A realidade bate à porta: o futebol não poderá repetir seus erros após a Covid-19

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Com o mundo praticamente parado, o que resta é administrar as diversas crises que se instalam com as quarentenas mundo afora. Administrar crises de forma eficiente é uma das expectativas que se tem em relação a quem gere um negócio ou lidera uma situação.

No esporte não é diferente. A paralisação repentina das competições traz uma série de problemas e dificuldades, seja competitiva, seja financeira. Ficar parado, e por muitas vezes impossibilitado de treinar, demandará tempo para pré-temporada quando for possível o retorno, seja um jogador de futebol, um tenista ou um nadador. Sob o ponto-de-vista financeiro as dificuldades estão latentes, com redução de receitas, quebra de acordos e patrocínios, e consequentemente queda de renda dos atletas.

Ou seja, como se diz em italiano, “un casino” (lê-se “um cazino”, e significa, “uma zona”, no sentido de uma grande confusão, uma bagunça).
Vou pular aquela parte que diz que o ideograma chinês para crise contém as palavras “perigo e oportunidade”, porque crise é ruim. A ideia de que numa crise surgirão oportunidades é bacana para livro de auto-ajuda, mas a realidade é bem mais dura do que parece.

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A reconstrução de qualquer indústria num pós-crise leva tempo. Veja o que temos passado desde os anos recentes de recessão, assim como veja as dificuldades do mundo após a crise de 2008. Surgiram oportunidades aqui e ali, mas o mundo não foi um lugar muito melhor após 2008, assim como o Brasil não se recuperou em 2018 e 2019.

Pois bem, a crise atual é global, afeta todo mundo, será complicada para ter seus nós desatados. Retomando o que escrevi há algumas semanas, o tempo é a variável mais importante nessa equação, mas a que menos temos capacidade de dominar. Mas será ele quem ditará o tamanho do buraco em que teremos que escalar para voltar a ver a luz do dia.

No esporte está tudo parado. Por incrível que pareça, nessa hora vemos que o futebol pode ser mais rico ou mais pobre, mas as dificuldades são as mesmas. Se a roda para de girar, a bicicleta cai. E na Europa os clubes e atletas estão tentando se organizar para garantir que a roda continue girando, ainda que capenga.

No Brasil a situação é bastante estranha. Os clubes tentam desesperadamente reduzir gastos salariais neste momento, e encontram atletas que não abrem mão de seus direitos. O curioso é que há casos de clubes que não pagam salários há meses e querem reduzir a folha, e atletas que não recebem há meses e estão sendo chamados a “contribuir” com alguma dose de sacrifício.
Conversa de maluco.

– “Eu te devo 3 meses, e a situação está complicada, não tem jogos nem receitas. Então, vamos reduzir os salários em 30%. Assim minha dívida crescerá menos nos próximos meses”.

Seria mais fácil se os clubes fossem organizados, equilibrados e esta fosse uma situação necessária e incomum. Há muitos casos assim na Europa, e temos visto consistentemente anúncios de atletas e clubes que fizeram acordos de redução salarial para ajudar os clubes a pagarem os funcionários que recebem menos. Assim como há clubes que simplesmente não conseguirão pagar, porque já viviam uma situação limite, onde a receita fechava as contas, mas não havias sobras. Ao menos não havia atrasos, e é natural propor medidas de ajuste num momento em que a receita desaparece.

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Me parece que a crise atual não gera uma oportunidade, mas escancara uma realidade que já vem sendo postergada há anos: os clubes precisam mudar. Pelo menos a maioria deles, ou uma boa parte. E a mudança engloba uma série de necessidades.

A primeira delas é a necessidade de operarem de forma equilibrada e dentro e seus limites. Ou seja, é a implantação efetiva de um sistema de Fair Play Financeiro que seja capaz de mudar o perfil dos clubes, de devedores contumazes a estruturas que possam, num momento como este, pedir uma cota de sacrifício aos atletas e receber a mão estendida.

Neste momento, a UEFA sinaliza com a possibilidade de afrouxar as regras do Fair Play Financeiro nesta temporada, mas sua aplicação ao longo dos anos foi um dos aspectos que levaram os clubes europeus a poderem entrar num momento como este minimamente arrumados.

A outra é a modelo de controle acionário. Repito sempre aqui que o modelo não é fundamental, mas que pode ser um acessório importante das boas gestões. E boa gestão pode vir de empresa, associação, ação entre amigos. Mas quando a situação normalizar, clubes que estavam em situação difícil tendem a retornar como personagens secundários de Walking Dead. Não é com um sorriso no rosto que penso nisso. E, para esses casos, só uma mudança estrutural completa pode ser a salvação.

Para isso, é fundamental que o projeto de lei que de certa forma regulamenta os Clubes Empresas seja bem redigido, estruturado para atrair interessados saudáveis aos clubes, e não oportunistas. Ainda há um longo caminho nesse sentido, e sugestões serão apresentadas em breve num estudo que estou conduzindo.

Por fim, é preciso buscar gente nova para tratar do futebol. Não adianta dirigentes que estão na linha de frente, lutando contra as dificuldades do dia-a-dia, se sentarem à mesa com os atletas e negociarem redução salarial num cenário em que já não conseguem honrar com os pagamentos há meses. O futebol precisa de caras novas, estratégias e ideias novas.

Assim como a história do zagueiro Chiellini, da Juventus. Quem ainda não soube, o atleta italiano titular do clube e da Azzurra é formado em Economia e tem Mestrado em Administração, tendo cursado as duas cadeiras enquanto atua pela Vecchia Signora. Foi ele quem estruturou o modelo de renegociação salarial apresentado ao clube, e que contém redução efetiva de salário, mas postergação de parte para 2021, sujeita a algumas metas.

É gente do futebol, mas que usa sua capacidade dentro e fora das 4 linhas. O futebol e o esporte precisam de pessoas que tragam novas ideais e fujam do lugar comum. Mas precisa, necessariamente, de novas práticas e alternativas, que já eram necessárias, mas que a crise da Covid-19 acelerou.

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O tempo vai nos dizer qual o tamanho real do problema. Mas não será repetindo histórias e ações do passado que conseguiremos nos reerguer no futuro.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real

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