O Mercado de Capitais e as Construtoras

Na realidade, essa forma de atração de capitais para investimento desempenhou papel decisivo na estruturação do setor, possibilitando que as construtoras respondessem positivamente ao desafio da mudança de escala exigido para o enfrentamento efetivo do déficit habitacional brasileiro.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

No tópico anterior deste blog, quando situei a Indústria Imobiliária em relação à questão dos financiamentos, ressaltei a situação peculiar desse segmento econômico no que diz respeito à existência de mecanismos eficientes e consolidados de “funding”, destacando, principalmente, o Sistema de Cadernetas de Poupança e o FGTS – Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. Embora admitindo que esses mecanismos tenham representado uma enorme contribuição na estabilidade atual da Construção Civil, comentei, também, que os financiamentos à produção andam escassos, dada a “impossibilidade momentânea de busca de investimentos no próprio mercado privado, já que nos últimos anos a Bolsa de Valores deixou de ser opção para a abertura de capital das construtoras residenciais”. Achei, todavia, que o assunto merecia uma abordagem mais aprofundada. É o que pretendo fazer no presente tópico.

Na realidade, essa forma de atração de capitais para investimento desempenhou papel decisivo na estruturação do setor, possibilitando que as construtoras respondessem positivamente ao desafio da mudança de escala exigido para o enfrentamento efetivo do déficit habitacional brasileiro.Houve um salto extraordinário e a capacidade de produção da indústria nacional passou, em menos de uma década, de 100 mil para meio milhão de unidades habitacionais por ano. Tudo isso, porque mais de vinte construtoras nacionais abriram os seus capitais na Bolsa de Valores, captando recursos em escala crescente essa captação possibilitou crescimento das companhias na ordem de 50% ao ano, a partir do exercício de 2005.

Evidentemente, esse mecanismo de busca de capitais no mercado, que estava plenamente disponível antes da deterioração da realidade econômica brasileira, não foi o único ingrediente usado para robustecer e estruturar as construtoras nacionais. O desafio era muito maior e mais complexo. A título de exemplo, merecem ser registrados: a falta de mão de obra qualificada, o excesso de burocracia e a lentidão dos órgãos públicos (que não estavam e ainda não estão completamente preparados para atender a demanda crescente das construtoras), a cadeia de fornecedores, que também teve dificuldades em acompanhar o ritmo do salto para o futuro e, até mesmo, a escassez de alguns insumos e equipamentos mais críticos. Da parte das construtoras também houve dificuldades enormes a serem vencidas, incluindo as administrativas e gerenciais. De certa forma, essas últimas foram responsáveis por alguns atrasos na entrega de obras, especialmente daquelas lançadas no início do período de expansão, com a inevitável insatisfação dos clientes e compradores. No entanto, todas essas dificuldades foram sendo paulatinamente enfrentadas e vencidas até que se consolidasse o vigor atual da configuração alcançada pela Indústria Imobiliária.

Esse esforço de estruturação e expansão valeu a pena. Depois de nove anos (com a grande crise financeira de 2008 intercalada no período), as empresas que abriram o seu capital em Bolsa de Valores foram se ajustando num processo de acomodação natural ao mercado (com vendas, incorporações e fusões), restando pouco mais de uma dezena daquele conjunto original de empreendedores. No entanto, como resultado dessa depuração, a economia brasileira dispõe, hoje, de construtoras fortes e saudáveis, e devidamente capacitadas para enfrentar o desafio de construir 35 milhões de novas moradias nos próximos 20 anos, quantidade exigida para o enfrentamento do déficit habitacional remanescente, para atender o crescimento vegetativo do mercado imobiliário e para efetivar o percentual de reposição das unidades residenciais existentes.

Acrescente-se a essa realidade, a constatação de que as atuais companhias de capital aberto já apresentam um indicador importante de maturidade gerencial e financeira: em conjunto e pela primeira vez desde a expansão do setor, essas empresas alcançaram geração de caixa positiva no pimeiro trimestre de 2014. Ou seja, esse conjunto de pouco mais de uma dezena de empresas remanescentes está operando de forma correta, eficiente e segura. Contudo, o testemunho final e irretorquível da qualidade da estruturação obtida no segmento está consubstanciado no baixo índice de “recall” registrado pela Caixa Econômica Federal, principal agente financeiro do programa habitacional brasileiro. Todas essas observações elencadas resumidamente reforçam o meu sentimento pessoal de confiança no desempenho futuro das construtoras brasileiras. Pelo menos daquelas que efetivamente pesam no mercado imobiliário macional.

Rubens Menin