligados a empresas específicas ou emissões bancárias que, à época, pareciam apenas “mais uma alternativa de retorno”, deixaram lições importantes quando os riscos se materializaram.

O ponto central não é o produto em si. É o desalinhamento entre risco assumido, compreensão do investidor e objetivo da carteira.

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Quando a ganância encontra complacência profissional

É importante afirmar: nem toda perda decorre de erro técnico. O mercado é, por definição, incerto. O problema surge quando a ganância — do investidor ou do próprio sistema — encontra complacência profissional.

Quando o assessor abdica do seu papel crítico para evitar desconfortos imediatos, transfere para o futuro um custo que quase sempre será maior.

Historicamente, o comportamento ganancioso segue um roteiro previsível: subestimação do risco, aceleração do tempo esperado de retorno, perda de margem de segurança e, quando o ciclo se inverte, quedas desproporcionais.

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O prejuízo financeiro costuma vir acompanhado de algo ainda mais difícil de reparar: a ruptura da confiança.

O valor — e o custo — de dizer “não”

Existe um aspecto pouco discutido na indústria de assessoria: o custo de dizer “não”. Dizer não pode significar renunciar a uma alocação relevante, reduzir receitas no curto prazo ou até perder o cliente para outro profissional disposto apenas a executar ordens.

Mas é justamente nesse ponto que se estabelece a diferença entre intermediação e assessoria.

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Há inúmeros exemplos de profissionais que consolidaram relações extremamente duradouras por adotarem uma postura fiduciária nos momentos de maior euforia. Assessor que reforçou conceitos básicos de planejamento financeiro, apresentou cenários adversos, explicou drawdowns históricos e deixou claro que retorno e risco são inseparáveis — mesmo quando o cliente não queria ouvir.

Quando o ciclo virou, essas relações não apenas sobreviveram: se fortaleceram. Não porque alguém “previu o mercado”, mas porque houve responsabilidade na orientação.

Transparência não é discurso. É método.

Transparência virou uma palavra recorrente — e, justamente por isso, corre o risco de se tornar vazia. No dia a dia da assessoria, ser transparente não é apenas explicar a estrutura de um produto. É deixar claro como se ganha dinheiro, onde existem conflitos potenciais e por que nem toda oportunidade é adequada para todo investidor.

O investidor maduro aceita a incerteza do mercado. O que ele não tolera é incoerência de postura. Escândalos recorrentes, produtos mal explicados e estratégias empurradas a perfis inadequados corroem a confiança na indústria como um todo — e aumentam a responsabilidade de quem leva essa atividade a sério.

Educação financeira como mecanismo de proteção

Educar o investidor não é um discurso institucional. É uma forma concreta de proteção da relação no longo prazo. Um cliente que entende conceitos como diversificação, volatilidade, liquidez e horizonte de investimento reage melhor aos momentos de estresse e se torna menos suscetível a narrativas oportunistas.

Uma pergunta simples costuma revelar muito mais do que longos questionários: “Você fica mais feliz quando ganha dinheiro ou mais triste quando perde?”

Quem sofre mais com a perda do que se alegra com o ganho costuma ser mais conservador do que imagina. Quem minimiza a perda e exalta o ganho tende a subestimar riscos. Ignorar esses sinais é abrir espaço para decisões que o investidor não sustentará emocionalmente.

Elevar a régua da assessoria é uma escolha

O mercado sempre oferecerá atalhos. Sempre haverá o produto da vez, a estrutura “diferente” e a promessa de eficiência superior. A diferença estará em quem escolhe resistir a esse impulso.

Elevar a régua da assessoria é aceitar que nem todo crescimento precisa ser acelerado, nem toda oportunidade precisa ser aproveitada e nem todo cliente está preparado para toda estratégia.

No fim do dia, o ativo mais valioso do assessor não está na carteira recomendada. Está na confiança construída — e essa, ao contrário do mercado, não admite volatilidade excessiva.

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Francisco Amarante

Superintendente da ABAI (Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos)