Não adianta apontar o dedo: hora de começar a apresentar ideias para o futebol brasileiro

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Na semana passada trouxe algumas reflexões sobre o futebol brasileiro na era da Covid-19. Mas ficar apenas apontando problemas e indicando soluções genéricas é como fazer aquela brincadeira de criança de apertar a campainha e sair correndo: aperta, chama a atenção, mas se esconde. Então, é mais justo dar um “olá” após apertar a campainha.

A indústria do esporte, futebol incluído, faz parte da economia. Logo, se a perspectiva é de que a economia vai sofrer fortemente, naturalmente o futebol será afetado. Queda de PIB significa retração de mercados, redução de dinheiro circulando, e consequentemente menor consumo. Por algum tempo.

Acho que este é o principal aspecto a ser levado em consideração. Assim como a economia passará por um tempo em retração, com 2020 certamente fortemente impactado, se e quando as atividades retornarem a um ritmo normal, a economia se recupera junto, auxiliada pelos estímulos públicos que estão sendo lançados por todos os países.

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O futebol sofrerá agora, porque as pessoas perderão renda, porque as empresas perderão renda e valor, e isto leva a menos negócios. E menos negócios vem com potencial menor receita de TV – caso as partidas não retornem, ou retornem com menos jogos -, menos publicidade porque as empresas estarão menos expostas, menos bilheteria porque os jogos serão sem público, menos sócios torcedores porque a renda das pessoas diminuiu, e por fim, menos venda de atletas, porque os clubes estrangeiros também terão menos dinheiro para contratar.

Enquanto isso, os custos continuam correndo, e no caso do futebol, os salários são a maior parte.

Este é o cenário base. E como tentativa de entender esta dinâmica, trago alguns dados de 2018 – que são os mais recentes disponíveis – do futebol europeu e brasileiro, para tentarmos quantificar isso.

Acima temos a composição das receitas de todos os clubes europeus em 2018 e dos 27 clubes brasileiros abordados na análise que conduzo para o Itaú BBA. A grande diferença está nas receitas de Publicidade, muito maiores na Europa que no Brasil, enquanto o Brasil depende mais de Venda de Atletas (na Europa está parcialmente em Outros).

Ainda que defasados em relação a 2020, é possível fazer algumas simulações sobre o impacto que a crise da Covid-19 gerará no futebol. Abaixo temos as simulações considerando dois cenários para cada região.

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Considerando 2018 como referência, e sabendo que os dados de 2019 e o que vinha ocorrendo em 2020 certamente são diferentes mas até o momento desconhecidos, simulei dois cenários, sendo o primeiro com reduções de algumas receitas e pouco corte de custos, e no segundo com maior redução de receitas e algum corte de salários e custos.

Os cenários estão apresentados com o % de receita mantido, ou seja, para o Brasil o Cenário 1 indica manutenção de 100% das receitas de TV e o cenário 2 indica manutenção de 90% da receita de TV, e assim por diante.

Note que mesmo no Cenário 1 brasileiro, mais otimista, a manutenção de salários consome quase 90% das receitas restantes, o que torna a situação consolidada bastante complicada. Daí, num cenário mais restritivo de receitas, e incluindo 20% de corte nos salários, o cenário fica só um pouco menos difícil.

Mesmo na Europa o cenário é complicado nas duas hipóteses, lembrando que este não é o número estimado da perda decorrente da Covid-19, mas uma ideia de magnitude. Ou seja, na Europa é possível dizer que a redução de receitas será algo entre 10% e 25%, enquanto no Brasil dá para estimar algo entre 25% e 35%. Num contexto onde a maioria dos clubes já vive acima do limite, é uma catástrofe.

Para fechar as simulações, fiz um teste reduzindo as receitas e mantendo salários e custos inalterados e calculei o quanto eles representariam das receitas, na Europa e no Brasil.

A leitura é simples: para o Brasil, se as receitas caírem 10%, os salários passam a representar 53,4% das receitas e outros custos iriam a 51,3% das receitas, gerando assim cum déficit de 4,7%. Assim sucessivamente. Por exemplo, se as receitas caírem 30% e forem mantidos salários e custos, o déficit estimado seria de 34,6%. Por isso é tão importante preservar as receitas para garantir o mínimo de impacto nas contas dos clubes.

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Ok, mas como fazer isto, considerando uma série de aspectos políticos e culturais, além dos econômicos e sociais?
Primeiro aspecto que precisa ser considerado é que solução não costuma ser uma conta de soma zero. Ou seja, não haverá vencedores e perdedores. Há apenas o Futebol, que pode sair vitorioso ou derrotado. Logo, já deu para perceber que a primeira ação é colocar todos na mesma base e abrir negociação conjunta.

E precisamos entender que temos dois momentos: o primeiro, este que vivemos, onde é necessário manter os clubes e a estrutura do futebol de pé, e um segundo, quando as atividades retomarem sua normalidade, onde teremos que repensar o futebol de maneira mais profunda, para minimizarmos efeitos como o que vemos agora.

