Quem pode parar o Flamengo? Palmeiras e Grêmio estão no páreo se fizerem lição de casa

Rubro-negro deixa agora o papel de caçador e passa a estar na alça de mira dos demais clubes brasileiros. É o líder a ser superado

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
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Gabigol no Flamengo
(Shutterstock) Gabigol comemora gol na final da Libertadores 2019

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Enfim o Flamengo chegou onde planejava desde 2013. Neste 2019 vemos os resultados em campo do processo de reestruturação financeira que já é mais que conhecido e reconhecido. O clube que pode chegar a R$ 1 bilhão de receitas – vide matéria da Giovanna Sutto aqui no Infomoney, que conta com minha colaboração nos cálculos e no alerta para a “pegadinha do bilhão” – deixa agora o papel de caçador e passa a estar na alça de mira dos demais clubes brasileiros. É o líder a ser superado. O desafio é saber como.

Antes de mais nada, para iniciar qualquer processo de aproximação ao líder é preciso abandonar as narrativas simplórias e de torcedor. Não caia na tentação de justificar tudo por conta do dinheiro da Globo ou do patrocínio da Caixa. É mais fácil, mas não ajuda em nada na construção de um modelo de combate. Já ouvimos essa história antes, com outros personagens como Paulo Nobre e Crefisa no caso do Palmeiras, as mesmas Globo e Caixa para o Corinthians, da Unimed no Fluminense, e até no uso da surrada e ultrapassada estratégia de gastar além do que pode para conquistar títulos, como no Cruzeiro, onde ao final todo mundo dizia “uma hora quebra” – neste caso, de fato, quebrou. Tudo isso criticado ou defendido, dependendo da camisa que se escolhe.

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Narrativa de torcedor, na arquibancada, nas redes sociais, nos programas de TV com muita gritaria e pouca análise. “O inferno são os outros”, diria Sartre.

Primeiro passo para que os demais clubes se organizem e busquem seu lugar ao sol é justamente observar quem faz corretamente e traçar seu plano. Benchmark, que varia de clube a clube, a depender de sua condição de partida e do modelo de sucesso que se busca. Alguns precisam de pequenos ajustes, outros precisarão se reinventar.

Falamos de Flamengo, mas Palmeiras, Grêmio, Bahia, Athletico são clubes que já nascem numa condição superior aos demais. Ainda que precisem de ajustes, e não chegarão ao sonhado bilhão de uma hora para outra, estão no caminho certo.

Curiosamente, cada um tem seu modelo de negócios claro. Assim como os clubes que estão abaixo, ainda desequilibrados. Alguns podem se ajustar rapidamente, outros levarão tempo. Algumas soluções serão simples enquanto outras demandarão mudanças radicais na estrutura de controle, porque somente virando empresa alguns clubes conseguirão arejar a gestão, trazer dinheiro novo e impulso de retomar o crescimento.

Antes de seguir falando em futuro do futebol brasileiro de clubes, vamos olhar como estão as classificações na Europa, passado 1/3 das competições nacionais.

AlemanhaInglaterraEspanhaItáliaFrança
1MonchengladbachLiverpoolBarcelonaJuventusPSG
2RB LeipzigLeicesterReal MadridInterMarseille
3Bayern MunichManchester CitySevillaLazioAngers
4FreiburgChelseaAtlético MadridRomaBordeaux
5SchlakeWolvesAthletic BilbaoCagliariSaint-Etienne
6Dortmund
7Napoli
8Arsenal
9Manchester UnitedLyon
10TottenhamValência
11
12Milan
13
14Monaco

Nas 5 maiores ligas europeias vemos intrusos onde antes só apareciam os clubes mais ricos. Na Alemanha o Bayern Munich está tomando um sufoco dos menores, enquanto o Borussia não acerta a mão. Na Inglaterra então vemos novamente o Leicester aprontado para cima dos favoritos, com a diferença que nesta temporada temos novamente um Liverpool voando. Mesmo na Itália vemos Lazio e Cagliari ocupando lugares que tradicionalmente seriam de Napoli e Milan. Espanha e França ainda mantém o status quo, mas com alguma surpresa.

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Ou seja, ainda que haja grande diferença de receitas, o bom uso do dinheiro, com uma gestão eficiente de elenco, que nasce de uma formação equilibrada, com treinador capacitado, é possível competir.

Sim, o torcedor vai dizer “Ah, na Europa o dinheiro da TV é mais equilibrado”. É verdade. Mas não impediu o Bayern Munich vencer os últimos 7 campeonatos, a Juventus os últimos 8 campeonatos, a Inglaterra ter 4 campeões nos últimos 15 anos (com exceção de uma conquista do Leicester, as outras 14 foram divididas entre Manchester United, Manchester City e Arsenal), e na Espanha os campeonatos serem divididos entre Barcelona e Real Madrid.

Novamente, a TV é importante, mas não esqueça que os clubes não dependem 100% dela, e quanto mais eficientes na gestão do negócio e da marca, menos dependente da TV serão, e isto significa serem mais fortes.

