Prepare-se: os 3 cenários da Covid-19 para o futebol brasileiro

Trabalho com três possibilidades de tempo de paralisação das atividades, que variam de até 45 dias a um total de 145 dias

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Nesta semana, escrevi brevemente sobre impactos mais óbvios da Covid-19 no esporte. Segui aprofundando as análises e trago nesta edição extraordinária da coluna mais alguns aspectos para tentar avançar com o tema.

A primeira coisa que temos que ter em mente nesse tipo de análise é a questão tempo. Como escrevi na coluna anterior, um dos alicerces que sustenta a estrutura econômico-financeira do esporte é capacidade de definir um calendário.

Ao segui-lo, as entidades – federações, confederações, clubes – são capazes de desenvolver produtos e serviços e, com isso, fazer dinheiro. O alvo final é sempre uma pessoa física, um torcedor ou fã.

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O tempo nessa análise está totalmente relacionado a quanto demorará para as atividades que estão sendo paralisadas retomarem sua rotina e, consequentemente, seu calendário. Mas não podemos isolar o esporte das demais atividades do planeta.

Diferentemente de crises econômicas como a de 2008/09 ou o recente período recessivo brasileiro, onde há problemas gerais mas as atividades ainda funcionam, ainda que em ritmo mais lento, os impactos da Covid-19 são mais dramáticos quando as decisões de contenção passam por paralisação generalizada de atividades, inclusive com restrições de movimentações de pessoas.

Não é reduzir o ritmo, mas sim paralisá-lo. Se a roda gira lentamente, ainda é possível se movimentar. Quando ela passa, a bicicleta desaba.

Logo, qualquer análise precisa necessariamente ser feita a partir da estimativa de paralisação das atividades esportivas, e ela está ligada à paralisação da vida, como vimos em Wuhan e agora em toda a Itália.

Vamos então usar o exemplo de um clube de futebol para tentar qualificar o impacto de uma paralisação das atividades esportivas.

Neste quadro, temos a estrutura básica de receitas e custos de um clube de futebol, com alguns dados agregados brasileiros referentes a 2018.

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O centro de uma atividade esportiva são os clubes e seus atletas e, como comentei acima, suas relações com os torcedores.

No futebol, tomando como base as cinco maiores receitas de clubes brasileiros, temos quatro delas associadas direta ou indiretamente aos torcedores. No limite, elas sempre acabam neles.

Para fins de exercício, vamos trabalhar com três possibilidades de tempo de paralisação, definidos como curto, médio e longo prazos, assim distribuído:

• Curto prazo: até 45 dias (retorno em 1º/maio/20)
• Médio prazo: 115 dias (retorno em 1º/agosto/20)
• Longo prazo: 145 dias (retorno após 1º/setembro/20)

A questão do tempo está atrelada a duas possibilidades fundamentais para reduzir o ritmo da doença, que são (i) a descoberta de algum medicamento que reduza o tempo de internação, de forma a recuperar mais rapidamente os pacientes, diminuindo impactos no sistema hospitalar e o medo de contágio. Além disso, (ii) a descoberta de uma vacina que baixe a velocidade de contágio.

Afinal, se uma das preocupações é com a velocidade de contágio, enquanto a doença se espalha sem instrumentos de combate farmacêuticos, o que resta é o isolamento. Basta um transmissor para gerar a preocupação que estamos vendo.

Para validar as premissas, na China, as competições devem retornar agora, após cerca de quatro meses (120 dias) de paralisações.

Precisamos também pensar numa premissa para o futebol europeu, responsável pela maior parte das contratações de atletas brasileiros.

E este também é um cenário complexo, à medida em que as competições nacionais tendem a sofrer retardos e perdas, bem como a sequência da Champions League pode estar comprometida.

Ainda temos Eurocopa de Seleções (como a disputa se daria em 12 países, é natural imaginar que seja cancelada), e a próxima temporada também tende a ter seu calendário afetado.

Para fins de exercício, consideraremos que os clubes europeus tenham perdas que reduzam o investimento em novos atletas a zero. Vamos então à expectativa de acordo com o cenário.

Curto prazo: até 45 dias de paralisação

Este cenário é bastante otimista, e significaria que os impactos gerais na economia real seriam reduzidos a partir de ações dos governos centrais, com retomada paulatina da atividade, sem prejuízos significativos, exceto para os países afetados há mais tempo.

Considerando o calendário brasileiro e sulamericano, o impacto final tende a ser baixo.

Retomar em maio significa ter que correr com alguns estaduais, ou mesmo deixá-los paralisados para retomar em outro momento, mas com prejuízo esportivo certamente mínimo.

O Brasileiro poderia iniciar sem grandes atrasos, e eventualmente atrasar o encerramento.

Haveria algum acúmulo de datas envolvendo Libertadores, Sulamericana, Copa do Brasil e Eliminatórias, mas também nada que algum ajuste mínimo não seja capaz de organizar.
No lado dos custos, considerando que a maior parte fixa é remuneração, uma paralisação curta não deveria gerar maiores consequências, a despeito dos clubes brasileiros já estarem em dificuldades. Nada que algum ajuste de fluxo de caixa não fosse o suficiente.

Médio prazo: 115 dias de paralisação

Se as competições retornarem apenas em 1º de agosto de 2020, então passaremos a ter que enfrentar alguns problemas mais graves.

O impacto é natural: menos consumo, menor produção, menos renda. Além disso, o câmbio pode ser afetado, com risco de haver reflexos na inflação – câmbio para cima impacta inflação, mas, se houver retração de consumo internacional, sobraria produto para consumo interno; no final, com menor propensão e capacidade das pessoas físicas ao consumo, haveria inevitável recessão.

No futebol, esse cenário significaria que os estaduais seriam completamente afetados, e também a Copa América, que tenderia ser cancelada. O Brasileiro seria impactado, porque haveria perda de dois meses de partidas, mas ainda assim seria algo ajustável, com alguma mudança na estrutura geral, como alteração extraordinária de formato da competição, de forma a encaixar a competição em seis meses.

Haveria necessidade de repensar as competições continentais e a Copa do Brasil, mas ainda assim é uma questão de ajustar o calendário, que talvez ocupasse parte de 2021.

Longo prazo: 145 dias de paralisação

Se as competições retornarem a partir de setembro, então teremos um cenário de catástrofe para o futebol brasileiro.

Primeiro porque não haveria tempo para disputar as competições integralmente, e as alternativas passariam por mudar radicalmente o formato das competições e/ou ocupar o início de 2021.

Com menos jogos, competições reduzidas e calendário confuso, a chance de perdas relevantes de receitas de todos os tipos é grande. Assim, o negócio seria afetado da mesma forma que toda a economia nacional.

O problema é que, na contrapartida de custos, não há refresco, pois os salários continuam vencendo mensalmente.

Por mais que se queira quantificar esses cenários, no momento seria um grande exercício de adivinhação. O aspecto tempo e como o país será afetado é que dirão o grau de profundidade da crise.

De qualquer forma, em qualquer gestão de crise, o que deve ser feito é trabalhar justamente os diversos cenários possíveis, criando estratégias para cada um deles.

Como tudo é baseado em prazos, cria-se um conjunto de ações que se sucedem à medida em que os eventos ocorrem.

Mas a indústria toda precisa estar atenta e trabalhando em conjunto, sem depender de ações externas, para se preparar para todos os cenários.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real