Momento 1: como manter as estruturas de pé

Precisamos pensar em situações de socorro, onde todos os stakeholders negociem e abram mão de alguma coisa. Como já disse, não há soma zero, e todos precisam perder algo para que a indústria ganhe. Volto a Friedman e sua célebre frase “Não existe almoço grátis”.

Nesse sentido, algumas recomendações:

A TV poderia manter um mínimo de receitas entrando para os clubes da Série A. Afinal, as coisas retomarão seu rumo e será preciso ter um produto minimamente operando para que haja o que transmitir;
TV e CBF poderiam desenvolver um fundo de crédito de longo prazo, que teriam contrapartidas de gestão e aumento de prazo de contrato. Poderiam antecipar recursos e aplicar penalidade caso haja inadimplência da dívida e dos salários dos atletas no futuro;
Atletas poderiam estruturar alternativas de bloqueio e redução salarial, inclusive com renegociação de prazo de contrato. Afinal, alguns atletas podem resolver sair antes, sem multa, enquanto outros podem optar por alongar o contrato;
Temos aqui os 3 players mais importante desta indústria (clubes, atletas e TV), e solução para o desenvolvimento da Série A neste momento passa por um acordo amplo entre eles.

Para os clubes de Série B, C e D a alternativa passa por Clubes e Atletas, pois a presença de TV é menos relevante. E aqui talvez passe por alguma ação específica do Estado, nos moldes do que a CBF fez com clubes das Séries C e D.

E os clubes que estão fora das 4 séries nacionais? Bem, esta é uma questão que precisará ser absorvida pelo Estado e pelas Federações, e daí a conversa futura será mais dura. Afinal, quantos clubes e atletas são efetivamente profissionais, e que em condições normais são capazes de se sustentarem por 12 meses? Este é um tema para a sequência do futebol.

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Momento 2: como seremos no futuro?

Claro que a resposta a esta pergunta é “Não sei”. Mas é fundamental pensar nela seriamente agora. E podemos iniciar assim:
Modelo de Fair Play Financeiro: será inserido rapidamente, e precisa iniciar ajustes já. Quanto antes os clubes se enquadrarem, antes a estrutura se reequilibra;
CBF pode apresentar projeto de consultoria para que os clubes sejam auxiliados a tomarem as decisões corretas em busca do equilíbrio, baseado no objetivo do Fair Play Financeiro;
Precisamos repensar a quantidade de clubes e divisões no Brasil, e o papel das Federações. Não temos tantos clubes e atletas profissionais, e é fundamental transformar clubes profissionais em amadores. Tira a pressão de ter que pagar salários, e isso muda a dinâmica da indústria.

Os campeonatos estaduais deveriam ser longos e funcionar como divisão de acesso à Série D. As federações podem continuar realizando competições no início da temporada, mais curtas e envolvendo os clubes das divisões nacionais, como pré-temporada. Daí reverteria o dinheiro para os clubes menores das divisões locais, e ajudaria no desenvolvimento das divisões amadoras.

Calendário nacional deveria ser de 9 meses pelo menos. E não vou entrar na questão se anual ou europeu, porque esta é uma questão cada vez menos relevante à medida que o maior impacto, que é perder atletas no meio das competições, é cada vez mais raro e envolve atletas cada vez mais jovens. Além do que, em meio de temporada ainda é possível reforçar o elenco com alguém vindo de fora.

Clube Empresa: precisamos de uma discussão mais ampla sobre o tema. Para muitos clubes será a salvação, mas a lei que regerá o tema precisa ser mais completa e racional que a que foi aprovada na Câmara dos Deputados. É falha, contempla muitos benefícios para associações que trouxeram o futebol ao estágio que presenciamos hoje. Será um tiro-no-pé se tiver sequência como está desenhada.

Comissões de Agentes: precisamos urgentemente repensar este tema, não só no Brasil. Segundo estudo da BDO, em 2018 os clubes brasileiros da Série A pagaram R$ 186 milhões em comissões a agentes por negociações de atletas. É dinheiro que sai do sistema e alimenta intermediários. Para se ter uma ideia do impacto disso, representa 3,6% das receitas dos clubes em 2018. E não é só aqui, como disse. Na Itália, em 2019 os clubes pagaram o equivalente a 7% das receitas, ou € 188 milhões, em comissões para agentes, segundo dados da Federação Italiana. Só a Juventus, clube que pagou o maior valor, gastou € 44 milhões no ano passado, e agora negociação redução salarial de € 90 milhões com seus atletas.

Dar sugestão é sempre muito fácil, porque normalmente a implantação não fica com quem recomenda. Mas o futebol não tolera mais gente apontando o que está errado e deixando a solução para outros. Está na hora de pararmos de tocar a campainha e correr, e precisamos começar a oferecer ajuda. Mas, fundamental é que os dirigentes entendam que precisam dela. Ou ficaremos apenas pregando no deserto.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real

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