Obviamente que ao final do campeonato retomaremos estas tabelas e veremos se foram apenas fogo-de-palha ou se conseguiram se sustentar, mas aqui temos um indício de que não basta apenas reclamar do dinheiro alheio quando o clube não faz a sua parte.

O mais interessante é que os torcedores de clubes grandes que não vão bem sabem exatamente quem cobrar. Raramente sobra para o atleta ou treinador. O torcedor pode até criticar o elenco fraco, mas questiona o profissional responsável pelas contratações e os donos dos clubes. Afinal, o planejamento foi feito por eles. A exceção é o Napoli, onde o dono causou uma balbúrdia típica dos dirigentes brasileiros mais folclóricos, criando enormes problemas para os atletas e o treinador Carlo Ancelotti. Mas é uma exceção.

Portanto, é possível se organizar e ingressar no grupo de clubes que brigam por conquistas. Uma parte desse processo virá através da implantação do sistema de Fair Play Financeiro no Brasil, cujo objetivo é levar os clubes ao equilíbrio individual – não confundir com a ideia de equilíbrio coletivo, pois o futebol não é ação entre amigos nem o Fair Play Financeiro será o Robin Hood, a tirar dos ricos e dar aos pobres – e equilibrados podem se ater a ações mais voltadas aos benefícios esportivos, como montagem de elenco.

Porque um tema que poucos torcedores entendem é que estar financeiramente equilibrado contribui para uma série de ações positivas. Dá ao clube maior poder de barganha nas negociações com a TV, já que os contratos são individuais (vide Athletico e Palmeiras em 2019), dá maior liberdade para planejar, e isto significa poder trazer atletas de maior custo e treinadores estrangeiros. Um dos erros clássicos do futebol pós-Ronaldo no Corinthians foi acreditar que primeiro se contrata um atleta e depois vão buscar patrocinadores para pagar a conta. Só existiu um Ronaldo capaz de fazer isso. O caminho é primeiro estar equilibrado, depois contratar o atleta que seja capaz de ser pago. Adicionais serão bem vindos, mas sem a pressão de ter que vender uma ideia com ela em curso. Naturalmente que perde valor, especialmente quando o resultado em campo não vem como se esperava.

Além disso, e como segundo pilar de uma indústria forte e competitiva, alguns clubes terão que virar empresa. É tão simples quanto isso. São marcas fortes, que tem mercado cativo e mal atendido, e que precisam de dinheiro para colocar a casa em ordem, para remontar as estruturas. Precisam se livrar das amarras dos clubes sociais, que drenam tempo e dinheiro do futebol, além de gerarem um ambiente político que mais atrapalha que ajuda. E, claro, arejar as gestões. Alguns clubes precisam ser geridos como negócios e não como uma associação sem fins lucrativos.

Porque todos os clubes possuem profissionais qualificados nas áreas de apoio, especialmente no financeiro. Gente que vive de enxugar gelo, derretido pelas gestões esportivas ineficientes e gastonas.

O torcedor acha que é dono do clube, mas na verdade os clubes pertencem a alguns poucos conselheiros e sócios, e que por falta de mudança e rotatividade séria nas estruturas, foram perdendo a capacidade de se reinventarem e ficaram presos na armadilha da gestão política, cujo objetivo é ser campeão, sem se importante com a longevidade do clube. Muitas clubes e dirigentes pagam contas hoje de gestões equivocadas do passado. Trabalho de Sísifo piorado, pois a linha de condução da pedra fica cada dia mais esburacada e difícil. Uma hora emperra. Para alguns já emperrou.

Sobram, então, algumas recomendações, para que haja mais disputa no futebol brasileiro, caso contrário o que veremos é a disputa efetivamente concentrada em Flamengo e Palmeiras, com alguns poucos times se arriscando a incomodar, à distância. Como é o caso do Santos, que incomodou nesta temporada, mas cujo efeito financeiro será desastroso. Enfim, o que os clubes precisam? Sem citar nomes, as estratégias deveriam passar por:

Reformular a gestão esportiva. Muitos clubes possuem o péssimo hábito de fazer contratações sem lastro financeiro e técnico. Isso incha a folha, gera dívidas enormes, e no final, o resultado esportivo é ruim, pois os elencos foram formados de maneira equivocada. É a política de “dar satisfação à torcida”. Funciona no primeiro momento, naquela hora do entusiasmo, mas logo se percebe que foi dinheiro mal gasto.

Virar empresa. Para alguns, este será o caminho. Mas os dirigentes precisarão abrir mão do futebol. Não adianta supostamente trocar o dono, mas a gestão ser das mesmas pessoas. Não significa que alguns profissionais não possam continuar, afinal, há bons profissionais espalhados pelos clubes, e a experiência conta muito quando se está criando uma nova indústria. Mas há necessidade de dinheiro novo, para colocar a casa em ordem, estabilizar as finanças, iniciar um trabalho mais eficiente de gastos e de valorização da marca.

No fundo, os clubes precisam de uma nova ordem interna, em maior ou menor grau. Precisam sair de suas amarras políticas e abrir o horizonte. Mas antes precisam saber que estão errados, pois quem não sabe para onde vai nunca está perdido. E há muita gente perdida no futebol brasileiro. Não será fácil bater o Flamengo nos próximos anos.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real